​“O trabalho é saudável para as pessoas”. Esta e outras frases de David Autor para pensar ou discordar
Editado por José Pedro Frazão
Inserido em 10-10-2018 11:31

Como pode ser o trabalho do futuro? Será que as máquinas vão dominar as relações laborais e roubar os empregos de hoje? A formação pode fazer a diferença? A Renascença entrevistou o diretor-adjunto do Departamento de Economia do MIT, uma das instituições académicas mais prestigiadas do mundo.

A vida é assim, podemos sempre falar de trabalho a contemplar o lazer. David Autor recebe-nos numa sala de hotel a 50 metros do Tejo, que iria velejar depois desta entrevista. O norte-americano é um economista altamente especializado no tema do último encontro anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, onde foi um dos oradores internacionais.

O trabalho, os salários, o papel social - e não apenas económico - dos empregos, a responsabilidade da sociedade e as competências que o Estado pode fornecer foram temas tocados numa conversa rápida com a Renascença, ocorrida à intensa velocidade com que se expressa este professor do Massachussets Institute of Technology (MIT).

Há a ideia generalizada que a automação está a destruir empregos. A sua tese é a contrária. Com que números?

A automação está a mudar muito os empregos. Certamente está a matar o trabalho a muita gente mas está a criar empregos. O efeito líquido ao longo do tempo tem sido um aumento do emprego e da prosperidade. Há 100 anos, na maior parte dos países avançados, apenas uma parte pequena da população adulta fazia parte da força de trabalho. As mulheres por exemplo trabalhavam em casa. No último século, na maioria dos países, a fração de adultos com emprego remunerado tendeu a aumentar. As pessoas trabalham menos horas do que faziam até aí, reformam-se antes de morrerem, têm fins-de-semana e feriados. Isso é bom, reflecte o aumento da riqueza.

Neste momento, muitos países estão a meio de um forte ciclo de crescimento de prosperidade e emprego. Na verdade muitas economias avançadas têm falta de mão de obra, reflectindo uma fração mais curta de pessoas jovens numa população em declínio na fertilidade. Não creio que o desafio que enfrentamos passa pelo número de empregos ou se haverá suficientes empregos. É mesmo a natureza desses empregos que interessa. Se eles oferecem segurança económica, se fornecem um padrão de carreira que pode levá-los a melhores competências e salários. Ou se os empregos verdadeiramente bons estão disponíveis para a maioria das pessoas.

O desafio que enfrentamos no mundo industrializado é uma espécie de bifurcação do emprego. Por um lado, requer-se um profissional altamente especializado e formado, o que implica criatividade e capacidade de avaliação. Muitos destes empregos são bem pagos, oferecem segurança, mas requerem competências especializadas e educação. Por outro lado, temos um crescimento de serviços personalizados, como alimentação, limpeza, cuidados de saúde domiciliários, segurança. Esses trabalhos são inúmeros mas não requerem uma grande especialização. Muita gente pode ser produtiva com estes trabalhos durante umas horas ou dias. Esses trabalhos tendem a ser menos bem pagos, porque essas competências não são escassas e oferecem muito pouca segurança. Simultaneamente observamos uma diminuição de educação média e de trabalhos médios. Portanto, a questão não é de números mas da natureza do trabalho.

Mas há trabalhos mais ameaçados que outros por esta mudança tecnológica, como é o caso de trabalho mais rotineiro. É o mesmo filme que vimos nas revoluções tecnológicas anteriores, onde os cavalos ganharam novo papel na sociedade?

Essa é uma boa maneira de colocar a questão, mas não é o mesmo filme. Cada revolução tecnológica teve diferentes características em termos do tipo de trabalho que foi substituído. Os cavalos foram de facto substituídos pelo motor de combustão interna e foram para a fila dos desempregados. Os cavalos não tinham sindicatos e não eram proprietários das máquinas. Lembre-se que as máquinas trabalham para as pessoas e se as máquinas forem mais produtivas não ficam mais ricas. As pessoas, sim, vão ficar mais ricas.

Sim, é possível que algumas profissões se tornem obsoletas e não competitivas. Se for iletrado e não perceber de números há muito poucos empregos que paguem um salário decente. Enquanto que há 100 anos, se tivessem umas costas fortes e um bom carácter, poderia trabalhar numa quinta ou em mudanças. Não ganharia muito mas o recurso era escasso.

Falou muito de educação. É um factor crítico aqui. Vê bons exemplos de trabalho relevante feito nesta área para lidar com esta mudança, requerendo outra literacia?

É uma boa questão. A educação foi central por mais de um século. O modo como nos adaptámos às tecnologias que criámos surgiu pela educação. Temos competências formais e de comunicação para sermos produtivos num contexto em que há muitas máquinas e tudo é bastante mecanizado. Não penso que precisamos de uma terceira literacia. Não acredito que as tecnologias actuais exijam um conjunto de competências substancialmente diferentes. Não penso que toda a gente deve agora aprender agora programação Java. Isso é uma loucura, como se toda a gente tivesse que aprender a reparar carros porque conduz um automóvel. Algumas pessoas precisam de aprender isso, precisamos de mecânicos e programadores Java. O facto de haver muito software no mundo não significa que toda a gente tenha que ser um programador.

Contudo, as pessoas serão gradualmente mais convocadas a usar criatividade e a capacidade de ajuizar com razão para poder tomar decisões importantes. Se o trabalho é apenas repetitivo, que apenas cumpre uma tarefa bem compreendida, isso será feito por uma máquina. Isso já é verdade no mundo do processamento de informação ou num contexto de uma fábrica, por exemplo. E será cada vez mais verdade mesmo num contexto mais flexível de serviços, seja comidas ou limpezas. Tudo isso será mais difícil de automatizar, porque requer flexibilidade e adaptabilidade. Mas essas capacitações estão a chegar. O que não será facilmente substituído é tudo o que requer criação, novas ideias, desenvolvimento, liderança, produção, tratar dos outros. Há muito trabalho especializado que vai continuar a aumentar. A tecnologia já causou a erosão de muitos trabalhos para pessoas que não tinham grandes competências.

Se considera que a criatividade é o factor mais crítico para vencer neste ambiente, como é que a inclui no sistema de educação?

Boa questão. Somos muito maus a ensiná-la, mas não me refiro a ela da mesma forma como outros o fazem. É muitas vezes uma disciplina que pega num problema difícil e encontra uma boa solução. A criatividade é útil na investigação, no cuidado com os outros, na publicidade ou no marketing. Mas tudo isto está no Direito, no jornalismo, no entretenimento. As competências fundamentais são o domínio da especialidade e o pensamento crítico, racional, sobre o que faz sentido ou não. E também a capacidade de comunicação e liderar e trabalhar com outros. São competências centrais numa sociedade inter-conectada. O nosso sistema educacional tenta ensinar isto tudo, mas com graus de sucesso muito diferentes.

Estamos muito atrasados face às necessidades?

Penso que a questão não se coloca tanto na alta formação. As crianças precisam de aprender factos e certas competências mas também têm que aprender a pensar de forma analítica, a expressar ideias, a escrever em apresentações, a trabalhar com outras. Eventualmente essas ferramentas vão ter que se aplicar a um domínio específico, à medicina, ao Direito, à engenharia, à contratação ou a reparações. As competências preencherão esses campos mas serão sempre valiosas em qualquer campo. Tem que ter um conjunto fundamental de capacidades e especialização em determinados domínios.

A ideia de introduzir a automação é aumentar a produtividade económica, o que pode levar a uma sociedade eventualmente mais rica. Qual será o impacto provável em termos sociais nestas comunidades? Podemos contar com uma mudança na forma de trabalhar e no tempo que devotamos ao trabalho face ao que deixamos para a família?

Não há dúvida que estas mudanças levarão a maior produtividade. Mas o desafio da distribuição é muito significativo. Noutras eras tivemos mudanças tecnológicas aparentemente mais propícias à igualdade e estas parecem ser geradoras de mais desigualdade. A revolução industrial trouxe muita gente de uma agricultura de produtividade relativamente baixa para a manufactura de produtividade relativamente elevada. Criou muita riqueza para muita gente.

Estamos agora a criar riqueza mas altamente concentrada, parecendo recrutar os detentores de algumas poucas ideias. É uma revolução tecnologicamente virtuosa que estimula a produtividade e ao mesmo tempo aumenta os salários de muita gente. Mais desafiante será aumentar a produtividade e criar redistribuição. Penso que o problema que temos hoje não é a criação de riqueza, mas o facto de não ser redistribuída de forma relativamente equitativa. Para a maioria das pessoas, a grande fatia da sua riqueza vem do seu próprio trabalho. Nasce-se com determinadas competências, investe-se nelas, vai para a escola e depois vende essas competências no mercado laboral durante 25 anos e depois reforma-se. O nosso trabalho fundamenta-se essencialmente na noção de escassez de trabalho. Tem um conjunto de competências escassas que tem determinado valor de mercado. Se o trabalho se tornar menos escasso devido à automação em determinadas profissões, teremos ainda assim muita riqueza mas cada vez menos pessoas poderão reclamar alguma dessa riqueza. Esse é o desafio que enfrentamos.

Como é que as pessoas vão gastar o seu tempo ? Observamos cada vez mais nos países ricos a uma estranha dicotomia onde as pessoas que têm altos rendimentos gastam cada vez mais tempo a trabalhar. Não o usam muito para lazer. As pessoas que têm baixos rendimentos têm muito lazer sobretudo involuntário. Isso é também uma grande mudança. Historicamente quem tem menos rendimentos trabalha também mais horas. Agora estamos a ver que pessoas com mais dinheiro a trabalhar mais horas. Porquê? O mercado premeia bastante um trabalho muito especializado. Se ganha tanto por hora, porque razão há de querer dormir ou ver televisão ou até comer? Pode ser pago nesse tempo!

Muitos trabalhos são indivisíveis. Não posso ser um professor em part-time. Ou faço isto ou não faço isto. O mesmo se pode dizer de um médico. Este tipo de empregos aparentam ser indivisíveis, têm retornos cada vez maiores de especialização e altos graus de esforço. E também porque há uma escassez de pessoas com essas competências. São constantemente empurrados para mais trabalho. Não me preocupo que as pessoas trabalhem muito e que sejam muito bem pagas. Preocupo-me com baixos e involuntários níveis de emprego o que leva a muita frustração e falta de empenho.

Há os que tendem a ver o trabalho como um mal. Algo que se faz para ter rendimentos para suportar o consumo de que gostamos, mas se podermos ter o consumo sem o trabalho, estaremos melhor ainda. Não penso que isso seja rigoroso. O trabalho é central como um principio de organização de vida. Dá um propósito, identidade , estatuto social às pessoas. Dá-lhes um conjunto de amigos, relações e responsabilidades. O trabalho é saudável para as pessoas.

Mas sem um sistema de protecção social para lidar com os excluídos desta mudança, essas pessoas terão problemas muito grandes.

Completamente. Isso está completamente certo. O sistema de protecção social precisa de ter alguns componentes. Uma delas é uma rede de segurança social. Outro é um sistema de educação que permita às pessoas serem produtivas. E têm que existir os incentivos certos. Muitas pessoas falam num possível rendimento básico universal. Não estou a favor dessa ideia. Não vejo a virtude de divorciar o rendimento do trabalho. Acho que trabalhar é bom para as pessoas. Não quero tornar as coisas fáceis para eles por não trabalharem, ao dar-lhes um rendimento sem trabalhar. Preferia usar esse mesmo dinheiro para subsidiar trabalho, para aumentar salário para pessoas que efectivamente trabalham. Não penso que as pessoas funcionarão bem num contexto em que as pessoas têm essencialmente um lazer remunerado. Não penso que seja uma receita para a satisfação. Acho que vai criar inimigos sociais e frustração.

Qual foi a última estatística que o surpreendeu neste debate?

É uma boa questão (pausa longa). A última coisa que me surpreendeu e que recentemente tomei conhecimento é a quantidade de trabalho escondido - como um fantasma na máquina - de pessoas que efetivamente funcionam como pequenas ligações num sistema maior de informação. A maior parte da inteligência artificial que vemos tem gente escondida dentro do sistema.

Por exemplo, você chama um Uber. O condutor recebe a indicação e vai buscá-lo. Têm que digitalizar a foto do condutor para a aplicação da Uber para confirmar à Uber que eles são quem dizem ser. Mas se ele tirar a barba, o software não consegue confirmar se é a mesma pessoa ou não. O que acontece é que essa foto foi enviada para alguém nas Filipinas, que nesse momento olha para ela e diz se é ou não a mesma pessoa. Se disser que sim, o condutor vai aparecer. Se disser que não, o Uber será cancelado.

Há uma antropóloga chamada Mary Gray que tem escrito sobre isto. Ela descreve uma rede de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que basicamente fazem estas pequenas tarefas dentro da economia de informação e que fazem funcionar a inteligência artificial. Há mais humanos na máquina do que nós possamos supor. Não só é interessante em termos do nosso entendimento da inteligência artificial mas também sobre o tipo de tarefas que as pessoas estão a fazer. Este é cada vez mais um novo tipo de trabalho de serviços que se desenrola debaixo do radar e que é bastante consequente não só no mundo dos ricos mas também em países como as Filipinas, onde muita gente está ligada a este tipo de trabalhos.