“Estás na Rússia. Aqui acontecem coisas más”
09-08-2018 - 07:23
 • Filipe d'Avillez

Donald Ossewaarde cresceu a temer a Rússia, mas depois da queda do comunismo mudou-se para lá com a família como missionário evangélico. A dedicação de 16 anos acabou de um dia para o outro com a publicação de uma lei contra as seitas.

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Toda a vida foi ensinado a temer a Rússia, a principal inimiga do seu país, América.

Mas quando o comunismo caiu, o pastor baptista Donald Ossewaarde tomou uma decisão que iria mudar para sempre a sua vida e a sua visão daquele país. Fez as malas e mudou-se para a cidade de Oriol, a 360 quilómetros de Moscovo, com a sua mulher e os seus quatro filhos.

Aprenderam a língua e adaptaram-se. “Tínhamos liberdade total para fazer o que quiséssemos, em termos de ministério. Podíamos falar com as pessoas nas ruas, distribuir literatura, trechos bíblicos. Toda a gente sabia quem nós éramos. Éramos os únicos americanos num raio de quase 400 quilómetros, toda a gente sabia que eu era o americano, o baptista. Nunca conseguimos atrair muita gente, mas toda a gente sabia que estávamos lá”, explica Ossewaarde, que era frequentemente convidado para falar no departamento de inglês da Universidade local.

Colocavam cartazes na rua, cartas nas caixas do correio. Nunca foram criticados e só uma vez as autoridades ameaçaram o pastor. “Era feriado e os russos, como é habitual, tinham saído à rua para festejar. Estava na rua a distribuir bíblias e um agente das FSB, a ex-KGB, claramente embriagado e sem perceber que já não estava na União Soviética, disse-me que me ia prender, porque eu não podia estar a fazer aquilo. Era uma anedota, ele estava completamente bêbado. Então eu disse que primeiro tinha de ir a casa buscar os meus documentos e ele disse que podia ser. Entrámos num autocarro, mas pelo caminho ele viu uma rapariga gira e começou a meter-se com ela, esquecendo-se de mim. Saí na próxima paragem”, recorda, entre risos.

Mas tudo estaria prestes a mudar. O Governo estava a discutir uma lei, supostamente para combater o extremismo islâmico, que proibiria as “seitas” na Rússia. Ao princípio Ossewaarde não ligou muito ao assunto, mas rapidamente outros pastores evangélicos o avisaram para estar atento e foi ler a lei.

“A minha primeira impressão foi que esta lei ia acabar completamente com a nossa atividade. A lei diz que não se pode ter serviços religiosos numa casa privada, não se pode distribuir literatura nas ruas sem autorização do Governo. Era muito restritiva. Mas depois vi que a lei apenas se aplicava a organizações religiosas registadas. Eu estava a operar enquanto indivíduo, por isso legalmente não se aplicava a mim.”

Consultou advogados, que lhe garantiram ser esse o caso, mas que o advertiram que mesmo assim poderia ter problemas.

Julgamento relâmpago

Tudo aconteceu num domingo de manhã. Três polícias entraram na sua casa, onde decorria um serviço religioso, e interrogaram-no. Explicaram que não estava detido, mas que tinha de os acompanhar até à esquadra. Depois disseram que continuava a não estar detido, mas tinha de os acompanhar até ao tribunal onde, apesar de ser domingo, foi julgado no espaço de horas e condenado, sem que pudesse ter os seus advogados presentes.

Decidiu recorrer, mas passado alguns dias recebeu um telefonema do advogado oficioso. “Ele disse-me que eu era um tipo porreiro, e que ele não queria que nada de mal me acontecesse. Mas que faria bem em não recorrer da decisão.”

Deveria simplesmente voltar para os Estados Unidos, onde estaria em segurança, disse o advogado, porque “isto é a Rússia, aqui podem acontecer coisas más”.

Passados três dias a mulher e os filhos estavam nos Estados Unidos. Mas o pastor permaneceu e lutou nos tribunais, tendo perdido em toda a linha, até ao Supremo Tribunal. O seu caso está agora pendente no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, onde será defendido pela Alliance Defending Freedom (ADF), uma organização jurídica que trabalha na área da liberdade religiosa.

A fachada de Putin

Foi durante uma conferência promovida pela ADF que Ossewaarde contou a sua história e conversou com a Renascença, alertando que a imagem que alguns conservadores têm de Vladimir Putin enquanto defensor dos valores tradicionais é perigosa.

“Muitos americanos dizem-me, surpreendidos, ‘pensava que Putin era um homem muito religioso e moral, é contra o aborto e contra a agenda homossexual’, ao que eu respondo que isso é porque Putin gasta centenas de milhões de dólares em todo o mundo para se promover enquanto líder moral do mundo, porque isso lhe dá jeito, internacional e nacionalmente. Mas na minha opinião isso é só uma fachada”, diz.

O pastor lamenta ainda que a Igreja Ortodoxa Russa tenha sido conivente com esta lei que, na altura em que conversou com a Renascença, não tinha sido usada contra qualquer muçulmano. “Sinto, certamente, que a Igreja Ortodoxa Russa apoiou o que aconteceu e que a legislação, conforme estava redigida, foi aplicada à luz da vontade de promover a Igreja Ortodoxa enquanto a instituição central da Rússia.”

“Creio que Putin usa a Igreja Ortodoxa como uma ferramenta, que a Igreja Ortodoxa o apoia por causa proteção que recebe do Governo”, conclui Donald Ossewaarde.

Apesar do sofrimento causado, o pastor baptista insiste que continua a amar profundamente a Rússia. “Dediquei 22 anos da minha vida a este país”, afirma, entre lágrimas, “amava-o muito. Passou de ser o meu maior inimigo e o meu maior medo a um lugar que eu amava muito”.