Morreu o Papa emérito Bento XVI, um "colaborador da verdade"
31-12-2022 - 09:53
 • Aura Miguel , Marta Pedreira Mixão

Uma pessoa dedicada à Igreja. Um intelectual incontornável no mundo académico e cultural. Retrato da vida do primeiro Papa da história moderna da Igreja a resignar, que partiu este sábado, aos 95 anos.

Morreu sua santidade o Papa Emérito Bento XVI este sábado, 31 de dezembro, às 9h34, anunciou o Vaticano. Tinha 95 anos. Foi o primeiro pontífice católico a completar essa idade.

“Com pesar informo que o Papa Emérito Bento XVI faleceu hoje às 9h34, no Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano. Assim que possível, serão enviadas novas informações”, refere o comunicado do diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni.

O corpo do Papa Emérito estará na Basílica de São Pedro para a saudação dos fiéis a partir da segunda-feira, 2 de janeiro, avança o Vatican News.

Em oito anos de um pontificado marcado pelas primeiras denúncias de abuso sexual de menores por elementos do clero, Bento XVI enfrentou a Cúria romana e acabou a ser "traído" pelo seu mordomo - num escândalo que daria origem ao Vatileaks.

Entre 2005 e 2013, foram vários os momentos de tensão a marcarem o seu percurso, em primeiro lugar com o mundo muçulmano, por causa das suas declarações em Ratisbona sobre Maomé e a liberdade da fé -- e mais tarde com o levantamento da excomunhão a quatro bispos lefebvrianos, sendo um deles revisionista do Holocausto. Esta situação mereceu um documento do Papa, reafirmando a doutrina do Concílio Vaticano II sobre os judeus e lamentando os ataques a Bento XVI por parte dos próprios católicos.

Polémicas foram também as suas declarações sobre o preservativo, cuja divulgação fora do contexto pelos media ensombrou a viagem do Papa a África e provocou uma onda de reações negativas.

Criticado por muitos, sobretudo no Ocidente e na Velha Europa, Bento XVI deixou sempre claro que as palavras do Papa e a doutrina da Igreja não se podem adaptar nem adulterar em função de modas ou oportunismos.

“O Papa não é um soberano absoluto cujo pensar e querer são leis. Pelo contrário: o ministério do Papa é a garantia da obediência a Cristo e à sua palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência da palavra de Deus perante todas as tentativas de adaptação, de adulteração e todo o tipo de oportunismo.”

Um mundo rendido ao Papa da razão

Direto ao assunto e com palavras certeiras, Bento XVI traçou diagnósticos realistas sobre o homem contemporâneo e as feridas da sociedade. Impedido por alguns professores de discursar na Universidade Romana “La Sapienza”, reuniu, no entanto, grandes consensos entre intelectuais, homens de cultura e estadistas.

Viajou o quanto pôde, incluindo a lugares complicados, como o Líbano e Cuba e há um traço comum a todas essas viagens apostólicas: às previsões de um falhanço mediático, com cobertura noticiosa negativa, missas campais vazias e desinteresse geral da população, seguia-se a admiração por um sucesso triunfal, com “casa cheia” em todo o lado e um mundo cultural rendida ao Papa da razão.

Entre todas as viagens destaca-se aquela feita a Portugal, onde o Papa até teve de ir à janela da casa onde estava a dormir para, com sorriso na cara, mandar calar os jovens que velavam em ambiente festivo. Diz-se que chegou a Portugal cansado e saiu com novo vigor. Talvez isso o tenha ajudado a aguentar mais três anos, até se render mesmo ao cansaço e fraqueza em fevereiro de 2013.

Criado num ambiente "mozartiano"

Nascido numa pequena aldeia da Baviera, Marktl am Inn, a 16 de Abril de 1927 (Sábado Santo), Joseph Ratzinger foi batizado nesse mesmo dia.

O seu pai era comissário da polícia, por isso passou a infância e adolescência em Traunstein, perto da fronteira com a Áustria e foi neste ambiente, por ele próprio definido “mozartiano”, que recebeu a sua formação cristã, humana e cultural.

O período da juventude não foi fácil. Naqueles tempos de regime nazi vivia-se um clima de grande hostilidade contra a Igreja Católica, mas foi precisamente aí que o jovem Joseph descobria a sua vocação. Nos últimos meses da II Guerra Mundial foi obrigado a integrar os serviços antiaéreos alemães. No final da guerra, voltou para o Seminário e foi ordenado padre em 29 de Junho de 1951.

Um ano depois começou a ensinar na Escola Superior de Freising. Em 1953, doutorou-se em Teologia com uma tese sobre Santo Agostinho. Foi professor de Teologia em várias faculdades e, em 1969, passou a catedrático na Universidade de Ratisbona, onde ocupou também o cargo de vice-reitor.

Foi perito no Concílio Vaticano II. Em 1977, Paulo VI nomeou-o Arcebispo de Munique e Freising. O lema que então escolheu para bispo acompanhá-lo-ia depois, como Papa: “Colaborador da verdade”. E escolheu este lema, segundo explicou, “porque no mundo atual omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo demasiado grande para o homem; e, todavia, tudo se desmorona quando falta a verdade”.

De cardeal a Papa

Foi feito Cardeal em 27 de Julho de 1977 e, em 1981, João Paulo II nomeou-o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional.

Foi também responsável pelo novo Catecismo da Igreja Católica. Publicou dezenas de livros, ensaios e meditações que se tornaram uma referência incontornável no mundo académico e cultural.

Eleito Papa no Conclave de 2005, escolheu o nome Bento XVI por admirar os esforços de paz de Bento XV e ter como referência São Bento, pai do monaquismo e padroeiro da Europa.

Bento XVI foi um Papa contracorrente, como muitas vezes acontece quando se obedece à fé, como o próprio recordou ao tomar posse da Cátedra de Pedro.

“Este poder de ensinamento assusta muitos homens dentro e fora da Igreja. Perguntam-se se ela não ameaça a liberdade de consciência, se não é uma presunção oposta à liberdade de pensamento, mas não é assim. O poder conferido por Cristo a Pedro e aos seus sucessores é, em sentido absoluto, um mandato para servir. O poder de ensinar na Igreja implica um compromisso ao serviço da obediência à fé.”

Eleito aos 78 anos, Ratzinger foi o primeiro Papa a ter, em 2012, uma conta de Twitter, marcando assim uma abertura por parte da Igreja às plataformas digitais. Com a primeira publicação na rede social, a 12 de dezembro desse ano, rapidamente alcançou um milhão de seguidores.

A traição que originou o Vatileaks

A entrada no Twitter deu-se meses depois de o seu mordomo, Paolo Gabriele - que o acompanhava sempre e tinha acesso aos seus aposentos privados -, ter enviado a vários jornais italianos excertos de cartas privadas.

A sua publicação acabaria por levantar suspeitas de corrupção, para além de revelar os conflitos internos que então atingiam a Cúria romana, dando origem ao caso que ficaria conhecido como "Vatileaks". O mordomo explicaria, mais tarde, que tinha a "convicção de ter atuado por amor exclusivo" à Igreja e ao próprio Papa.

Gabriele foi condenado a 18 meses de prisão por "furto agravado", mas foi perdoado a dezembro de 2012 pelo papa Bento XVI, que lhe terá levado a notícia pessoalmente à cela. Durante o seu pontificado, o Vaticano abriu as portas dos tribunais, permitindo aos jornalistas acompanhar um dos julgamentos mais relevantes da história da Igreja católica moderna.

Face aos vários escândalos que vieram ao público, Bento XVI decidiu renovar parte da Cúria Roma.

Durante os oito anos do seu pontificado, conduziu a Igreja Católica com base no diálogo entre fé e razão e no ecumenismo. O diálogo com os judeus também foi uma das suas prioridades, além de se terem verificado avanços significativos com os muçulmanos - depois das declarações em Ratisbona sobre Maomé e a liberdade da fé, Bento XVI entrou em várias mesquitas e mostrou-se disponível para um melhor entendimento das virtudes do islão.

Uma das heranças do pontificado anterior foi a questão dos abusos. Bento XVI teve mão firme em condenar os culpados e o Papa Francisco elogiou a determinação com que Ratzinger enfrentou o tema. Reforçou as sanções canónicas, identificou os vários tipos de delito, pediu maior controlo na admissão aos seminários e rigor na formação do clero.

Em várias viagens pastorais, não só condenou esses crimes do passado como recebeu, a título privado, algumas das vítimas, com quem dialogou, como aconteceu nos EUA e em Sidney, na Austrália.

A retirada da vida pública

A 11 de fevereiro de 2013, tornou-se o primeiro Papa em cerca de 600 anos a renunciar ao pontificado.

Desde então, viveu no Mater Ecclesiae, um mosteiro nos jardins do Vaticano, assistido pelo seu secretário particular e um grupo de leigas da associação ‘Memores Domini’. No anúncio explicou que resignava por motivos de idade e não por se encontrar com força para exercer de forma idónea o seu ministério.

Em 2022, o Papa Bento XVI foi acusado de ter encoberto quatro casos de abuso de menores, na altura em que era arcebispo de Munique, entre 1977 e 1981, e de não ter comunicado o sucedido ao Vaticano.

A acusação constava de um relatório divulgado pela sociedade de advogados Westpfahl Spilker Wastl, a quem a arquidiocese de Munique e Freising tinha pedido que investigasse casos de abusos de menores ocorridos na arquidiocese.

O Papa emérito começou por negar a participação numa reunião em 1980 em que se discutiu o caso de abusos cometidos por um sarcedote em concreto, mas mais tarde admitiria ter prestado uma informação errada, reconhecendo que “erroneamente foi afirmado que não compareceu na importante reunião” de 15 de outubro de 1980, mas que na dita reunião “não foi tomada nenhuma decisão sobre a missão pastoral do padre em questão”.

Em fevereiro deste ano, numa carta pública, Bento XVI afirmava sentir “grande culpa” e pedia “perdão” pelos erros de avaliação que possa ter cometido.

A 28 de dezembro, o Papa Francisco pedia a todos "uma oração especial" pelo seu antecessor, que se encontrava "gravemente doente". Horas depois, o Vaticano confirmava que a saúde de Bento XVI tinha piorado "nas últimas horas" devido à sua idade e que os médicos estavam a vigiar constantemente a condição do Papa emérito.