Quando as escolas fecham. "Não se aprende mais por se estar mais tempo à frente do monitor"
18-02-2021 - 06:40
 • José Pedro Frazão

Ex-secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário Fernando Egídio Reis partilha, na Renascença, reflexões sobre o impacto do segundo confinamento na comunidade escolar. Professor há quase 40 anos, pede mais autonomia para as escolas e recusa a ideia de que os jovens estão genericamente preparados para o choque tecnológico que a pandemia impôs a escolas, professores, alunos e famílias.

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A viver um segundo confinamento, a comunidade escolar caminha para um novo pico de exaustão. A avaliação é de Fernando Egídio Reis, professor de História na Escola Secundária Cacilhas-Tejo, onde regressou depois de ter sido diretor-geral da Educação de 2011 a 2014 e secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, entre 2014 e 2015, na equipa ministerial de Nuno Crato, no Governo de Pedro Passos Coelho.

"Os professores estão cansados. Saíram muito cansados do confinamento do ano passado pela exigência, frequência, enfim, a intensidade do trabalho. Neste momento, temo que vá acontecer o mesmo e isso tem muito a ver com a gestão das tarefas que eles próprios assumem em relação aos seus alunos", alerta Reis no programa Da Capa à Contracapa, onde se debateu o novo livro "Quando as escolas fecharam", de Paulo Guinote, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Fernando Egídio Reis reconhece a exigência imposta pelo regime de ensino à distância, aconselhando os docentes a organizarem bem o seu tempo, "senão o cansaço vem muito rapidamente e nós esgotamo-nos".

O professor de História diz que há escolas, "não apenas no secundário mas também nalguns ciclos do básico", que não entendem que não é por estarem mais tempo à frente de monitores que os alunos aprendem mais.

"Pelo contrário, cria neles uma reação de aversão extrema. Eu noto isso nos meus alunos. Sessões consecutivas de 50, 60 ou 90 minutos são perfeitamente improdutivas a partir de determinado ponto", afirma Egídio Reis, que não tem dúvidas de que a insistência em aulas totalmente síncronas replicando horários presenciais é uma fonte "brutal" de stress para alunos, professores e as próprias famílias.

Mais alunos com dificuldades que na primeira vaga

O antigo secretário de Estado no Ministério liderado por Nuno Crato recusa a ideia de que as crianças e adolescentes de hoje têm todas as competências digitais necessárias para o ensino remoto.

"Eles não são todos nativos digitais. Há alunos com mais experiência, conhecimento e mais facilidade de utilização dos recursos digitais, mas há alunos que, inclusive no 11.º e 12.º anos, têm dificuldade em fazer uma ligação, em descarregar ou fazer 'upload' de um ficheiro", diz este docente que hoje acompanha Crato em projetos da Iniciativa Educação Teresa e Alexandre Soares dos Santos.

A este problema soma-se as insuficiências ao nível do material informático ao dispor dos alunos. Fernando Egídio Reis reconhece o esforço de distribuição de equipamentos e acessos à internet a alguns alunos, sobretudo aqueles abrangidos pela ação social escolar, mas conclui que o ritmo a que o processo se desenrolou não foi suficiente.

"A realidade, além de ser mais complexa do que aquilo que muitas vezes é definido pela própria tutela, ultrapassa muito as soluções que até agora foram encontradas", desabafa Reis, lembrando que no primeiro confinamento, em março de 2020, a maioria dos alunos da sua escola dizia ter equipamentos para o ensino à distância.

Hoje, o panorama é muito menos positivo. "Neste momento, contrariamente àquilo que eu esperava, tenho mais alunos que relataram que não têm equipamentos neste momento. Porquê? É uma resposta que eu não consigo dar", confessa Francisco Egídio Reis.

As desigualdades aprofundam-se num contexto delicado para a aprendizagem. O investigador considera que as perdas não são iguais para todos, reconhecendo "um problema grave com os alunos com maiores dificuldades" de aprendizagem, que obrigam a um apoio mais próximo e um acompanhamento que o ensino à distância não pode suspender.

Do lado dos professores, este docente deteta "uma grande progressão" numa utilização cada vez mais integrada dos recursos digitais. Quem usava continuou a fazê-lo, juntando-se agora um grupo de professores que passaram a usar plataformas que não utilizavam com regularidade.

"Essa aprendizagem e experiência de utilização de recursos digitais vai ser muito útil para o futuro, mas não para um modelo de ensino não presencial", argumenta o professor da Secundária Cacilhas-Tejo.

Onde pára a autonomia

Fernando Egídio Reis conheceu de perto a "máquina" ministerial da 5 de Outubro numa experiência que pontuou uma carreira como docente do secundário, formador e investigador académico.

Lançando o olhar a partir da sua escola de origem, onde regressou após a passagem pelo Ministério da Educação, o professor de História queixa-se de falta de autonomia, sobretudo essencial neste momento tão delicado para as escolas como aquele em que mergulharam desde o início da pandemia.

"O que sinto como professor, apesar de ter essa experiência na Direção-Geral de Educação e no Governo, é esse desfasamento entre aquilo que é a realidade e o que são as orientações que vêm para responder à realidade. Sinto essa falta de flexibilidade e de autonomia, quer por parte das escolas, quer depois dentro das escolas”, diz.

“Apesar de o professor conservar uma autonomia pedagógica nas suas aulas, neste caso ele é muito condicionado pelas orientações que recebe quer da tutela quer da direção da escola", reconhece Egídio Reis, que defende que o Ministério deve emitir determinadas orientações deixando às escolas a prerrogativa de se poderem organizar conforme a sua realidade.

"Fala-se muito em autonomia, mas quando chegamos a um contexto destes deparamo-nos com uma grande falta dela. Autonomia não só nas orientações dadas às escolas e no modelo que é repetido e difundido de forma igual para todas as escolas, mas também alguma falta de autonomia de não dar às escolas orientações até um determinado ponto", sustenta este professor no ativo desde 1982, doutorado em História e Filosofia de Ciências.

Olhando para o caso concreto do ensino à distância, Reis volta a insistir que os períodos de aulas síncronas não devem ser demasiado longos, assumindo que geriu os tempos letivos com alguma flexibilidade no primeiro confinamento, com base na experiência digital que já vinha tendo com os seus alunos. A história já não se repetiu com facilidade nas últimas semanas.

"Com os mesmos alunos, com turmas semelhantes, eu sinto-me neste momento com menos autonomia do que tive entre março e junho/julho do ano passado. O que é estranho", remata Fernando Egídio Reis no programa da Renascença em parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.