"Da melhor forma e no tempo certo". Israel não deixará ataque iraniano sem resposta
15-04-2024 - 10:43
 • André Rodrigues

Dor Shapira garante que a ameaça iraniana lançada no último fim de semana não terá como consequência um desinvestimento ou qualquer recuo da ofensiva israelita na Faixa de Gaza, espoletada pelos ataques do Hamas a 7 de outubro: "no final de contas, está tudo ligado".

Ainda não se sabe quando, nem de que forma, mas o embaixador de Israel em Portugal, Dor Shapira, garante que o ataque de larga escala lançado pelo Irão durante o fim de semana não ficará sem resposta.

Em entrevista à Renascença, Dor Shapira classifica de "inaceitável" a ofensiva iraniana e defende que a resposta terá de ser "inteligente" e "eficaz", para dar um sinal claro a Teerão e aos seus aliados: "Precisamos de ter a certeza de que estas organizações não representam uma ameaça aos nossos cidadãos".

Como e quando é que Israel tenciona responder ao ataque iraniano deste fim de semana?

O governo israelita terá de fazer a sua avaliação para decidir como responderá. Quando o fizer, terá de ser da forma mais inteligente e eficaz possível. O que aconteceu no último sábado é inaceitável e é algo de que já se fala há bastante tempo. Este regime maléfico de Teerão tem de ser detido.

Ou seja, a retaliação não será imediata. Vai levar o seu tempo...

Repare, nenhum país pode aceitar este comportamento. Nós precisamos de assegurar que o Irão e os seus aliados – porque não é só o Irão, temos movimentações do Hezbollah, do Hamas e dos houthis no Iémen. Nós precisamos de ter a certeza de que estas organizações não representam uma ameaça aos nossos cidadãos e vamos fazer tudo o que for necessário para que o Irão e os seus aliados não põem em causa a segurança dos israelitas. Vamos fazê-lo da melhor forma e no tempo certo.

De qualquer forma, Teerão já disse que, caso Israel responda, a retaliação será ainda maior do que o ataque deste fim de semana. Isto pode mesmo arrastar a região para um conflito descontrolado, com consequências imprevisíveis?

Se observarmos o que se passa à nossa volta, esta não foi a primeira vez que o Irão nos atacou. Também não foi a primeira vez que o regime iraniano tentou desestabilizar a região. Veja o que o Irão está a fazer em todo o mundo. Eles estão envolvidos em quase tudo de mau está a acontecer em todo o lado: têm células terroristas na América Latina e na Europa, estão a ajudar a Rússia na guerra da Ucrânia, fornecendo-lhes drones de combate. Além disso, estão envolvidos na nossa região, são o principal fundo de financiamento do Hezbollah, no Líbano e também financiam e ajudam o Hamas, responsável pelo ataque terrorista contra Israel, a 7 de outubro.

São, também, eles que estão a dar apoio financeiro e armamento aos houthis que estão a perturbar o transporte marítimo de mercadorias no Mar Vermelho.

Por isso, eles estão envolvidos em tudo o que de mau está a acontecer no mundo nos últimos 20 anos. E isso não é novidade. É verdade que o ataque de sábado foi numa escala diferente e de uma forma diferente do que tinham feito no passado.

Mas, ao usar os seus aliados, eles têm apenas um objetivo: criar o caos e lutar contra o estilo de vida do mundo moderno ocidental.

Temos de nos unir contra isso e fazer tudo o que pudermos para garantir que este regime maligno - não o povo - vai deixar de comportar-se de tal forma que represente uma ameaça para todo o mundo.

Desinvestir na ofensiva de Gaza por causa do Irão? "Está tudo ligado"

A eventual resposta a este ataque iraniano, se e quando ocorrer, vai interferir com o esforço militar de Israel na Faixa de Gaza? Vai alterar alguma coisa na estratégia israelita no conflito desencadeado a 7 de outubro?

No final das contas, está tudo ligado. Somos um país democrático, um país que tem obrigações para com os seus cidadãos. E a obrigação do país para com os seus cidadãos é garantir que eles estão protegidos. Precisamos de ter a certeza de que eles estarão protegidos e que não vão ter de enfrentar uma ameaça qualquer que ela seja. Venha ela do Sul, por uma organização chamada Hamas, venha ela do Norte, por parte do Hezbollah. E, também, do Irão que, embora mais distante, está por trás destas organizações.

Ou seja, está a dizer-me que não haverá qualquer alívio da ofensiva em Gaza, no contexto deste ataque iraniano?

O que estou a dizer é que precisamos de combater qualquer ameaça. É isso que temos de fazer para trazer segurança de volta ao povo de Israel. Uma vez mais, não importa se do Hamas ou do Hezbollah. Precisamos de garantir tranquilidade e segurança à região, para o povo de Israel e, aliás, também para os próprios palestinianos. Porque viver sob um regime terrorista é mau também para eles. Isso tem de mudar. Lembre-se, também, que ainda temos 133 reféns detidos pelo Hamas e não podemos parar esta guerra até que eles sejam todos libertados.

A resolução da crise de reféns tem prioridade sobre a ameaça iraniana?

Não foi isso que eu disse.

É uma pergunta, Sr. Embaixador. Não uma afirmação...

... A prioridade número um é restaurar a segurança do povo de Israel. Agora, como fazer isso? É garantir que não teremos quaisquer ameaças contra Israel, garantir que não teremos uma organização terrorista na nossa fronteira e garantir que os nossos reféns regressam a casa. Não vou priorizar. Para mim, está tudo ao mesmo nível.

Os Estados Unidos já avisaram o primeiro-ministro israelita que não tencionam participar numa eventual retaliação contra o Irão. Posição que é, também, seguida pela generalidade dos países ocidentais. Como interpreta isto?

Se olhar para as últimas 48 horas, em primeiro lugar, agradecemos muito aos Estados Unidos e aos nossos aliados, que nos apoiaram não só em palavras, mas também em ações.

E, no final das contas, o que aconteceu no sábado passado - isso também é algo que é importante dizer - nunca aconteceu na História: um país atacar outro país diferente em tão pouco tempo, de mais de 350 formas, com drones, mísseis balísticos e mísseis de cruzeiro.

E nós conseguimos intercetar 99% deste ataque. A maior parte da interceção nem sequer aconteceu em território de Israel. Estava longe de Israel e fizemos isso de três maneiras: com a nossa Força Aérea, com o nosso sistema de defesa antimísseis, que é o sistema mais avançado do mundo. E também com a nossa coligação de países, liderada pelos EUA, que nos ajudam a garantir que este ataque não seja bem-sucedido, como o Irão tentou que fosse.

É por isso que continuaremos a trabalhar com os nossos aliados e, claro, com os Estados Unidos para garantir que a segurança para Israel e para toda a região será alcançada.