Pedrógão. Sobreviver depois de perder quase tudo Pedrógão. Sobreviver depois de perder quase tudo Pedrógão. Sobreviver depois de perder quase tudo

Ti Rosalina da Figueira ficou sem casa, Sandra tenta aguentar os 50 postos de trabalho de uma fábrica em escombros, Maximiano perdeu o pai e a mãe. Um mês depois do fogo que transformou em negro o verde de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e de Figueiró dos Vinhos, o que mudou na vida das pessoas? Quase tudo.

por Rádio Renascença
 
 

Ao andar pelas estradas dos três concelhos fustigados pelo fogo que há um mês matou 64 pessoas e feriu mais de 200, começa-se a ver nas beiradas da floresta o verde a despontar. Ainda tímido. É a vegetação rasteira que começa a contrastar com milhares e milhares de árvores que o fogo pintou de preto.

A natureza dá os primeiros sinais de recuperação. Um mês depois, também as pessoas começam a reerguer-se. Lentamente. Com dificuldades. Renascer das cinzas não é coisa fácil.

Em todos os cantos, em cada lugar se fala de perder. O verbo neste incêndio teve tantas e tantas formas. Demasiadas.

Há quem tenha sentido morrer nos braços pessoas que tinha visto nascer e os pais que lhe deram a vida. Tudo em menos de uma hora. Há quem tenha assistido ao fogo a reduzir-lhe a casa a pó sem nada poder fazer ou tenha visto o trabalho de uma vida transformar-se em sucata.

E perguntas a arder na cabeça de muitos: “Podia ter feito mais?”, “era suposto fazer mais?”.

Apesar da vontade de olhar em frente, há uma certeza: as cicatrizes vão permanecer. Muitos dos que viveram com mais intensidade o terror das chamas sentiram o abandono do Estado na hora da aflição.

“O grande sentimento das pessoas, e estavam muito afectadas por isso, era em relação à falta de homens e de carros de bombeiros. Isso foi uma realidade. É muito triste e é muito grave, mas o facto é que não havia maneira de lá chegar”, diz o autarca de Pedrógão Grande, Valdemar Alves.

Numa zona tão fustigada pela desertificação, o fogo levou vidas que se somam às dos que partiram para os grandes centros em busca de uma vida melhor. Tudo junto, as pequenas povoações dos três concelhos, segundo Valdemar Alves, já nem se podem designar como abandonadas. “São aldeias fantasma.”

Ti Rosalina ficou sem casa. Aos 79 anos, uma nova provação

Ti Rosalina está habituada a sofrer. Foi uma vida no campo, onde trabalhou “como uma mula”, de sol a sol. Foi o marido que esteve dez anos acamado antes de morrer. É o filho que aos 53 anos depende muito dela. São 79 anos em que o corpo e a alma coleccionam as marcas de uma vida dura. Com esta idade já não esperava ter de passar por nova provação. Mas ela veio: o fogo levou-lhe a casa e com ela foram-se todos os objectos e valores que demoraram uma vida a conquistar. Tudo reduzido a cinzas, a pedra, a pó.

Ti Rosalina da Figueira, como é ali conhecida por todos, vivia com todos os passos pré-determinados por uma rotina que se repetia dia após dia. De um lado de uma rua erma, na aldeia da Figueira, que faz fronteira entre Pedrógão Grande e Figueiró, está o café do filho, o Retiro do Lino; do outro, a casinha de dois pisos onde vivia com Adelino; e, mais afastado, mas não muito, os talhões de terreno onde tinha umas hortaliças e algumas árvores de fruto.

Até ao fogo de 17 de Junho, tudo era calmo, lento, previsível. Até que tudo mudou.

 
 

A mudança põe os pensamentos de Rosalina a andar à roda. Nem os 30 dias que já passaram servem de almofada. “A minha cabeça ainda não anda certa. Não sou capaz, vejo a minha casa com tudo ardido… Foi tudo, não ficou nada, os móveis, a roupa, nadinha.” A voz sai quase sempre arrastada como se antes de cada palavra pudesse activar uma lágrima.

A casa desta mulher foi uma das 122 que ficaram totalmente ou parcialmente destruídas em Pedrógão Grande, num total de 169 primeiras habitações nos três concelhos afectados. Para as recuperar será necessário um investimento de quase 28 milhões de euros.

Eles vêm de todos os lados

Rosalina está no café do filho, onde agora passa a maior parte dos dias e a televisão substituiu a terra como companheira na maior parte das horas. Numa aldeia com poucas pessoas e onde todos se conhecem, nunca se viu tantos forasteiros como nos últimos dias. A pequena rua encheu-se de políticos, de técnicos, de arquitectos, de voluntários. Vêm de todos os lados, de todas as instituições, enchem as ruas de carros.

A onda de solidariedade que o país fez crescer chegou ali. “Têm-nos ajudado com tudo: roupa e comida. Não tem faltado nada”, reconhece, agradecida.

Para o filho Adelino é que tem sido mais difícil de arranjar o que vestir, mas mesmo assim possível. “Para ele é muito custoso, tiveram de vir de fábrica porque ele é muito gordo. As calças não lhe servem e arranjaram camisolas, calças e calçado. Ele só calça as botas de biqueira de aço porque entorta os artelhos para fora”, explica.

Para a Ti Rosalina, Adelino é uma preocupação constante. Por várias vezes vai repetindo ao longo da conversa o mesmo conjunto de frases em que liga o fogo de há um mês ao medo de deixar o filho sozinho.

 
Foto
Rosalina no local onde jantava todos os dias com o filho
Rosalina no local onde jantava todos os dias com o filho
 

“Nunca me vou esquecer do que aconteceu, só em morrendo. Se morro, deixo cá o meu filho e nem terra não me come [mais tarde explica o significado desta frase, que se aplica a quem depois de morrer deixa algo que lhe é querido e de que quer tomar conta]. Ele não se governa sozinho. Fica aos pontapés dos outros. Ele é muito doente. Estou sempre a pedir a Deus que me dê mais uns aninhos de vida, mas, quando Ele entender que me leva, leva-me mesmo”, sentencia.

A septuagenária sai do café e encaminha-se para o portão de ferro que dá acesso à casa onde viveu de que agora apenas resta um esqueleto enegrecido. Essa entrada dá também acesso à casa da irmã, onde ela e o filho vivem desde que ficaram sem tecto.

“Olhe como isto está”, diz, enquanto aponta para o negro da casa de banho. “Queimou-se tudo. Agora não sei se eles botam tudo ao chão. Não me importava que eles fizessem tudo só com um piso. Isto está tudo estoirado. O que é que eles vão fazer a isto?”

Coração como um bago de milho

A dor de ver a casa destruída entra-lhe pelos olhos todos os dias. “‘Atão’ não custa andar aqui? O coração da gente é sempre como um bago de milho. Sempre como um bago de milho”, reforça. Relembra os santinhos que enchiam todos os cantos da sala e que agora tanta falta lhe fazem. Para lhe dar força.

Já foi visitada pela autarquia, pelos técnicos, mas foi quando Marcelo Rebelo de Sousa entrou em sua casa e lhe prometeu que pelo Natal já estaria no novo lar que ficou mais confiante. “Vi-me na televisão agarrada a ele. Apareci com o meu chapéu e assim todos sabem quem eu sou. Nunca largo o meu chapéu”, afirma num dos poucos momentos em que os soluços e os suspiros dão lugar a um sorriso.

Ninguém lhe perguntou como queria ou não a casa. Mas termina a frase com a resignação de quem sabe que não controla o processo. “Eles é que sabem. Só quero que me façam uma salinha, dois quartos e uma casa de banho”, enumera.

 
Foto
Rosalina no café do filho, em frente à casa em ruínas
Rosalina no café do filho, em frente à casa em ruínas
 

O presidente da Câmara de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, diz que a habitação é a prioridade da recuperação do concelho. E, ao contrário do que diz o ditado, nos casos em que as casas estão apenas parcialmente danificadas, a reconstrução deve começar pelo telhado. Só assim, explica o autarca, se pode proteger da chuva do Inverno o que lá está dentro.

As obras no terreno já começaram, mas ainda não chegaram às casas que ficaram totalmente destruídas. Valdemar Alves justifica-o de duas formas: a menor burocracia necessária para aprovar pequenas reparações e a tentativa de aproveitar a recuperação para também ajudar a reerguer a economia local.

“Não temos muitos construtores no concelho, mas queremos dar a prioridade a quem é daqui e foi afectado com isto. Se temos de dar o dinheiro a ganhar que seja às pessoas do nosso concelho porque também são vítimas”, defende o autarca.

Em relação às casas que ficaram totalmente destruídas, Valdemar Alves quer que os trabalhos comecem dentro de duas semanas. Desejava que fosse tudo mais célere e acaba a criticar a burocracia que a própria câmara cria.

“Há certas coisas que temos de avançar e não podemos estar à espera de projectos vindos do arquitecto com especialidades disto e daquilo. Acho uma estupidez – e contra os regulamentos falo. São coisas que já existiam. Antes as casas já tinham um sistema eléctrico, um sistema de água. Temos de ultrapassar a burocracia”, defende.

Quanto a prognósticos para as pessoas estarem dentro de suas casas, Valdemar está alinhado com a previsão que o Presidente da República fizera à mulher de Figueira. “Até ao Natal.”

Um pesadelo com memórias sonoras

Até lá, Ti Rosalina estará na casa da irmã. Ela recebeu-a de braços abertos, mas nunca é a mesma coisa (“O nosso cantinho é o nosso cantinho”). Tudo isto numa altura em que a irmã passa por um momento complicado. Outro problema a somar. Vai ser operada a um intestino. Mais uma dor para Rosalina.

Quando entra no pátio que dá acesso à antiga casa, nem o canto dos pássaros que ali estão evita que na cabeça de Rosalina as imagens da noite do incêndio lhe voltem à cabeça. E são tão sonoras que lhe ecoam na cabeça.

“Estava em casa e comecei a ouvir aquele barulho ‘buuuuu’ , ‘buuuuu’, e tive de fugir para a rua. Começou numa casa ali em baixo e acabou na minha. Aquilo foi em dez minutos”, resume, antes de continuar: “Depois veio o fumo e ouvia-se ‘puuuuum’, ‘puuuuum’, ‘puuuuum’. Pareciam bombas que estouravam no ar como bolas de fumo. Incendiava tudo, nunca vi na minha vida nada assim. E tenho 79 anos.”

 
Foto
Adelino e Rosalina vivem na casa da irmã, uma das poucas habitações que sobreviveu ao incêndio no quarteirão de casas junto à entrada da aldeia
Adelino e Rosalina vivem na casa da irmã, uma das poucas habitações que sobreviveu ao incêndio no quarteirão de casas junto à entrada da aldeia
 

Uma coisa assim deixa marcas. Em campo, nos três concelhos, estiveram várias equipas de psicólogos. Rosalina diz que as viu, mas que nunca estiveram com ela cara a cara. Foi numa roda com os vizinhos e familiares que conversou com estas equipas.

“Falaram comigo e com muita gente. Não me receitaram nada, não senhor. Foi toda a gente junta. Não pode ser, não pode ser”, repete.

“Um dizia uma coisa, vem outro e diz outra coisa. Elas chegam ao ponto de que não estão com atenção. É muita gente a falar. Devia ser uma de cada vez, não é?”, questiona. Mas uma certeza tem: “Gostava de ter alguém a quem contasse a vida, que falasse disto e daquilo”.

O autarca de Pedrógão diz que a dimensão psicológica não está a ser descurada. “As pessoas saem de casa e vêem tudo ardido. Não têm o gatito e o cão para tratar. Não têm as galinhas, nem o porquito, que era muitas vezes o complemento das reformas, das fracas reformas que têm. As pessoas não sabem para onde ir e o que fazer. Isto deprime um pouco as pessoas”, reconhece.

Para minimizar o impacto da tragédia, o presidente da câmara revela que as crianças das aldeias estão a ir para a vila, “onde têm um ATL alargado”.

“Estamos a tirar as crianças até aos 15 anos e queremos que, através das conversas, os médicos, psiquiatras e psicólogos percebam como está a situação em casa. Vamos arranjar um programa para idosos também, até aparecer a verdura e a Primavera”, anuncia.

Uma vida que foi sempre difícil

Com o incêndio foi-se a casa de Rosalina, foi-se a horta em que plantava, foram-se os barracões em que guardavam as ferramentas, foram-se os animais que davam algum sustento. Ficaram os 450 euros que tem de reforma dela e do falecido marido. O café pouco ou nada dá. “Às vezes tenho de meter dinheiro do meu.”

Habitou-se a “viver com a mão fechada”, até porque o filho – e é sempre nele que Rosalina pensa nas decisões que toma – precisa de ir muitas vezes ao médico. De cada vez que tem de ir a Coimbra a consultas, e não são poucas, gasta 50 euros só de táxi.

Ainda assim, e com toda a desgraça e privação, tem espaço no coração para agradecer. “Deus Nosso Senhor ainda nos deixou aqui e temos de dar muitas graças. Deixou-me vivo a mim e ao meu filho.”

 
 

Sandra, a gestora a quem os apoios ainda não chegaram. E há 50 pessoas que dependem deles

Já passou um mês. São 30 dias em que a Serração Progresso Castanheirense, em Castanheira de Pera, não laborou, não vendeu, não facturou. Ao longo de centenas de metros, estende-se um cemitério de máquinas e de material. Tudo derretido ou pintado de negro. Ali trabalham 50 pessoas com contas para pagar e vidas para resolver. E sem dinheiro nada feito. Apesar de todas as promessas, até agora, ainda não chegou nenhum apoio àquela que é uma das maiores empregadoras da região.

As autarquias e o Governo apressaram-se a dizer que iam centrar esforços na recuperação das empresas, as poucas que existem, e que dão o raro emprego que ali há. O ministro do Planeamento e Infra-estruturas, Pedro Marques, disse, no final de Junho, que, independentemente de haver ou não fundos europeus, não faltaria apoio às empresas.

“Tudo isso se pode dizer, tudo isso se diz, mas onde é que está? [pausa]. Até agora nada. Houve muita solidariedade, houve muitos donativos. Há pessoas que vão ligando até com alguma revolta porque parece que nada chega. Os portugueses uniram-se em prol de uma causa e é de louvar. Ninguém está desalojado, mas nós aqui não conseguimos fazer as coisas sem dinheiro e sem a nossa força”, afiança a gestora da serração, Sandra Carvalho.

 
 

Há um mês, a jovem empresária, quando questionada sobre os apoios que se anunciavam já, preferia ver para crer. "O pobre desconfia, tudo o que temos é do nosso trabalho, mas temos de ter fé", sublinhava.

O futuro, até agora, provou que tinha razões para estar de pé atrás. “Estamos por nossa conta. Já houve várias reuniões e visitas, mas nada de concreto”, refere.

No dia do funeral do bombeiro Gonçalo Conceição, uma das 64 vítimas mortais dos incêndios, uma comitiva que veio para as exéquias, com vários secretários de Estado e entidades, visitou as instalações. “Depois disso, mais nada. Nada nos foi prometido”, enfatiza.

E os apoios? Onde estão?

Numa visita guiada pela fábrica, Sandra recorda o barulho ensurdecedor que antes se ouvia. Foi substituído por um “silêncio irritante”. “Estávamos habituados a que tudo estivesse a trabalhar, ao riso das pessoas, ao barulho, ao falar alto. Havia vida, coisa que agora não há.”

As lembranças do passado aumentam as queixas que vão directas à alegada inacção dos que mandam e podiam agir.

 
Foto
A serração ficou com 600 hectares de terrenho com árvores queimadas
A serração ficou com 600 hectares de terrenho com árvores queimadas
 

Mas sabe que não está sozinha nas queixas. A serração está a meio da cadeia de produção da fileira da floresta e tem vasos comunicantes com outros agentes no terreno. Está tudo na mesma situação.

“Falamos com alguns empresários mais pequeninos e que perderam muito, há uma oficina muito próxima, em que o dono tinha carros de clientes à volta do terreno, e deve estar na mesma situação do que eu... como é que... não é fácil”, soluça.

Cinco milhões à cabeça

Já passou um mês, mas o tempo passou a voar. Sandra puxa a fita atrás. A primeira semana foi de rescaldo, noite e dia nas instalações, e um olho no mato, 600 hectares de terreno onde as chamas podiam reacender-se. Na segunda semana, a limpeza; na terceira, outros problemas: orçamentos, burocracias e seguros.

Sabe que vai precisar de pelo menos cinco milhões de euros para voltar a pôr tudo como dantes. Isto sem contar com os prejuízos que decorrem de não estar a despachar encomendas.

As máquinas que ali laboram (cujos preços vão dos 50 euros aos 400 mil euros) estão na maioria inutilizadas. Em muitos dos casos são feitas à medida e já custam mais três ou quatro vezes do que quando foram compradas.

“Ainda estamos à bulha com pedidos de orçamento e quando olhamos para eles quase desfalecemos com os valores. Não vai ser fácil. Vai ser tempo que estamos parados e em que temos de pagar impostos, os salários e as obrigações fiscais”, lembra.

Mas até quando é que vão poder aguentar em ajudas? “Nem nós sabemos. Depende. Temos clientes que nos pagam a 60 e a 90 dias, vamos falhar com eles porque não vamos conseguir cumprir os contractos de abastecimento e eles vão ter de procurar outros fornecedores. Se calhar não vão pagar nos prazos estabelecidos. Isto é uma bola de neve.”

Quantos trabalhadores ficam?

O futuro dos trabalhadores está em suspenso. Quando avalia como é que eles têm reagido, Sandra suspira antes de começar a falar. Faz uma pausa e depois avança. Diz que tem havido de tudo: alguns têm ajudado nas limpezas na empresa e na mata, outros tiraram férias e outros estão de baixa.

Não sabe se poderá manter toda a gente. Aliás, sabe pouco sobre o que lhe reservam os próximos meses, mas gostava de ficar com todos os trabalhadores.

Diz que já lhe propuseram o “layoff”, mas questiona várias vezes a opção: “Por que é que vamos manter as pessoas em casa a receber se precisamos delas para reconstruir a fábrica? Porque é que vamos dispensá-las se precisamos delas? Não faz muito sentido. Se o Estado está disposto a ajudar através de um subsídio de desemprego ou de um ‘layoff’, porque não fazê-lo com as pessoas a trabalhar?”

 
Foto
Os trabalhadores dividem-se entre o trabalho da recuperação da fábrica e o corte de árvores
Os trabalhadores dividem-se entre o trabalho da recuperação da fábrica e o corte de árvores
 

Se há um mês calculava em apenas alguns meses o retomar da laboração a 100%, agora estende o prazo para mais de ano. Ainda assim, pelo meio há formas de parcialmente começar a vender.

“Queremos ter uma parte a trabalhar para irmos facturando, porque temos matéria-prima e mão-de-obra, só nos falta as máquinas para concretizar o produto final”, explica.

No entanto, de seguida, sai-lhe novo lamento: “Mas já se passou um mês e olhamos à volta e praticamente nada se fez.”

Isto só está a começar

Quando olha para um cenário pós-reconstrução, os desafios não vão terminar. Aí surgirá nova missão: procurar clientes novos ou velhos. “Vamos ter de os conquistar porque eles tiveram de desenrascar a sua vida e têm os seus compromissos e os seus contratos”, sustenta.

Se o mal que lhes chegou das chamas já seria suficiente para que não precisassem de mais dores de cabeça, foram agora os homens, e não a natureza, a trazer mais um desgosto. Há cerca de uma semana, a fábrica foi assaltada. Os roubos têm acontecido na zona, a particulares e a empresas. Os que se aproveitam das tragédias não poupam estas vítimas dos fogos.

“Vieram roubar-nos os computadores, as impressoras e o programa que tínhamos numa das estufas. Os computadores já não eram novos, mas temos de comprar novo, e o programa de gestão é muito mais caro, cerca de cinco mil euros cada licença. Mais uma despesa”, identifica.

“Entraram por um buraquinho na zona de abastecimento da estufa, mas os computadores estavam numa cabine fechada que eles arrombaram”, conta. A videovigilância ficou destruída pelas chamas. “Em cima de todo o prejuízo, o pouco que sobrou ainda acaba por ser roubado.”

Os eucaliptos da discórdia

De saída da fábrica, num passeio num 4x4 pelas propriedades em que a empresa tem plantadas centenas de hectares de árvores, Sandra desabafa sobre algumas críticas que tem ouvido de outros.

“Dizem as pessoas que só plantamos eucaliptos. Não é de todo mentira, mas também não é 100% verdade. Também plantamos e preservamos outras espécies. Mas há outra árvore que seja possível rentabilizar da mesma forma? Não”, pergunta e responde a gestora.

E o risco? “Se formos a avaliar um incêndio como este, onde tudo ardeu desde o carvalho, ao sobreiro, ao eucalipto….Vimos matas bem planeadas onde não ardeu eucalipto e os carvalhos junto à linha de água ficaram destruídos”, ilustra enquanto passeia pelas encostas de um dos muitos terrenos que tem no concelho de Castanheira de Pera, Pedrógão Grande e Figueiró.

Muita da madeira que tem naqueles terrenos está inutilizada, seja de eucalipto ou de pinheiro. E se esse prejuízo directo é mais um para somar, há ainda outro: o preço da madeira já desceu.

“Há um ‘boom’ na oferta. Para podermos comprar ao particular, vamos fazê-lo mais barato porque também vamos vender por um preço mais baixo. No prazo de 15 dias, o valor desceu três euros na madeira de pinho.”

 
Foto
Terreno da Serração Progresso Castanheirense com pinheiros novos, queimados e irrecuperáveis
Terreno da Serração Progresso Castanheirense com pinheiros novos, queimados e irrecuperáveis
 

Já passou um mês, mas para Sandra ainda está tudo muito presente. O fogo mudou-lhe a vida e dos que lhe estão próximos. Fala mais dos outros do que dela própria, mas quando o faz não se esquece do horror que sentiu.

“Achava que isto era o fim do mundo. A minha avó dizia que o mundo já tinha acabado com água e de que agora ia acabar com o fogo e foi o que me veio à cabeça. Pensámos que ia acabar tudo e que não ia sobrar nada.”

 
 

Maximiano perdeu a mãe e o pai. “Podia tê-los salvado?”

Um homem salva a sua casa e tenta ir em socorro dos pais. Não sabe nada deles. Pelo caminho quase passa por cima de um corpo deitado na estrada. Sai do carro, percebe que é um amigo. Pega-lhe e já não há nada a fazer. Segue em direcção à casa dos progenitores. O carro abana com o vento e há árvores espalhadas na estrada. Finalmente chega ao destino. Os corpos deitados na cozinha denunciam o fim. Trá-los para fora de casa. Ela arde. Vai esperar quase seis horas, com os pais mortos ao lado, até que apareça alguém.

Maximiano Lopes viveu tudo isto. Rebobina a fita atrás, os passos que deu, o que fez e o que não fez, saem-lhe pormenorizados. Tintim por tintim.

Define-se como alguém forte, que raramente se vai abaixo. Apesar da voz calma e pausada com que fala de algo tão brutal, admite que nos primeiros dias andou “sempre a pensar naquilo”, mas que “agora vai esquecendo”. Ou pelo menos faz por isso.

 
 

“Tem que se tocar a vida para a frente. Lembrar, lembra-se sempre quando estamos sozinhos, antes de adormecer lembro-me sempre. Mas vamo-nos habituando”, resume.

Os pais, António Vaz Lopes e Maria Augusta Ferreira, de 86 e 87 anos, foram duas das 64 vítimas mortais dos fogos de há um mês. Andavam bem, apesar de já fazerem a vida mais por casa. Moravam ali a meia dúzia de quilómetros da casa de Maximiano, em Castanheira de Pera. Faziam a “vida normal”. António tinha mais saúde do que Maria, recorda o filho.

A pergunta que massacra

Maximiano sabe que os pais já não eram novos, mas quem é que quer uma morte destas para os pais? É quase inevitável que se lhe aflorem alguns sentimentos de culpa, admite.

“É chato pensar que se tenho ido mais cedo os podia salvar e eles tinham outro tipo de morte, sem tanto sofrimento. A partir daí, uma pessoa tem de fazer um dia atrás do outro”, diz.

Mas, tirando a emoção e pondo alguma razão nas opções que tomou naquele dia, convence-se de que fez o que tinha de fazer. “Se tenho lá ido buscá-los…. Mas um gajo lá pensa que vai acontecer uma coisa destas. Tinha lá ido logo às sete e meia”, garante.

 
Foto
Maximiano no alpendre que serviu de abrigo enquanto salvava a casa das chamas
Maximiano no alpendre que serviu de abrigo enquanto salvava a casa das chamas
 

De seguida, lembra: “Se tivesse ido antes, se calhar ficaria como os outros, no meio do caminho, porque entre as oito e as nove [da noite de 17 de Julho] foi a altura em que as pessoas morreram. Quem fosse para a estrada morria...”.

Maximiano dá um contexto à dor que sente. Os outros ajudam a minorá-la por comparação. “Há aí pessoas da minha idade que perderam os filhos, como os moços que morreram aqui na estrada [vítimas de Sarzedas de São Pedro]. Ao fim ao cabo, o choque ainda foi maior do que o meu, não é?”, questiona, como se precisasse de uma confirmação.

Aos 62 anos, parece realmente não ser daqueles que abana com facilidade. Mas, depois disto tudo, é possível não se ir abaixo? Não precisa ou precisou de apoio psicológico? “Se tem sido logo dois ou três dias depois do funeral… mas psicologicamente também não sou muito fraco. Ainda assim, nunca ninguém me perguntou por nada”, confessa.

Dez horas onde cabem a vida e a morte

Sentado na mesa da cozinha da casa que salvou do fogo, Maximiano transmite uma força física e interior de fazer inveja a muitos jovens. Vive do ferro com o qual faz armações para a construção civil.

Há um mês, era num armazém que tem nas Sarzedas de São Pedro, localidade de Castanheira de Pera onde morreram seis pessoas, que estava quando o fogo começou a aproximar-se. Em dois ou três minutos as chamas fizeram quilómetros.

Só teve tempo para pegar no Smart que conduzia e acelerar para casa. Pelo caminho já viu beiradas de casas a cair, rebentamentos e árvores pelo meio da estrada. Quando chegou, tudo ardia a volta da moradia térrea que tem em plena EN 236-1, que ficaria conhecida como a “estrada da morte”.

“O vento era insuportável. Tenho eucaliptos à frente da casa e eles dobravam até meio. E o lume por cima do telhado da minha casa. Os pinheiros voavam”, recorda.

 
Foto
Coroa de flores numa placa com a indicação da aldeia de Nodeirinho onde morreram 11 pessoas
Coroa de flores numa placa com a indicação da aldeia de Nodeirinho onde morreram 11 pessoas
 

A mulher ficou em casa a fechar as janelas e a assegurar-se de que as chamas não entravam. Ele e o filho atacavam as chamas na zona circundante da casa. Ali, ao contrário do que aconteceu noutros locais, não faltou a água. Foi o que lhes valeu.

O calor era tanto que Maximiano arrisca a dizer que estavam uns 70ºC. Tinha de ir tomando banhos de roupa vestida para aguentar. Passados três minutos, estava seco.

Nunca pensou em fugir e deixar a casa para trás, confessa. Isto apesar de o cenário ser quase de guerra. Minutos depois, deixou de se ver o que quer que fosse. E para tudo ser mais aterrador, do outro lado da estrada, onde estavam estacionadas as galeras de uns camiões, começaram a estourar os pneus.

“Havia pedras que vinham ter aqui acima com os rebentamentos. A casa parecia que estremecia, às vezes. Eram bombas porque são pneus grandes e quando aquilo rebentava… parecia sei lá o quê”, recorda.

Uma viagem diabólica

Quando tudo acalmou perto de casa, pegou no filho e foi em direcção a casa dos pais. Um caminho de cinco minutos que demorou 40 a fazer. Pensou em ir por uma estrada junto a uma ribeira que ali há porque lhe pareceu que a probabilidade de encontrar fogo seria menor. O que se passou a seguir foi dramático.

“Cheguei ao pé do cemitério [de Sarzedas de São Pedro] e vi pessoas já caídas e mortas no alcatrão”, começa a contar. “Por acaso não os pisei com o carro, fiquei a cinco ou dez centímetros do corpo. Não se via nada. O meu rapaz é que viu. Ia a conduzir pelo risco, depois apercebi-me que foi uma sorte não os ter pisado”, acrescenta.

Saiu da viatura e percebeu que era um vizinho. Tentou salvá-lo. “Ainda o abanei, mas vi logo que ele já estava a ficar seco. Vi-o nascer”, lamenta.

No local, estava um guarda da GNR que lhe disse que estavam mais três ou quatro corpos e que não podia ir para baixo. Seguiu para cima. Teve de parar várias vezes porque havia eucaliptos e pinheiros por todo o lado. O calor era tanto que teve medo que os pneus derretessem.

Tantas horas sem ninguém aparecer

Finalmente conseguiu alcançar a casa dos pais. Bateu no portão e ninguém abriu. Deu a volta e conseguiu espreitar pela janela da cozinha. Já viu o pai deitado no chão.

“Já devia estar caído há hora e meia. Tentei abrir a porta, mas quem é que conseguia entrar? As portas ainda são de ferro e assim que pus a mão tive de me chegar para trás. Era cá uma temperatura no ferro da porta e nas paredes da casa que só visto. Parti a janela e vi uma mangueira com a qual eles deviam ter andado a apagar o lume”, conta.

Quando finalmente entrou dentro da casa construída com muitos materiais de madeira, conseguiu arrastar os corpos para o alpendre exterior. Ainda tentou regar as paredes e as portas, mas a água esgotou-se pouco depois. A casa acabou por ser consumida pelas chamas.

Maximiano começou a ligar para o 112 às 22h00 e de “cinco em cinco minutos estavam a perguntar como era” do outro lado. Teve de repetir tudo uma, duas, tantas vezes. “Até me chateei e perguntei se era preciso estar sempre a perguntar as mesmas coisas.”

 
Foto
Coroa de flores na N236-1
Coroa de flores na N236-1
 

Informou que tinha os pais mortos ao seu lado, perguntou se lá iria alguém. Só apareceram às 2h00. A certeza de que os pais não estavam vivos era quase absoluta, mas “eu não sou especialista.”

Finalmente, apareceram duas ambulâncias de Vieira de Leiria. Mas ainda não tinha terminado. Era necessário ir lá alguém da GNR para tomar conta da ocorrência. “Para lá ir uma patrulha, tive de mandar o meu rapaz à Castanheira duas vezes. Só apareceram às quatro da manhã”, lembra.

“Saí de lá às cinco da manhã. Até comecei a ficar com medo que ainda começassem a dizer que eu é que fiz mal às pessoas. Um gajo fica assim coiso…”, balbucia.

Conseguiu voltar a sua casa, tomar um banho, descansar duas horas até voltar para à habitação dos pais “para ver se aparecia alguém” para os levar.

Depois de tantas emoções em poucas horas, começou outra luta, a da burocracia. “Tem-me dado uma trabalheira maluca porque isto é um país de papéis. É papéis para todo o lado. Ele é dos bens, dos funerais, do arranjo da casa. Há um mês que não se faz mais nada”, resume.

Quem viesse morria

Num balanço de tudo o que viveu, diz que viu poucos bombeiros e quase não se cruzou com a GNR, mas não critica a actuação das autoridades.

“Diz-se por aí que se podia ter cortado a estrada [EN 236-1]. Mas foi tudo tão rápido que não houve hipótese. Quem viesse sujeitava-se a ficar no meio do caminho, tal como ficaram essas pessoas que morreram”, define.

 
Foto
 

“Ninguém teve possibilidade de cortar a estrada porque isto foram cinco ou dez minutos. O vento andava a mais de 100 quilómetros por hora”, quantifica.

Ao fim de quase uma hora em que puxou atrás a fita dos acontecimentos daquela noite, Maximiano escolhe o género de tudo o que observou e experienciou: “Na minha cabeça fica um filme, as chamas que eu vi só as tinha visto na televisão quando passam esses filmes de terror.”

 

 

Top