O que se passa na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia?
11-11-2021 - 14:18
 • Miguel Coelho

Redes de tráfico de seres humanos estão agora a usar esta rota para introduzir migrantes na Europa. Entre eles, muitas crianças.

Quase 470 pessoas tentaram cruzar de forma ilegal, nesta quinta-feira, a fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia. Isto, enquanto o primeiro-ministro polaco afirmava, no Twitter, o empenho do país e dos Estados bálticos na proteção da paz e da segurança na Europa.

Segundo a guarda fronteiriça polaca, foram registadas 468 entradas nas últimas 24 horas e emitidas pelo menos 42 ordens de expulsão.

Junto à fronteira, estão milhares de migrantes bloqueados e a União Europeia já fala em construir um muro.

Que migrantes são estes e donde vêm?

São pessoas provenientes, sobretudo, do Médio Oriente (do Iraque, da Síria), mas também de outros países, desde o Afeganistão ao Congo, porque os traficantes de pessoas descobriram ali uma rota mais segura para introduzir estes migrantes na Europa do que a travessia do mar.

E são realmente milhares de pessoas e, em muitos casos, famílias. Há muitas crianças nesta situação.

Como tantos outros refugiados, tentam entrar na União Europeia em busca de melhores condições de vida. Uns fogem da guerra, outros esperam melhorar a sua condição económico-financeira e viram-se bloqueados junto ao arame farpado na fronteira entre a Bielorrússia, que não faz parte da UE, e a Polónia, que integra o bloco europeu e que, portanto, representa para estas pessoas uma verdadeira porta de entrada na Europa.

Porque é que a União Europeia não os deixa entrar?

Essa é uma velha questão que ao longo dos anos tem sido colocada perante sucessivas vagas de migrantes: é que muitos países não querem de todo receber estas pessoas, seja porque temem que lhes roubem os empregos, seja por receios de segurança – que muitas vezes nem sequer correspondem a uma ameaça real, mas que levam muitas opiniões públicas a não querer estes estrangeiros.

É um debate que não é de agora, mas que neste caso se confunde também com uma componente de política externa, dado que a União Europeia considera estar a ser vítima de uma espécie de chantagem por parte da Bielorrússia.

Chantagem?

Sim, porque o regime bielorrusso do Presidente Alexander Lukashenko tem sido alvo de sanções e de acusações pela forma como reprime a oposição interna. Lukashenko – habitualmente designado mesmo como "o último ditador da Europa" e é apoiado pela Rússia de Vladimir Putin – em represália contra a forma como tem sido tratado pela União Europeia, mandou transportar migrantes em massa para junto da fronteira com a Polónia, em autocarros, justamente para confrontar a Europa com esta crise que está agora criada.

A crise já dura há algum tempo, mas agrava-se a cada dia que passa, não só com a chegada de mais gente, mas também com a aproximação do Inverno, porque naquela região as temperaturas já são gélidas nesta altura e os migrantes dão crescentes sinais de desespero.

E o que pode acontecer agora?

Quanto à situação humanitária, pode não só agravar-se como conduzir a atitudes de desespero e à eventual tentativa de forçar a passagem na fronteira. E nesta altura o cenário é de migrantes de um lado e um cordão de militares polacos armados do outro.

Do ponto de vista político, a Polónia recusa receber estes migrantes, a União Europeia anunciou mais sanções contra a Bielorrússia, acusando o país de usar os refugiados como arma, e ontem [quarta-feira], para espanto de muita gente, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, foi à Polónia anunciar a disponibilidade europeia para financiar a construção de um muro na fonteira da Polónia – uma solução muito controversa e que a Europa tanto criticou a Donald Trump.