A História na era da expiação
30-04-2024 - 08:33

Marcelo Rebelo de Sousa mostrou na semana passada ser um presidente da República peculiar.

Marcelo Rebelo de Sousa mostrou na semana passada ser um presidente da República peculiar. No dia 23, num jantar com jornalistas estrangeiros em Portugal, além de considerações snobes sobre António Costa e Luís Montenegro, e sibilinas sobre Lucília Gago, decidiu reconhecer as responsabilidades de Portugal por crimes cometidos durante o período colonial. Não falou apenas no pedido de desculpas que já aventara antes. Desta vez, sugeriu julgar e punir “os responsáveis que não foram presos”, devolver bens que “foram saqueados”, e calcular custos para “ver como podemos reparar isto”. No dia 25, na sessão comemorativa do 50.º aniversário do 25 de abril, o discurso do CDS, a indignação da IL e o comício exaltado do CH (ou seja, as intervenções de Paulo Núncio, Rui Rocha e André Ventura) criticaram a verbosidade presidencial. Marcelo Rebelo de Sousa não lhes respondeu, optando, antes, por deixar, no seu discurso, uma excelente lição de história do Portugal do século XX, com o brilhantismo que poucos conseguem ter.

É claro que prefiro muito mais a performance presidencial do dia 25, do que o – como qualificar? – deslize do dia 23. Na forma do que disse, o Presidente não foi correto: não articulou com o governo, assumiu uma pose decisória que a Constituição não lhe permite, e detonou um tema seriíssimo, que o sentimento geral dos portugueses não lhe encomendou, falando com interlocutores estrangeiros. No conteúdo, o problema é ainda maior – e é esse que me interessa.

Há anos que o radicalismo woke vem dominando os estudos pós-coloniais e politizando o conhecimento histórico da relação plurissecular das metrópoles europeias com as suas colónias. Muito resumidamente (mas a caricatura não deforma a mensagem), o wokismo postula que houve na História um vilão (o homem branco europeu), que oprimiu, explorou, dominou, escravizou, traficou (e etc.) muitos ou todos os outros. Com o fim dos impérios, os outros (sobretudo africanos) têm o direito e o dever de serem ressarcidos numa gigantesca operação de justiça compensatória de sentido único. É justiça o que se procura? Antes fosse. Não: é vingança – uma vingança que reacende ódios e que faz da História um “ersatz” de ativismo furioso. O Presidente não falou em aprofundar, sobre maior e melhor conhecimento histórico, aprendizagens do que de bom ou mau se fez no passado, para reforçar melhores relações pós-coloniais via CPLP, desmontando o serôdio luso-tropicalismo a benefício de uma historiografia que também dê voz aos que não a tiveram no passado; sugeriu julgar, não sabemos quem, por que crimes ou com que penas, devolver, não sabemos o quê a quem, e pagar, não sabemos quanto, nem como, nem a quem – nem, para tudo isto, desde quando.

Contra Marcelo logo se esgrimiram argumentos pertinentes – como o das dívidas das antigas colónias às antigas metrópoles, ou aos “retornados” que os africanos expulsaram, ou o das responsabilidades que Portugal já não teve nas tragédias africanas pós-independências, e muito menos nos últimos duzentos anos (já são muitos) do Brasil. O meu ponto está, no entanto, para lá desta barganha de quem sofreu mais, ou menos. A História está a ser usada e abusada nesta nossa era da expiação. Mas ela não deve alimentar acusações, vinganças, ajustes de contas, penitências, dívidas ou autoflagelações – e, sobretudo, não pode cair no anacronismo do “crime” retroativo. Sendo conhecimento, e um discurso sobre o passado, a História não serve para reparar, emendar, sublimar ou refazer esse passado; serve apenas para clarificar o presente e precaver o futuro, norteando melhores bilateralismos. Só assim ela é reconciliadora; porque, para divisionismos, já nos chega o presente.