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"Baby Reindeer". A comédia negra que fala de stalking e abuso e pode terminar em tribunal

17 mai, 2024 - 11:35 • João Malheiro

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Tudo começou com uma chávena de chá à conta da casa. Descarrilou em uma obsessão tóxica de onde resultaram milhares de emails e mensagens de voz não correspondidas.

Tudo começou com um monólogo em palco, um pouco por todo o Reino Unido, em que um comediante escocês desabafou os demónios pessoais que enfrentou e como os estava a tentar superar. Explodiu numa produção para a Netflix, que chegou ao topo das tabelas do streaming e causou uma polémica mediática que pode até acabar em tribunal.

É esta a história, complexa e improvável, da minissérie "Baby Reindeer", escrita e protagonizada por Richard Gadd, que estreou a 11 de abril e, um mês depois, ainda dá muito que falar.

"Uma história verdadeira", contada através de sete episódios de ficção humorística, ácida e emocionalmente brutal, todos escritos pelo comediante escocês que expõe os seus traumas reais à vista de todos.

Mas, afinal, do que fala ao certo "Baby Reindeer"? O quão verídico é a sua narrativa? E que consequências legais é que pode ter, agora que um grupo enorme de fãs anda a vasculhar todos os cantos da Internet para identificar as pessoas que inspiraram a série?


Um simples ato de bondade

Inicialmente, "Baby Reindeer" começou como um monólogo humorístico em palco interpretado por Richard Gadd. Interpretado pela primeira vez em 2019, foi aclamado por audiências e críticos, vencendo vários prémios.

Em 2023, a Netflix veio bater à porta do humorista para saber se havia possibilidade de transformar o espetáculo teatral em série de ficção, com mais personagens e tempo para contar a história.

Assim surgiu a minissérie em que Richard Gadd muda de nome para Donny Dunn, um comediante que não tem muito sucesso e trabalha num pub para pagar as contas. Um dia, Martha Scott (nome fictício, assim como todos os outros) entra no estabelecimento, visivelmente cabisbaixa, e Donny decide oferecer-lhe uma chávena de chá, sem qualquer custo.

O protagonista não sabe no momento, mas esse pequeno ato de bondade acabará por provocar uma espiral de acontecimentos que o levará a confrontar as partes mais sombrias do seu passado. Martha começa a fazer "stalking" a Donny, ficando obcecada com ele, seguindo-o para todo o lado e aparecendo em alturas inconvenientes.

Mesmo assim, o protagonista, sem grande sucesso, quer em termos pessoais, quer em termos profissionais, não tenta colocar um travão definitivo na situação, o que leva a que tudo fique pior.

Ao mesmo tempo, Donny Dunn começa uma relação com Teri, uma terapeuta que conheceu num site de encontros online. À medida que o vai conhecendo melhor, Teri tenta ajudar Donny e ajuda-o a confrontar as partes negativas da sua personalidade.

"Baby Reindeer" faz, ainda, um regresso ao passado de Donny, no início da sua carreira, e à primeira vez em que foi vítima de assédio, na altura por parte de um homem poderoso dentro da indústria.

"Stalking": um fenómeno que se alastra

Em três anos, foram 41 mil emails e 350 horas de mensagens de voz. São as estatísticas do assédio de que Richard Gadd foi alvo, por uma "stalker" e que retrata em "Baby Reindeer".

É uma palavra sem tradução direta para o português que reflita a definição tradicional de "uma pessoa que ilegalmente segue e observa uma vítima obsessivamente, durante um período de tempo", segundo o dicionário de Cambridge.

O termo começou a surgir na linguagem popular a partir dos anos 90. Nessa altura, ainda não se imaginava que este tipo de assédio pudesse alastrar-se e intensificar-se com a criação das redes sociais e outras tecnologias que, se por um lado nos permitem estar mais próximos de amigos e famílias, também facilitam o contacto entre estranhos.

Em Portugal, o ato de perseguição e assédio persistente é crime desde 2015. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), em 2023 houve mais de 200 pedidos de ajuda e a entidade acredita que há um grande número de vítimas que permanece em silêncio.

As vítimas mais recorrentes de stalking são mulheres. Tal como outro tipo de crimes que possam conter motivos passionais, muitas das vítimas conhecem o seu stalker, antes do assédio começar. Pode ser um amigo ou até um ex-parceiro. Há, igualmente, episódios recorrentes de stalking a celebridades, por fãs obsessivos.

"Baby Reindeer" coloca em foco um aspeto, por vezes, desvalorizado: a vítima masculina de assédio. Quer por ser menos estatisticamente mais improvável, quer devido a estereótipos, homens vítimas deste tipo de crimes costumam ter dificuldades em ser levados a sério e muitos não fazem uma denuncia, por vergonha e medo.

Na minissérie, Donny Dunn vê as suas denuncias serem, inicialmente, descartadas pela polícia e a narrativa faz um ponto de abordar e criticar os padrões de masculinidade tóxica que formam uma prisão mental a homens vítimas de atos que possam ser visto como uma fragilização da sua postura na sociedade enquanto homem.

A natureza cíclica do abuso

A expressão "pessoas magoadas magoam pessoas" é um termo popular para resumir a ideia de que certas vítimas de abuso podem acabar por, mais tarde, tornarem-se agressores e vitimar outras pessoas.

Richard Gadd explicou, em entrevistas a promover a série, que o objetivo nunca foi retratar a sua stalker como uma vilã exagerada, digna de uma banda desenhada, mas sim uma pessoa complexa, com distúrbios, que teve uma vida complicada e que ficou sem proteção do Estado e da sociedade.

O próprio protagonista é responsável por incentivar o stalking de que é alvo, quer direta ou indiretamente, devido aos seus próprios traumas e inseguranças.

"Baby Reindeer" não quer justificar ou defender o assédio de Martha, contudo pretende deixar claro que as pessoas que cometem este tipo de atos podem precisar de ajuda e tratamento e não podem ser tratadas como meros antagonistas malignos.

Há, ainda, uma parte significativa da narrativa que fala de abuso sexual e do seu impacto permanente nas vítimas. Donny Dunn não consegue aceitar a sua própria sexualidade - uma reflexão pessoal de Richard Gadd que é um homem assumidamente bissexual - o que o leva a começar uma relação com Teri, uma mulher transgénero, sob pretextos falsos. A parceira do protagonista é, de resto, alvo de transfobia e de xenofobia por parte da stalker de Donny.


As consequências reais da ficção

É sempre irónico quando fãs de uma obra de arte que alerta e critica certos comportamentos acabam por os repetir. No entanto, é o que está a acontecer neste momento com "Baby Reindeer".

Apesar da minissérie denunciar assédio, incluindo através dos meios digitais, muitas pessoas têm vasculhado a Internet à procura da verdadeira stalker de Richard Gadd e do homem que terá abusado do humorista.

O realizador britânico Sean Foley foi identificado por muitos cibernautas como um suspeito credível, o que levou a que o artista a avançar com uma queixa de difamação.

No final de abril, Richard Gadd negou que Sean Foley seja o seu abusador e pediu para que as pessoas não especulassem sobre a vida de pessoas reais. "Não é esse o propósito da série", referiu.

Mesmo assim, os fãs insistiram. Eventualmente, muitas pessoas identificaram a advogada Fiona Harvey, já acusada de assédio anteriormente por um casal, como a provável stalker de Gadd.

Após muita especulação, Fiona Harvey decidiu dar entrevistas a vários orgãos de comunicação social. A mais marcante foi na televisão, a Piers Morgan, em que, ao longo de quase uma hora, refere que nunca viu a série, desmente vários acontecimentos da série e diz que vai avançar com um processo em tribunal contra a Netflix.

Os internautas não ficaram convencidos, apontando incongruências às declarações de Fiona Harvey e comparando a sua linguagem e postura agressivas na entrevista com a da personagem em "Baby Reindeer". Mais tarde, a própria admitiu sentir-se "usada" por Piers Morgan, depois de ter sido convencida a participar no programa em troco de 250 libras (291,78 euros).

Segundo a BBC, a série pode estar legalmente exposta, porque, ao contrário de usar os habituais esclarecimentos de que a ficção "é baseada numa história verídica", "Baby Reindeer" começa com uma mensagem que diz apenas: "Isto é uma história verdadeira".

Desta forma, um caso de difamação pode ter mais credibilidade, se ficar provado que um espectador que veja a série possa estabelecer ligações diretas entre a personagem Martha e Fiona Harvey, mesmo que Richard Gadd tenha dito por várias vezes que exagerou e inventou certos aspetos da narrativa, para efeitos dramáticos.

O Reino Unido, em particular, tem regras muito rigorosas no que toca a retratar pessoas reais, através de personagens fictícias, muitas vezes exigindo que as produtoras contactem e avisem as mesmas da forma como serão apresentadas no resultado final. E, apesar das produções Netflix terem, até agora, estado fora desse debate, esta caso pode mudar o paradigma.

Por sua vez, numa entrevista recente ao "The Hollywood Reporter", Richard Gadd voltou a apelar aos fãs para não tentarem desvendar a identidade das personagens de "Baby Reindeer": "Se quisesse que as pessoas reais fossem encontradas, teria feito um documentário", apontou.

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