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"Bloomsday". 120 anos do dia mais longo da literatura

16 jun, 2024 - 09:00 • Redação

16 de junho é o "Dia do Bloom", feriado na Irlanda, o único dia no mundo inteiro dedicado a uma personagem de ficção.

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Este domingo, 16 de junho, celebra-se o “Bloomsday”, em português, o "Dia do Bloom", em homenagem a Leopold Bloom, o protagonista de “Ulisses”, a obra que colocou James Joyce e a Irlanda no universo literário.

Publicado pela primeira vez em 1922, na França, por um editor independente, “Ulisses” é um romance sobre a história de um só dia. pasasado em Dublin, na Irlanda.

Em Portugal, existem duas traduções da obra. A mais recente saiu em 2014 e é assinada por Jorge Vaz de Carvalho. À Renascença, o autor que demorou quase três anos a concluir a tradução da obra, explica que teve “de reler ao microscópio verbal dezenas de vezes” e ainda hoje regressa à leitura “pelo puro prazer e por ser um estímulo intelectual e emotivo incomparável".

“Foram quase três anos de convívio diário com essa experiência de beleza, na procura da melhor compreensão e proximidade possível”, acrescenta.

A fidelidade às mudanças de estilo do autor e aos diversos níveis de linguagem - poética, coloquial, dramática, gírias ou calão, técnico e científico - foram para o autor, uma forma de fazer “corresponder o texto português ao leitor modelo que Joyce teria decerto em mente”.

Jorge Vaz de Carvalho leu o livro pela primeira vez quando era aluno de Letras e ficou desde logo “loucamente encantado” tal como Valery Larbaud, escritor responsável pela tradução de “Ulisses” e um dos primeiros entusiastas da obra.

Que livro é este?

“Ulisses” é a história de um dia na vida de Leopold Bloom, o protagonista, que caminha por Dublin desde que sai de casa pela manhã, até ao regresso.

“Bloom deambula por Dublin como Ulisses navegou o Mediterrâneo”, explica Jorge Vaz de Carvalho. O livro é inspirado na personagem Ulisses, de Homero, “para o mal e para o bem, a humanidade é ainda a mesma”.

Viver e sobreviver nos labirintos da cidade requeria a argúcia e a prudência, o tomar as decisões e correr os riscos de uma epopeia: havia que enfrentar no quotidiano Éolos, Sereias, Circes ou Ciclopes modernos”, sublinhou.

A complexidade de um romance que não é para todos

A obra de Joyce é um romance que desafia o leitor. Para Jorge Vaz de Carvalho, não é um texto para qualquer um.

“Não é uma obra para quem molha os pés à babugem, mas para mergulhadores de águas profundas. Quem gosta verdadeiramente de ler, de grande literatura, verá o esforço recompensado pelo prazer de desvendar a mais notável criação romanesca do modernismo. Os outros, os leitores preguiçosos, não se dêem ao trabalho, fiquem tranquilos com as suas historietas para entreter”, enfatiza Vaz de Carvalho.

A publicação da obra foi proibida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Inclusivamente, os editores da “Little Review”, uma revista literária americana, foram levados a tribunal pela publicação de um episódio do livro.

Para Jorge Vaz de Carvalho, essa “epopeia de impedimentos e contrariedades” deveria “fazer-nos ainda hoje meditar sobre as (novas) censuras e atentados à liberdade de expressão camuflados de intenções puras.”

“Há no romance o episódio em que Leopold se masturba numa praia diante de uma jovem, há cenas de bordel, há o monólogo de Molly Bloom depois de consumado o adultério, há palavras obscenas? Sim, são factos comuns da vida real e, em literatura, nenhum elemento lexical de uma língua pode ser expurgado”, desvenda o autor.

Um dia da literatura que se celebra em todo o mundo

O Bloomsday é o único dia no mundo inteiro dedicado a uma personagem de ficção. Mas, o que aconteceu de tão importante nesse dia?

Jorge Vaz de Carvalho explica que foi no dia 16 de junho de 1904 que o autor da obra teve a sua primeira experiência sexual com aquela que viria a ser a sua companheira e mulher vida fora, Nora Barnacle. "Joyce celebrou esse dia escolhendo-o para a viagem de circum-navegação de Harold Bloom pela cidade de Dublin."

Na Irlanda, este dia é feriado nacional, o único no mundo dedicado à Literatura. Para os irlandeses, a epopeia de Joyce “é um dia de celebração do património criativo e literário que passou a ser celebrado como uma obra-prima do modernismo e uma revolução na expressão literária", diz à Renascença a embaixadora da Irlanda em Portugal, Alma Ní Choigligh.

Ao longo desse dia, a comunidade “recria o percurso de Leopold Bloom pela cidade de Dublin, mas agora em todo o mundo também, onde o significado universal do livro é apreciado”.

Em Portugal, foi criada uma peça de teatro que celebra “o comum, o quotidiano e os pensamentos que preenchem continuamente a mente humana". “Blooming” é o nome da peça de Marcos Martins, e está em exibição no Teatro São Luís, até dia 16 deste mês. Os atores são jovens - não profissionais - que vivem em instituições de acolhimento, longe das suas famílias

Para a comunidade Irlandesa e entusiastas de Ulisses, a Embaixada organizou a visualização do documentário “100 Anos de Ulisses”, dia 17 de Junho, às 17h30.

Segundo a embaixadora, o documentário “promete levar os espectadores a uma viagem esclarecedora ao coração de um dos romances mais inspiradores e influentes de sempre”, para Alma o romance continua a ser relevante nos dias de hoje.

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