Generalização de testes? Antes "tarde do que nunca", defende virologista Pedro Simas
11-02-2021 - 00:20
 • José Carlos Silva (entrevista), André Rodrigues (texto)

No dia em que a Direção-Geral da Saúde decidiu alargar os rastreios a todos os contactos de um infetado e realizar testes rápidos em escolas, fábricas e na construção civil, o virologista Pedro Simas reconhece que melhor teria sido se a medida tivesse sido posta em prática mais cedo. No entanto, diz, "esta é uma curva de aprendizagem e nós vamos implementando à medida que vamos aprendendo".

A realização generalizada de testes à Covid-19 a todos os contactos de uma pessoa infetada é “bem-vinda”, tal como a aplicação massiva de testes rápidos.

É a leitura do virologista Pedro Simas, do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Em declarações à Renascença, este especialista considera que teria sido positivo que os testes já tivessem sido alargados aos contactos de alto e baixo risco de um doente com Covid, mas sublinha que, perante a complexidade que a pandemia comporta, as medidas vão sendo implementadas à medida que se vão tirando lições.

Sobre a deteção de dois casos da nova variante brasileira na região de Lisboa, Pedro Simas considera prematuro avaliar o impacto que isso poderá ter no número de contágios.

Uma coisa parece certa, diz o especialista: “as regras de contenção, como o uso da máscara e o distanciamento físico funcionam”.


Por que razão não seguimos mais cedo uma estratégia de testagem mais abrangente?

Essa é uma excelente pergunta. Esta é, também, uma curva de aprendizagem. É melhor começarmos tarde do que nunca.

Acho que esta decisão é muito importante, porque a testagem e o rastreio são duas ferramentas importantíssimas no combate à pandemia e são da responsabilidade do Estado e das instituições.

A outra, da parte da sociedade, usarem as máscaras e promoverem o distanciamento físico.

Eu acolho este melhoramento da nossa estratégia de testagem nacional com muito otimismo.

Agora, se me pergunta se podia ter sido implementada antes, quanto mais cedo tivesse sido, melhor, mas esta é uma curva de aprendizagem e nós vamos implementando à medida que também vamos aprendendo.


A utilização de testes rápidos é bem-vinda?

No que toca aos testes rápidos, é preciso haver uma comunicação muito precisa e simples.

Todos os testes dão informações diferentes que se complementam e ajudam.

Temos o teste RT-PCR que deteta quantidades muito pequenas de vírus e temos os testes rápidos que detetam mais se a pessoa é infeciosa ou não.

Ou seja, é naquela fase em que a pessoa já tem uma carga viral muito grande, e isso também é útil saber, porque estamos a falar de testes que, por serem rápidos, podem ajudar a identificar surtos rapidamente o que permite, depois, fazer o rastreio e usar os testes PCR para perceber o que está a acontecer.

São testes muito indicados para escolas, para empresas, para universidades e têm demonstrado muito bem a sua eficácia, em termos de complementaridade ao teste RT-PCR, noutros países como o Reino Unido e Estados Unidos.

Portanto, vejo com muito agrado a introdução dos testes rápidos, até porque são mais baratos e mais acessíveis, apesar de requererem sempre a utilização de uma zaragatoa.

Pode o teste ser executado por um profissional de saúde ou pela própria pessoa.

Agora, há uma coisa muito importante nos testes rápidos: um teste rápido negativo não significa que a pessoa seja negativa para o vírus e não pode dar um falso sentido de segurança a essa pessoa.

O que se sabe é que a pessoa não está com uma carga viral muito grande, mas pode estar no início da infeção em que ainda não somos capazes, com o teste rápido, de tratar essa infeção, podendo a situação evoluir para infecciosidade e infetar outras pessoas, ou pode estar numa fase tardia da infeção que está a ser resolvida e vai eliminá-la, podendo no entanto essa pessoa ser infeciosa por mais alguns dias.


Ou seja, estes testes não têm um grau de fiabilidade muito grande, mas podem dar uma panorâmica mais concreta da realidade. É isso?

Mais ou menos. Os testes são fiáveis, dentro da sua sensibilidade: eles são muito específicos e fiáveis para se detetar cargas virais altas, portanto são úteis.

Imagine um cenário em que, todas as semanas, se testa uma turma com um teste rápido e pode-se apanhar um ou dois alunos numa situação de infeciosidade alta e, a partir daí, isolam-se os alunos, faz-se a quarentena preventiva, depois faz-se o teste RT-PCR em todos e afere-se qual é a percentagem de alunos que está contaminada ou não.

Ou seja, estes testes são uma ferramenta complementar à testagem por RT-PCR e são muito úteis.

O que não podem é induzir, a nível individual, uma falsa segurança se que, se uma pessoa é negativa, não está infetada. Isso não é correto.


Desta quarta-feira, ficámos a saber que foram detetadas na Grande Lisboa duas pessoas com a nova variante brasileira da Covid-19, que será altamente contagiosa: que influência é que esta situação pode ter nos nossos números?

É um bocado imprevisível, era uma situação que era um bocado expectável que acontecesse, porque estas variantes espalham-se pelo mundo inteiro por onde as pessoas circulam.

Neste momento, temos uma grande representatividade da variante do Reino Unido e vamos ver se esta variante do Brasil consegue competir com a variante do Reino Unido.

Uma coisa sabemos: as regras de contenção, como o uso da máscara e o distanciamento físico funcionam.

Nós estávamos numa terceira vaga muito alta, com um número diário de infeções muito alto, e com um confinamento em que os portugueses aderiram e cumpriram com uma grande eficácia, baixamos significativamente o número de infeções por dia.

Essa é uma prova inequívoca de que as variantes são controláveis pelo nosso comportamento, pelo cuidado que tivermos.

Portanto, temos que ver o que vai acontecer com esta variante do Brasil em Portugal.