Plácido Domingo acusado de assédio sexual. Tenor já reagiu: "Regras de hoje são muito diferentes das do passado"
13-08-2019 - 09:49
 • Marta Grosso com redação e agências

As acusações remetem ao início da carreira do tenor, um dos mais famosos do mundo. "Estava sempre a tocar-nos de alguma maneira e sempre a beijar-nos."

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O espanhol Plácido Domingo, de 78 anos, é acusado de assédio sexual por nove mulheres. A notícia é avançada esta terça-feira pela agência Associated Press (AP), que revela as acusações de oito cantoras e uma bailarina.

As mulheres terão sido assediadas no início da sua carreira. O tenor tê-las-á pressionado a ter relações sexuais em troca de cargos e punido profissionalmente as que se recusavam e travavam os seus avanços, relata a AP.

O assédio terá ocorrido a partir do final da década de 1980, em locais onde Domingo (casado desde 1962 com Marta Domingo) ocupava altos cargos de direção, como companhias de ópera.

Segundo os relatos das mulheres agora divulgados pela Associated Press, o tenor terá algumas vezes colocado a mão por baixo das saias e três delas afirmam que Plácido Domingo forçou “beijos molhados” nos lábios - no camarim, outro num quarto de hotel e ainda outro numa reunião tida à hora do almoço.

"Um almoço de negócios não é estranho, mas ter alguém a tentar segurar a sua mão durante um almoço de negócios é estranho. Ou colocar a mão no joelho”, diz uma das cantoras, não identificada pela AP.

“Ele estava sempre a tocar-nos de alguma maneira e sempre a beijar-nos”, acrescenta.

Das nove mulheres citadas pela AP, apenas a mezzo soprano Patricia Wulf é identificada. Cantou com Domingo na Ópera de Washington. As restantes pediram o anonimato, dizendo que ou ainda trabalham no negócio e temiam represálias ou temiam que pudessem ser publicamente humilhadas.

Além destas, outras seis mulheres revelaram à Associated Press que Domingo convidava frequentemente para sair e jantar as cantoras que contratava para uma série de concertos nos anos de 1990.

Mais de 30 outros cantores, dançarinos, músicos de orquestra, membros da equipa de bastidores, professores de voz e ainda um administrador admitem à AP que testemunharam o comportamento inadequado de Plácido Domingo, que perseguia as mulheres mais jovens com impunidade.

Plácido Domingo é um dos mais famosos e poderosos homens no mundo da ópera. É conhecido como um dos melhores tenores mundiais, enche as salas de espetáculo por onde passa e já ganhou vários Grammy.

É também descrito pelos pares como uma figura respeitável, dotada de um charme prodigioso e de uma energia sem fim para promover a sua arte.

“Acreditei que as minhas interações eram consensuais”

Plácido Domingo recusou responder a perguntas detalhadas da AP sobre incidentes específicos, mas reagiu à notícia em comunicado, negando os relatos e apontando imprecisões nas histórias contadas. Reconhece, contudo, que as regras de hoje são muito diferentes das do passado.

“As alegações desses indivíduos não identificados que remontam a 30 anos são profundamente perturbadoras e, conforme apresentadas, imprecisas. Ainda assim, é doloroso ouvir que eu posso ter incomodado alguém ou fazê-lo se sentir desconfortável – não importa há quanto tempo e apesar das minhas melhores intenções”, afirma.

“Acreditei que todas as minhas interações e relacionamentos eram sempre bem-vindos e consensuais. Pessoas que me conhecem ou que trabalharam comigo sabem que não sou alguém que intencionalmente prejudique, ofenda ou envergonhe alguém”, sublinha.

“No entanto, reconheço que as regras e padrões pelos quais somos medidos hoje são muito diferentes do que eram no passado. Sou abençoado e privilegiado por ter uma carreira de mais de 50 anos em ópera e guio-me pelos mais altos padrões”, conclui.

Sete das mulheres que acusam Plácido Domingo de assédio admitem que podem ter sido prejudicadas nas carreiras depois de rejeitarem os avanços do tenor.

A Associated Press garante que, antes de divulgar a notícia, conversou com colegas e amigos das alegadas vítimas, para confirmar a veracidade dos relatos, e verificou de forma independente que as mulheres trabalhavam onde diziam e que Domingo detinha, aí, um cargo superior ao delas.

A AP reteve ainda certos detalhes que poderiam levar à identificação do acusador.