Jovens ou idosos, quem se adapta melhor à pandemia?
25-09-2020 - 18:37
 • Sandra Afonso

Estudo matemático divulgado pelo Banco de Portugal responde a esta questão e deixa um aviso. “Fortes políticas restritivas, para todos, devem permanecer em vigor até ao momento em que a vacina é aplicada, caso contrário, a doença recupera muito rapidamente e as políticas têm impacto insignificante."

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São os idosos que mais alteram os seus comportamentos face a pandemias como a que atravessamos atualmente, indica um estudo publicado esta sexta-feira pelo Banco de Portugal, tendo por base a ciência económica, que "procura analisar o efeito das epidemias tendo em conta as mudanças comportamentais dos agentes económicos, através do uso de modelos matemáticos simulados".

Para o estudo, o investigador do Banco de Portugal, Cezar Santos, isolou estes dois grupos etários em particular -- jovens e os idosos -- e concluiu que estes últimos são mais propensos a alterar o seu comportamento face a situações epidemiológicas como a atual pandemia de Covid-19.

“Para se protegerem contra as infeções, os idosos escolhem passar mais tempo em casa e longe de atividades em que o risco de contrair o vírus é superior”, refere. Nos modelos utilizados, esta proteção reforçada é visível numa “diminuição acentuada da curva de infeções” nessa camada da população.

Segundo o autor, o modelo indica que, apesar de a Covid-19 ser mais fatal para os idosos, “a diferença em taxas de mortalidade entre gerações seria ainda maior na ausência de mudanças comportamentais” da parte dos mais velhos, isto apesar de, inicialmente, terem sido eles a demonstrar mais resistência às medidas de contenção da Covid-19.

O estudo parte de um cenário base: um país com Covid-19 mas sem medidas de restrição, e compara os diferentes comportamentos dos grupos selecionados com cenários onde vão sendo introduzidas alterações estratégicas, como testes de despistagem, medidas de confinamento, etc.

A propagação da doença e a letalidade são introduzidas em modelos SIR, modelos matemáticos simples usados para calcular a evolução de uma epidemia, gerando um padrão de transmissão de doenças, sendo depois cruzadas com as medidas políticas, para investigar as reações à pandemia consoante a idade.

Segundo este estudo, “a imposição de políticas de confinamento aos idosos reduz as mortes, mas também reduz a sua utilidade". Já a imposição das mesmas políticas apenas aos jovens pode, em alguns casos, "até levar a mais mortes no longo prazo”.

De um modo geral, “fortes políticas restritivas, para todos, devem permanecer em vigor até ao momento em que a vacina é aplicada, caso contrário, a doença recupera muito rapidamente e as políticas têm impacto insignificante sobre as mortes”.

Para o autor do estudo, testes e quarentena “são formas excelentes de reduzir a doença", mesmo que as medidas se concentrem apenas nos jovens. Com bons resultados surge também a separação de atividades entre grupos de idade, o que “diminui o número de mortes, especialmente entre os idosos”.

Este estudo avaliou ainda a combinação de diferentes medidas de combate à pandemia de Covid-19 e conclui que “adicionar uma política de abrigo em casa, moderada mas prolongada, além de testes parciais, generalizados, conduz a ganhos de bem-estar para todas as faixas etárias, mais do que o simples teste”.

A possibilidade de teletrabalho pode tornar as políticas de confinamento local menos onerosas em termos de produção perdida, é ainda referido no estudo. No entanto, “os indivíduos podem endogenamente escolher interagir com grupos diferentes”.

O impacto económico das restrições depende ainda de dimensões como a educação, o tipo de setores e o género.