O passado presente
04-07-2021 - 00:07
 • José Bastos

Nuno Garoupa, Nuno Botelho e João Paulo Batalha na análise da atualidade.

A audição parlamentar de maio de 2019, em que o comendador José Berardo garantia não ter dívidas, confrontou o país com uma atitude a beirar a insolência e chocou a sociedade. Esta semana o MP moveu peças no tabuleiro da justiça avançando com suspeitas de burla e fraudes sobre o comendador.

José Berardo – e a sua dívida de mil milhões à CGD e a outros bancos - é mais um dos nomes proeminentes da ‘elite’ empresarial e de gestão da primeira década do século a ser detido e investigado por alegado envolvimento em negócios suspeitos de tráficos de influências, burla qualificada ou branqueamento de capitais.

Nesta fase José Berardo é apenas suspeito de estratégias para salvar a sua coleção de arte da penhora por um calote de mil milhões de empréstimos, tendo como garantia as ações bancárias a comprar com esse dinheiro. Em 2007, Berardo terá sido instrumental numa estratégia do poder político para controlar o maior banco privado português, o BCP.

Os factos que levam à detenção de Berardo decorrem na fase de declínio do período Sócrates, mas são consequência dos empréstimos. É um retrato de época que envolve ‘gestores de topo’, personagens qualificadas da banca que transitam de administração para administração pelas portas giratórias da política portuguesa ou pode repetir-se?

Um regime que se prepara para ‘poder ir ao banco’ levantar ‘bazucas’ arrisca, dentro de uma década, voltar a enfrentar listas de ‘grandes devedores’? 15 anos depois ainda se vai a tempo de fazer justiça?

A análise é de Nuno Garoupa, professor da GMU Scalia Law, Nuno Botelho, presidente da ACP - Câmara de Comércio e Indústria e João Paulo Batalha, consultor anti-corrupção e de governança, ex-líder da TI.