Vitinha, o avançado que escapou ao Benfica e deixa fortuna em Cabeceiras de Basto
02-02-2023 - 16:45
 • Eduardo Soares da Silva

Até aos 18 anos, Vitinha jogou numa escola do Benfica, mas nunca foi recrutado para jogar no Seixal. O Braga aproveitou, fez encaixe milionário e deixará um pequeno "jackpot" no seu primeiro clube de formação, o Águias de Alvite.

Vitinha é a nova figura do Marselha, mas até aos 18 anos escapou ao radar de todos os grandes clubes portugueses. O ponta de lança de 22 anos rendeu 32 milhões de euros ao Braga e deixa um pequeno "jackpot" na conta bancária do Águias de Alvite, a escola de formação do Benfica onde jogou até aos 18 anos idade.

Dino Dourado é o coordenador da formação do clube de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga, onde o jovem jogou até 2017, quando assinou pelos juniores do Sporting Clube de Braga.

Em declarações a Bola Branca, o dirigente reconhece que ainda não há certezas em relação ao valor que o clube vai receber, uma vez que durante duas épocas não jogou pelo Águias de Alvite devido a falta de equipas de competições.

A receita, que deverá ser inferior ao meio milhão de euros inicialmente apontado, será sempre importante para um clube focado maioritariamente na formação dos atletas.

"Estamos numa fase de interrogações e de começar a conversar com as pessoas para fazerem os pedidos. É uma fase inicial. Não tenho a certeza sobre o meio milhão. Será sempre considerável, mas talvez não tanto, porque nos primeiros anos do Vitinha estivemos fechados, sem equipas de competição. Levava o Vítor a uma escola do Benfica fora de Cabeceiras para jogar. Por isso, os nossos direitos só começam quando ele começou mesmo a jogar em equipas nossas", disse.

O que resta da verba "deverá ir para a Federação Portuguesa de Futebol", porque as escolas onde Vitinha jogava inicialmente já fecharam.

O Águias de Alvite atualmente não conta com equipa sénior, um projeto que esteve ativo durante os últimos dois anos para os jovens que saíam dos juniores e procuravam um local para continuarem a jogar enquanto conciliavam com a faculdade. "Não foi uma experiência enriquecedora e deixamos o projeto para trás, estamos mais focados na formação", aponta.

E foi com o foco nos mais novos que Dino ajudou Vitinha. Os pais não tinham carta de condução e era o dirigente do Águias de Alvite que percorria as estradas minhotas para levar o novo ponta de lança do Marselha aos jogos.

"A ajuda que ele precisava era quem lhe levasse aos jogos. Ele treinava aqui em Cabeceiras e jogava em Braga ou Famalicão. Fui sempre eu que fiz essas viagens com ele, achei que ele ia ser jogador de futebol", atira.

A intuição estava certa: "Tenho um amigo que ontem me enviou uma conversa de 2012. Dizia-lhe que o 'miúdo' jogava muito e até na baliza se fosse preciso. 'Podes crer que vai dar jogador, escreve o que te digo'. Foi o que lhe disse. Fiquei todo contente por ver isso novamente".

Recusado no Benfica, aproveitado no Braga

Num cenário pouco habitual, Vitinha ficou em Cabeceiras até aos 18 anos, quando finalmente foi recrutado pelo Braga. O Águias de Alvite é uma escola do Benfica e Vitinha teve oportunidade de ir ao Seixal treinar.

"Chamei um coordenador para o verem jogar. Arranjaram-lhe logo uma semana para treinar no Seixal com os juvenis. Treinou bem com o Renato Paiva e até marcou golo num jogo, mas começava a cair o ritmo a meio dos treinos, foi do distrital para o campeonato nacional, rodeado de internacionais. É natural", justifica.

O Benfica "hesitou, hesitou e não ficou com ele". Mais tarde, o Braga viu para lá dos problemas.

"Acho que esteve aí a sorte do Vítor. Não é só por ser o Benfica que o observaram bem e que tenham tomado uma boa decisão. Quem tomou a decisão certa foi o Braga. Trabalho no Benfica e sou benfiquista, mas reconheço que quem esteve bem foi a formação do Braga", analisa, em entrevista à Renascença.

Ainda antes, houve possibilidade de rumar ao Vitória. Muitos jovens do Águias de Alvite rumaram a Guimarães, mas nenhum teve tanto sucesso.

"Acho que nenhum deu jogador. Ele foi ficando para trás, talvez porque não teria condições de ir para Guimarães ou Braga todos os dias. Acabou por ser bom para ele. Podemos pensar que poderia ter ido mais cedo, teria mais treinos e outras condições, mas há quem tenha tido e não deu o que ele está a dar. Aqui foi protagonista, jogou muito e mostrou-se. Fizemos os possíveis para ele entrar num clube na altura certa. Posso dizer que ele é que escolheu o Braga. Ficou a adorar o clube, a partir daí não quis outro", termina.

Do Águias de Alvite à estreia no Braga em dois anos e meio

Vitinha chegou ao Braga no verão de 2018 e a subida foi rápida. Nessa mesma época estreou-se na Liga Revelação, na equipa sub-23. Em 2020/21, destacou-se na equipa B e estreou-se pela equipa principal nessa mesma temporada, a 13 de janeiro de 2021, num jogo da Taça de Portugal frente ao Torreense. Marcou nessa partida.

Passou a integrar o plantel principal desde então. Em 2021/22 marcou 14 golos e três assistências em 38 jogos sob comando técnico de Carlos Carvalhal e elevou ainda mais o patamar nesta temporada. Em meia época, marcou 13 vezes e fez cinco assistências.

Brighton, Southampton e Marselha. Os três clubes mostraram-se disponíveis para bater a cláusula de rescisão de 30 milhões de euros.

Vitinha escolheu os franceses. Agora mais longe de Cabeceiras, Dino Dourado tem a certeza que o avançado continuará ligado à sua terra.

"Já veio à escola várias vezes, é padrinho de um torneio anual. É adorado pelos miúdos, começou a ser gradualmente muito conhecido. É um orgulho para a nossa escola tê-lo lá. Deu-me uma camisola, chegou a dar-me bilhetes para ir ver o Braga. Foi sempre muito simpático para mim e para a minha família. Só tenho a dizer bem dele, desejo-lhe o melhor. Sei que ele agora vai ter uma projeção ainda maior", diz.

O futuro só poderá ser brilhante aos olhos de quem vê Vitinha marcar golos desde os 13 anos.

"Eu acho que ele já estava às portas da seleção nacional aqui no Braga. No Marselha, se não tiver azares de lesões, sendo um goleador nato e da forma que trabalha, vai ter ainda mais sucesso do que no Braga. Brevemente tem as portas todas abertas, não há limite para ele", termina.