Norte-americano que passou 36 anos na cadeia por roubo de 120 euros foi libertado
Editado por João Pedro Barros com agências
Inserido em 30-08-2019 18:19

Alvin Kennard foi punido no âmbito da chamada “lei das três condenações”, que impôs um castigo pesado por um roubo em que não houve agressões. Defesa alega que homem de 58 anos está reabilitado e quer trabalhar em carpintaria.

Foi esta quarta-feira que Alvin Kennard recebeu a melhor notícia dos últimos 36 anos. Numa sessão num tribunal em Jefferson, no Alabama, Estados Unidos, o juiz David Carpenter decidiu alterar a pena de prisão perpétua a que tinha sido condenado em 1983 para o tempo já cumprido. O procurador local não se opôs. Kennard, agora com 58 anos, não saiu ainda em liberdade, mas o tempo de espera será certamente pequeno face às mais de três décadas passadas atrás das grades.

A 24 de janeiro de 1983, quando tinha 22 anos, Alvin roubou 50 dólares e 75 cêntimos – calculando a inflação, equivale hoje a cerca de 120 euros – de uma padaria, num crime em que usou uma faca e em que não houve agressões. Em 1979, tinha-se declarado culpado de três crimes relacionados com um assalto a uma estação de serviço que estava vazia. Ficou com pena suspensa.

No Alabama existe uma lei relacionada com criminosos recorrentes – conhecida “three strikes law”, ou “lei das três condenações”, em tradução livre –, que implicava que, ao quarto crime, a sentença fosse prisão perpétua, sem hipótese de liberdade condicional. A lei foi entretanto alterada, mas a pena de Kennard manteve-se. O panorama apenas se alterou com a entrada em cena da advogada Carla Crowder, diretora executiva do Centro para a lei e justiça da Appleseed no Alabama, uma instituição não governamental.

“É incrivelmente injusto que centenas de pessoas no Alabama estejam a cumprir prisão perpétua, sem hipótese de liberdade condicional, por crimes sem violência e não relacionados com homicídios. O que é extraordinário sobre o Sr. Kennard é que, mesmo quando ele pensou que ia passar o resto da vida na prisão, deu a volta à sua vida. Ele está entusiasmado com esta oportunidade e manteve-se próximo da família, pelo que tem um grande apoio”, comentou Crowder, citada pelo “The Guardian”.

As lágrimas da família

Antes de ouvir do juiz a boa nova, Kennard agradeceu a oportunidade de poder expor o caso, segundo o site AL.com. “Peço desculpa pelo que fiz. Estive mal”, declarou. O recluso, que trabalhava em carpintaria, disse ao juiz que pretende de novo ganhar a vida no ramo. Apresentou-se no tribunal algemado e envergando um uniforme vermelho e branco.

A advogada destacou o “comportamento exemplar” de Kennard na prisão: há 14 anos que não recebe qualquer punição disciplinar e há 11 que é repreendido por mau comportamento. A defesa também alegou a boa reputação junto dos guardas do Centro Prisional de Donaldson.

No tribunal, a família festejou o momento há muito esperado. “Estávamos todos a chorar. Falamos disto seguramente há mais de 20 anos, sobre ele ser libertado. Ele diz que quer trabalhar, quer pagar as suas próprias despesas, e nós vamos apoiá-lo”, disse uma neta, Patricia Jones, à televisão local WBRC.