Caso das gémeas. Temido insiste que não teve nada a ver com o caso, Ventura considera isso "estranho"
06-06-2024 - 16:31
 • Renascença com Lusa

A ex-ministra da Saúde Marta Temido insisti que não teve "nada a ver" com o caso das gémeas, assegurando que confia na justiça e escusando-se a comentar os "timings" das buscas.

A antiga ministra da Saúde Marta Temido insistiu esta quinta-feira que não teve "nada a ver" com o caso das gémeas, assegurando que confia na justiça e escusando-se a comentar os timings das buscas. O seu antigo secretário de Estado António Lacerda Sales foi constituído arguido na segunda-feira no âmbito desta investigação, embora só esta quinta-feira – dia em que deveria ter comparecido na comissão parlamentar de inquérito — tenha sido noticiada essa decisão.

Entre os outros partidos, Chega e IL estranham que Temido não soubesse de nada. Já o resto da oposição escusou-se a entrar em comentários detalhados, uma vez que a investigação ainda decorre e há uma comissão parlamentar de inquérito a trabalhar. Posição idêntica teve Sebastião Bugalho, candidato da AD às europeias.

Durante a primeira ação de campanha do dia, na Figueira da Foz, Marta Temido foi questionada pelos jornalistas sobre as buscas feitas esta quinta-feira no âmbito do caso das gémeas. "Estar na política é uma questão de caráter e é uma questão de olhar para as pessoas, olhos nos olhos e dizer: eu não tive nada a ver com isto. Agora as entidades próprias farão o seu papel e sua investigação", respondeu.

Assegurando que confia na justiça, a cabeça de lista do PS às europeias disse ter a "certeza que os timings e as diligências são fundados apenas num objetivo que é apurar a verdade".

"Cada entidade tem que fazer o seu papel. Eu não comento timings e decisões. Com a maior tranquilidade, eu confio nas instituições, verdadeiramente", enfatizou.

Sobre o facto do seu antigo secretário de Estado, António Lacerda Sales, ter sido constituído arguido, Marta Temido começou por sublinhar que a "constituição de arguido visa ouvir alguém em processo e de alguma forma assegurar-lhe um conjunto de direitos processuais".

"Isso não é diferente neste caso daquilo que são os outros casos e portanto certamente, agora, a investigação que nós já sabíamos que estava a correr, não há nenhuma novidade, vai prosseguir e vai esclarecer o que houver a esclarecer", defendeu. A candidata socialista disse não temer que este caso afete a campanha por estar convicta que as "pessoas sabem que a intervenção do ministro da saúde — no caso era uma ministra — relativamente à autorização de medicamentos não existe".

Questionada sobre se tinha falado com Lacerda Sales, Temido afirmou: "A última vez que falei com António Lacerda Sales, que foi meu secretário de Estado, e trabalhámos em conjunto e fizemos um trabalho que eu acho que os portugueses reconhecem, foi por causa dos anos dele, mandei-lhe os parabéns."

"Cada um fará as suas escolhas e os portugueses farão as suas escolhas", acrescentou, referindo que até ao momento não foi notificada para prestar qualquer esclarecimento, mas que está disponível para que isso aconteça.

Ventura considera "estranho" que ex-ministra não soubesse de nada

O presidente do Chega considerou "estranho" que a ex-ministra da Saúde e cabeça de lista do PS, Marta Temido, não soubesse de nada sobre o caso das gémeas, e acusou os socialistas de tentarem "abafar esta investigação".

"Marta Temido era ministra da Saúde na altura, este era o seu secretário de Estado, e portanto é pouco crível que alguém contorne a lei, marque uma consulta desta importância e dimensão, envolvendo um custo para o horário público de cerca de 4 milhões de euros, sem que a ministra pergunte o que é isto", afirmou. André Ventura falava aos jornalistas antes de uma arruada na Póvoa de Varzim, distrito do Porto.

"Estranho é que a ex-ministra não saiba de nada e mesmo, curiosamente, ouvi perguntas vossas sobre se ela teria falado com Lacerda Sales, e ela disse que "não, liguei-lhe no outro dia para lhe dar os parabéns, porque fazia anos", criticou. O líder do Chega disse que se "tivesse um secretário de Estado que fosse suspeito de desviar, entre aspas, quatro milhões de euros para favorecer alguém", quereria saber se isso "tem algum fundo de verdade" e que se teve alguma intervenção.

"Tudo isto mostra como o PS está, de forma cúmplice, a tentar abafar esta investigação e a tentar proteger algumas das pessoas", acusou.

André Ventura considerou também que é necessário perceber se se trata de "um caso isolado ou se há aqui, agora ou no passado, um polvo de influência permanente que levou a negócios deste tipo no Estado durante os últimos anos".

O presidente do Chega voltou também a apelar ao Presidente da República que preste esclarecimentos à comissão de inquérito que o seu partido forçou, considerando que Marcelo Rebelo de Sousa "ganhará, ele e o país, em antecipar-se a dar explicações sobre isto".

"Nós já tivemos um Governo que caiu por força de corrupção, acho que ninguém gostaria de ver agora um Presidente da República envolvido numa situação que nasce muito porque ele próprio decidiu não dar esclarecimentos. E, portanto, à luz dos acontecimentos de hoje, com crimes tão graves em cima da mesa, eu voltava a pedir a Marcelo Rebelo de Sousa que não deixe de dar os esclarecimentos que tem que dar, ele, eventualmente o seu filho, quem está envolvido nisto", apelou.

Bugalho diz que seria "irresponsabilidade e descortesia democrática" comentar caso judiciais

O cabeça de lista da AD às europeias recusou comentar as buscas sobre o caso das gémeas, dizendo que seria "uma irresponsabilidade cívica e democrática" comentar uma investigação em curso e que envolve outra candidatura. No final de uma visita a uma empresa de dispositivos médicos em Penafiel (Porto), no distrito do Porto, Sebastião Bugalho foi questionado sobre as buscas realizadas pela Polícia Judiciária.

"Eu estou aqui por razões que me enchem o coração enquanto português e europeu, não vou contaminar a visita com controvérsias e comentários sobre uma investigação que está em curso, que está em segredo de justiça e que ainda por cima envolve uma pessoa que está a disputar esta eleição. Seria uma descortesia democrática e nós não vamos contribuir para isso", afirmou.

Perante a insistência dos jornalistas se será "uma coincidência" a divulgação pública desta investigação na reta final da campanha, voltou a recusar fazer "considerações sobre investigações que estão em curso".

BE é exigente com atuação da Justiça mas rejeita "bate-boca" durante campanha

A cabeça de lista do BE às eleições europeias, Catarina Martins, defendeu que a Justiça deve ter garantias de independência face ao poder político, mas também provar que a tem na forma como atua.

"As campanhas eleitorais não devem ser um bate-boca entre partidos e a Justiça e o Ministério Público, pela nossa parte nós não o faremos. Teremos sempre uma ação de grande exigência para com os meios que a Justiça tem e também para a forma como a Justiça atua", defendeu Catarina Martins, em declarações aos jornalistas, na Feira de Barcelos, distrito de Braga. "A Justiça tem e deve ter garantias de independência face ao poder político e isso é muito importante. Julgo também que a Justiça tem que provar a sua independência na forma como atua", respondeu Catarina Martins.

Na ótica da Catarina Martins, o caso em si deve ser esclarecido mas a bloquista alertou que o que faz com que as pessoas "se escandalizem com todo este caso é a perceção de que há uma dificuldade de acesso ao Serviço Nacional de Saúde".

Inês Sousa Real duvida que a investigação em tempo de campanha "credibilize o MP”

O PAN diz ser “incompreensível” que as investigações sobre o caso das gémeas aconteçam na segunda semana de campanha eleitoral. No Parlamento, Inês Sousa Real sublinhou que o partido defende que a justiça deve prosseguir o seu rumo, mas “sem contaminar atos eleitorais”.

“Como é que só agora ao fim de estes sete meses se realizam buscas quando os meios de prova e um eventual risco que pudessem desaparecer deveriam ter sido acautelados lá atrás?” questiona Inês Sousa Real. A líder do PAN duvida que “este tipo de ações, em plena campanha eleitoral, credibilizem o Ministério Público”. Inês Sousa Real sublinha que há uma comissão parlamentar de inquérito a correr na Assembleia da República e que as buscas foram marcadas no dia em que seria ouvido Lacerda Sales.

Rui Rocha recusa comentar buscas

O presidente da Iniciativa Liberal considera que a antiga ministra da saúde Marta Temido não pode afirmar que “não tem nada a ver” com o caso em investigação sobre o tratamento das gémeas luso-brasileiras.

Depois dos desenvolvimentos desta quinta-feira nas investigações sobre o caso, Rui Rocha diz que “há obviamente explicações a ser dadas porque Marta Temido foi responsável por um ministério onde eventualmente aconteceram procedimentos de favorecimento”.

Para o líder dos liberais “não basta dizer: eu não sei de nada”. Rui Rocha defende que o "não saber de nada também revela uma insuficiência de gestão”.

CDU recusa fazer "aproveitamento político"

O cabeça de lista da CDU às eleições europeias recusou fazer "aproveitamento político" da notícia das buscas que estão a ser feitas pela PJ sobre o caso das gémeas, pedindo uma rápida apuração dos factos.

Em declarações aos jornalistas antes de uma sessão da CDU na Maia, no distrito do Porto, João Oliveira disse ser "absolutamente essencial que a investigação criminal faça o seu trabalho e se conclua a investigação e o apuramento dos factos nos termos em que o regime democrático o impõe".

"Da nossa parte, sempre recusámos fazer política com casos judiciais e, também neste caso, não o faremos", afirmou.

O candidato disse que espera que a investigação faça o apuramento dos factos para que, no final, se possa saber "exatamente aquilo com que se está a lidar".

"Da nossa parte, aquilo que verdadeiramente temos como objetivo é garantir que haja em Portugal confiança no funcionamento da Justiça (...) e é preciso que não se faça aproveitamento político de casos judiciais, porque isso naturalmente não serve nem à justiça, nem à política", defendeu. .

Também o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, disse aos jornalistas que o partido espera o rápido esclarecimento dos factos, recusando associar a investigação que está hoje a ser feita com o facto de se estar a três dias das eleições europeias.

"Não há boas nem más alturas para a justiça avançar. É a altura que é e é preciso que rapidamente se esclareça tudo o que for preciso esclarecer", disse.