Von der Leyen exclui alianças pós-eleitorais com a extrema-direita pró-Putin
23-05-2024 - 20:14
 • Miguel Marques Ribeiro

Os cinco candidatos à presidência da Comissão Europeia participaram esta quinta-feira num debate, em Bruxelas. As forças de extrema-direita não estiveram presentes, mas foram elas muitas vezes que estiveram no centro da discussão.

Ursula Von der Leyen recusa fazer alianças com a extrema-direita europeia pró-Putin depois das eleições de 9 de junho para o Parlamento Europeu.

No entanto, a atual presidente da Comissão Europeia e candidata a um segundo mandato perlo Partido Popular Europeu, não fecha a porta a negociações com deputados ou partidos da direita radical, desde que estes cumpram três requisitos: ser pró-europeus, pró-Ucrânia e respeitadores do Estado de Direito.

Esta é uma das principais conclusões do debate realizado em Bruxelas entre os cinco candidatos à presidência da Comissão Europeia, que a Renascença também transmitiu em direto, em vídeo.

Para além de Von der Leyen, do PPE, participaram Nicolas Schmit do Partido dos Socialistas Europeus, Walter Baier, da Esquerda Europeia, o italiano Sandro Gozi, indicado pelos liberais do Renew Europe e Terry Reintke, dos Verdes.

As duas famílias que reúnem as forças de direita radical, o Identidade e Democracia (que integra o Chega) e o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus, foram os grandes ausentes do painel, por não terem indicado um candidato à presidência da Comissão.

O espetro da ascensão destes movimentos na Europa acabou, no entanto, por influenciar o debate à medida que os argumentos iam sendo esgrimidos, tal como a ameaça da Rússia.

O formato escolhido para o debate incluiu perguntas feitas por uma plateia formada por jovens que vão participar pela primeira vez no plebiscito e a ligação a diversas capitais europeias para que jornalistas ou cidadãos locais colocassem questões.

A discussão foi dividida em várias secções temáticas, no final das quais cada candidato foi apresentado e dispôs de um minuto para fazer o apelo ao voto.

O alargamento da EU, a constituição de um fundo europeu para investimento militar e de segurança, a transição verde, a migração e os desafios colocados pela tecnologia, com destaque para as ações movidas pela UE contra o TikTok, foram alguns dos tópicos abordados num debate que permitiu sobretudo conhecer os candidatos.

O tema da economia e do emprego serviu para falar de alargamento

As primeiras palavras foram dedicadas ao crescimento económico da União. Os candidatos fizeram o diagnóstico da situação e tentaram apontar caminhos, mas sem avançar com ações concretas que queiram ver implementadas.

O socialista Nicolas Schmit sublinhou o plano de retirar 50 milhões de pessoas da pobreza, enquanto Terry Reintke, dos Verdes, quer dar primazia ao aprofundamento da transição verde, de forma a resolver a "contradição entre o clima e a economia". Walter Baier, da Esquerda Europeia, foi dos poucos que mencionou o tema da habitação, sublinhando que o principal fator de crescimento da pobreza é o aumento do preços das casas.

Os desafios económicos da União foram depois abordados à luz do alargamento a leste, nomeadamente à Ucrânia.

O liberal Sandro Gozi aproveitou a ocasião para defender uma reforma da União Europeia que permita acolher o país de 38 milhões de habitantes. "Temos que abraçar os nossos amigos ucranianos", afirmou. Um tópico a que regressaria por diversas vezes durante as duas horas de debate.

Von der Leyen foi a última a intervir nesta secção, sublinhando os fundos disponibilizados para o combate à pobreza e à habitação nos anos em que decorreu o seu mandato. A atual presidente da Comissão reconheceu, no entanto, que é preciso fazer mais para aumentar a competitividade das empresas europeias.

Só a Esquerda Europeia quer pôr travão ao investimento militar

Uma das temáticas que gerou uma troca de palavras mais intensa foi a da Defesa e Segurança. "Putin não vai parar na Ucrânia", apontou Sandro Gozi, para depois propor a criação de um plano para implementar uma defesa europeia conjunta, com base num fundo soberano.

Uma ideia que foi ressurgindo na boca dos outros candidatos, ainda que em versões diferentes. Terry Reintke defendeu a criação de "um fundo europeu para gastar em defesa" e o fim do princípio da unanimidade em matérias militares e de segurança, para "impedir o direito de veto a pessoas como Órban". Para a representante dos Verdes, a extrema-direita é mesmo a maior ameaça à segurança da União Europeia.

Da boca de Von der Leyen veio a proposta de criar um escudo de defesa aéreo. A candidata do centro-direita sublinhou a importância de continuar a apoiar a Ucrânia, numa guerra que é da "democracia contra a autocracia" e "uma luta pelos nossos valores", afirmou. "É essencial definir um orçamento europeu de defesa".

Schmit fez uma declaração no mesmo sentido: "Não fomos nós que optámos pela guerra", sublinhou o socialista. "Se não apoiarmos a Ucrânia com força, então os russos vão chegar às nossas fronteira", acrescentou ainda.

O único a apresentar uma visão diferente foi Walter Baier, da Esquerda Europeia, grupo que integra o Bloco de Esquerda. "A maior ameaça é o desastre ecológico. A NATO está a gastar 1,3 biliões em defesa", que nas contas do político austríaco representam três vezes mais do que investem a Rússia e a China em conjunto.

"Temos que ter desarmamento e paz na Europa", declarou, fazendo depois uma referência à guerra em Gaza com críticas às posições de Von der Leyen sobre o conflito.

Uma Europa a caminho da transição energética

A temática do Clima e Ambiente foi das que gerou maior consenso. Gozi, dos liberais, afirmou que já "não há retorno" para o Green Deal aprovado em 2020, enquanto Baier, da Esquerda, sublinhou que "não há paradoxo entre a economia verdade e uma economia eficaz".

Neste ponto, Von der Leyen aproveitou para fazer um balanço do trabalho realizado pela Comissão: "o ano passado produzimos mais eletricidade com eólicas do que com o gás" e as "emissões desceram 32%, mas a economia cresceu 67%".

Coube, porém, à representante dos Verdes apontar as dificuldades que se apresentam para a concretização do pacto verde, nomeadamente a resistência de sectores económicos relevantes, como a agrciultura. Terry Reintke pediu uma reforma da PAC e um investimento maciço na criação de infraestrutura.

Von der Leyen e liberais criticados por namorarem com extrema-direita

Quando foi introduzido o quarto tópico da tarde, as baterias dos grupos à esquerda do espectro político foram apontadas para Von der Leyen e os liberais.

A este último, a representante dos Verdes apontou contradições devido à participação do VVD (liberais) no novo governo dos Países Baixos, liderado pelo Partido pela Liberdade, de direita radical. Gozi defendeu-se garantindo que após as eleições será feita uma avaliação

Por sua vez, Nicolas Schmit, dos Socialistas Europeus dirigiu-se diretamente à presidente da Comissão. " A União Europeia é baseada na democracia e por essa razão é preciso clareza. Senhora Von der Leyen, pode ser clara na definição das relações com a extrema-direita?"

"Definimos três critérios [para a definição de alianças]. Ser a favor da Europa, a favor da Ucrânia e a favor do Estado de Direito", respondeu Von der Leyen. Critérios que parecem excluir grande parte das forças mais radicais que vão estar representadas no Parlamento Europeu, mas não necessariamente todas.

E a candidata deu o exemplo de Giorgia Meloni, que chefia em Itália um governo de conservadores e de extrema-direita, não afastando a hipótese de fazer alianças com o partido que dirige, os Fratelli d'Itália: "[Meloni] é claramente a favor da Europa, é anti Putin e a favor do estado de Direito".

Von der Leyen não excluiu assim a possibilidade de fazer acordos caso-a-caso com deputados ou mesmo forças políticas do espectro político mais à direita.

Pacto para as Migrações e Asilo alvo de críticas

Tal como em Portugal, o tema da imigração está no centro das preocupações e permitiu clarificar alguma divisão de posições entre as esquerda e a direita.

Von der Leyen defendeu o documento adotado pelo Conselho Europeu há poucos dias. Deve ser a Europa a decidir quem entra, "não os passadores e os traficantes". "Os que não elegíveis devem regressar a casa", aos seus países de origem. "O que estamos a fazer é investir nesses países para que eles tenham emprego, educação e não sejam compelidos a sair", declarou.

Nicolas Schmit, pelos Socialistas, admitiu que o Pacto "não é o ideal" e "deverá ser melhorado". Deu o exemplo de países em trânsito onde os migrantes estão a ser perseguidos à custa do investimento europeu. "Isso não é a Europa", declarou.

Tiktok deve continuar a ser escrutinado pelas autoridades europeias

O último tema a ser lançado pelos moderadores foi o das políticas de Inovação e Tecnologia, área em que ganhou relevo a criação da Carta dos Serviços Digitais. Neste campo, as diversas forças convergiram numa avaliação positiva.

"A Comissão Europeia fez um trabalho excelente", afirmou Sandro Gozi . "Temos agora um instrumento que garante a proteção das crianças. Temos que acompanhar as crianças e protegê-las".

"Fomos a primeira região do mundo a regulamentar este aspeto", realçou Von der Leyen. A representante do PPE propôs ainda uma investigação ao TikTok para "investigar como é que isto está a causar danos à saúde mental dos jovens".

Nicolas Smith deixou ainda umas palavras sobre a importância da Inteligência Artificial estar centrada no ser humano, mas não houve tempo para mais, naquele que será o único debate a reunir os cinco candidatos à presidência da Comissão Europeia antes do dia 9 de junho.

[Notícia atualizado às 22h04]