Míssil, bomba ou acidente? O que sabemos sobre a morte de Prigozhin
24-08-2023 - 20:20
 • Miguel Marques Ribeiro

Putin deu as condolências à família do líder do Grupo Wagner, numa altura em que os serviços de inteligência americanos estão a avançar que a explosão a bordo da aeronave pode ter sido causada por um míssil.

Começam a ser conhecidas as primeiras informações (e teorias) sobre as causas do despenhamento do avião em que seguia o líder do grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, na quarta-feira, 23 de agosto.

Fontes dos serviços da inteligência americana começaram por afirmar que a queda do avião na região de Tver, a noroeste de Moscovo, terá sido causada por um míssil, avançou o jornal The Guardian esta quinta-feira.

Horas mais tarde, esta versão foi contrariada pelo porta-voz do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. De acordo com o brigadeiro-general Patrick Ryder não há qualquer informação que permite concluir que o avião de Prigozhin foi abatido por um míssil terra-ar. O responsável militar norte-americano diz que vai especular sobre outras causas que poderão ter provocado a queda do aparelho.

Por outro lado, informações recolhidas pelo El Mundo junto das autoridades russas que conduzem a investigação ao incidente asseguram que ocorreu uma explosão na área do trem de aterragem, o que motivou o desprendimento da asa e consequente despenhamento.

Um pedaço da cauda foi encontrado a três quilômetros e meio do local do acidente, adianta ainda o jornal espanhol baseando-se nas informações recolhidas em Moscovo.

Imagens de vídeo obtidas por um cidadão anónimo mostram um avião em queda livre, desgovernado. Da cauda projeta-se um rasto de fumo branco, espiralado, que acompanha o movimento do aparelho até este colidir com o chão, numa zona rural.

A visualização dessas imagens sugere, de facto, a existência de uma explosão, refere o The Guardian, mas é inconclusiva quanto à sua origem.

A causa pode ser interna, resultando de um evento catastrófico ocorrido no próprio avião, ou externa, por via de um míssil que tenha atingido a aeronave, como sugerem as autoridades americanas.

Em qualquer dos casos, a explosão terá provocado uma despressurização que fez com que todos a bordo (incluindo os pilotos) perdessem a consciência, o que justifica o facto de não ter sido dado qualquer alerta de emergência por parte da tripulação.

Esta informação é compatível com relatório do serviço FlightRadar, que indica que a aeronave ganhou e perdeu altitude várias vezes num curto período de tempo antes de começar a cair. O último registo do aparelho ocorreu a 29 mil pés de altitude, pelas 18h11 (hora local).

Vários moradores de Kuzhenkino afirmaram também à agência Reuters ter ouvido uma explosão e depois avistado o avião a despenhar-se no chão.

Putin deu condolências à família de Prigozhin

Putin deu na tarde desta quinta-feira as condolências à família de Prigozhin, confirmando a morte do líder da Wagner. "Um homem de negócios talentoso", que "cometeu erros", disse o Presidente russo.

A identificação oficial dos corpos continua, ainda assim, ao que sabe, por realizar. Isto porque os cadáveres ficaram carbonizados o que obrigou à realização de peritagens no material biológico recolhido no local.

No entanto, tudo leva a crer que a listagem de passageiros divulgada pela Rosaviatsia, que inclui três tripulantes e sete passageiros, corresponda de facto aos ocupantes da aeronave.

Quem eram os outros passageiros?

Com Prigozhin viajavam altas figuras do grupo Wagner, a organização paramilitar de origem russa, envolvida na guerra da Ucrânia e em muitos outros conflitos em curso nas diversas regiões do globo, nomeadamente em África.

Entre os acompanhantes destaca-se Dmitry Utkimn, o presumível fundador do grupo Wagner e notório propagador da ideologia neo-nazi. Segundo o site Bellingcat, citado pelo The Guardian, Utkimn pode não ter passado de um testa de ferro para encobrir a verdadeira origem do Grupo Wagner, ligada ao Estado russo.

Outro nome a reter na lista de passageiros é Valery Chekalov, conhecido como “Rover”, um aliado de longa data de Prigozhin, responsável, segundo o The Guardian, pela segurança pessoal do líder da Wagner e a quem cabia administrar diversos negócios do ex-chef do Kremlin.

Os restantes quatro passageiros seriam operacionais do grupo.

Prigozhin esteve em reuniões com o Ministério da Defesa

Segundo o The Guardian, Prigozhin e este grupo restrito de colaboradores terão estado em Moscovo, em reuniões com o Ministério da Defesa.

O avião em que seguiam era um jato privado pertencente a Prigozhin da marca Embraer Legacy 600. Um modelo com um valor a rondar os 8 milhões de euros, capaz de atingir uma velocidade máxima de 870km/h.

A empresa brasileira, aliás, já veio assegurar que o serviço de manutenção do avião tinha sido suspenso em 2019, cumprindo as sanções internacionais impostas à Rússia, pelo que não se sabe o estado em que se encontrava a aeronave.

A liberdade de movimentos concedida aos membros do Grupo Wagner não deixa de ser surpreendente.

Isto porque na sequência da rebelião armada falhada contra o Kremlin, desenvolvida a 23 e 24 de junho, foi noticiado que o líder do grupo Wagner teria concordado instalar-se com as suas tropas na Bielorrússia.

O que se verificou, no entanto, nas semanas seguintes, foi que Prigozhin fez diversas viagens que contrariaram o seu suposto exílio.

Em final de julho, esteve comprovadamente em São Petersurgo, durante a cimeira Rússia-África, onde teve reuniões com representantes do Mali e da república Centro- Africana. É conhecida a participação do grupo Wagner em diversos conflitos africanos.

Na segunda-feira, dois dias antes da notícia da sua morte, divulgou um vídeo no Telegram em que garantiu estar em África. O conflito emergente no Níger é apontado como uma das geografias que estaria a suscitar o interesse do grupo paramilitar russo.

Desta forma, não surpreende que Prigozhin tivesse a necessidade de se deslocar entre Moscovo e São Petersburgo, cidade natal de Prigozhin e também, curiosamente, do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin.

Grupo Wagner ameaça retaliar

O incidente e a morte de Priozhin provocaram diversas reações.

Os membros do grupo Wagner ainda no ativo não demoraram a manifestar-se sobre a morte do seu líder. Em canais do Telegram ligados ao grupo, foram feitas ameaças diretas à autoridade russa: “Tomaremos o Kremlin”, é uma das afirmações feita na da rede social.

Entretanto, nas últimas horas, dezenas de pessoas deslocaram-se à sede do grupo em São Petersburgo e às instalações dos mercenários em Novosibirsk para depositar flores e velas numa última homenagem aos paramilitares que morreram.

Já na manhã desta quinta-feira, Zelensky afirmou tratar-se a queda do Embraer foi “uma coisa boa”, assegurando que o Estado ucraniano "nada teve que ver" com o sucedido. "Toda a gente compreende quem tem alguma coisa que ver com isso", acrescentou o chefe de estado, referindo-se aos russos.

Na quarta-feira o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, tinha dito “não estar surpreendido” com o acontecimento. Biden sugeriu mesmo implicitamente uma ligação entre o Kremlin e a morte do líder do grupo Wagner: “Não há muita coisa que se passe na Rússia por detrás da qual não esteja Putin", afirmou aos jornalistas.

Do Kremlin chegam para já as condolências dirigidas à família de Prigozhin, um homem cuja vida, segundo o Presidente russo, teve "um desfecho difícil" e que continua em parte por esclarecer.