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Autor de Pátria: “Achei que Lisboa merecia constar” do novo livro

17 jun, 2022 - 14:50 • Maria João Costa

“O Regresso dos Andorinhões” é o novo romance do basco Fernando Aramburu. Depois do sucesso de “Pátria”, sobre a ETA, que vendeu mais de um milhão e meio de cópias, o autor regressa à escrita com um romance que tem como protagonista um homem decidido a morrer.

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Depois do sucesso de “Pátria”, o livro sobre a ETA que vendeu mais de um milhão e meio de exemplares em todo o mundo, o escritor basco Fernando Aramburu volta ao romance. “O Regresso dos Andorinhões” (ed. D. Quixote) já está nas livrarias portuguesas e conta ao leitor a história de Toni – um professor de Filosofia zangado com o mundo, que toma uma decisão drástica na vida.

Em entrevista ao Ensaio Geral da Renascença, o escritor conta como o livro é também um espelho da sociedade espanhola e como percorre a História do país, desde o franquismo. O livro, escrito quase todo durante a pandemia, tem um episódio passado em Lisboa, a cidade da qual Aramburu guarda uma memória feliz e por isso quis, numa espécie de homenagem à capital portuguesa, incluí-la no romance.

Nascido em San Sebastian, no País Basco, Fernando Aramburu vive na Alemanha, onde é docente universitário. Questionado sobre a proximidade da guerra na Ucrânia, o autor reprova a atitude de Putin. “Um governante, pelo facto de dispor de armas, invada outro país, com o desejo expresso de se apropriar de território”, diz o autor, é reprovável e acrescenta: “pensava que estas coisas pertenciam a um passado que não se ia repetir”.

"O Regresso dos Andorinhões" é a história de um homem que tem uma decisão. E que em poucos meses passa em revista a sua vida. O que o levou a escrever esta história de um homem desencantado e farto do mundo?

A circunstância de ele estar farto do mundo pareceu-me que era exigida pela sua decisão de se suicidar dentro de um ano. Contudo, eu fui estimulado para começar a escrita do livro por outras questões. Primeiro, responder à pergunta como viveríamos se soubéssemos antecipadamente o dia e a hora da nossa morte? Como é que isso afetaria a nossa vida, como iriamos gerir o tempo, as nossas ocupações, o trabalho? Por outro lado, quis oferecer aos leitores a possibilidade de verem e observarem por dentro até ao detalhe a intimidade de um ser humano do nosso tempo.

O narrador, Toni, diz: “toda a minha vida detestei os finais abertos. Custa-me não revirar os olhos quando oiço que compete aos leitores ou espetadores inventarem, intuírem ou completarem o final”. Mas neste caso decidiu dar a conhecer o final ao leitor logo nas primeiras páginas

Sim, há um jogo deliberado. O protagonista anuncia na primeira página que se vai suicidar, e só há dois finais possíveis. Ou leva a cabo a sua decisão, ou não a leva. Não vou contar o final. Mas devo dizer que não era o final que eu tinha previsto, quando comecei a escrever. Mudei-o durante a escrita.

De qualquer forma, gosto de jogar com a expetativa dos leitores, fazê-los acreditar que os acontecimentos vão por um lado e depois vão por outro, fazê-los acreditar que a história vai ter um rumo e depois levo-os por outro. Isso faz parte do jogo literário do qual sou muito adepto.

Vemos neste livro também um retrato das famílias espanholas, das suas diferenças e tradições políticas, a nova política. Quis também trazer esse retrato? A Espanha precisa de se ver ao espelho?

Acho que a todas as sociedades lhes faz bem, verem-se ao espelho! De facto, a literatura coloca-as perante um espelho. Mas outra questão é a imagem que o espelho reproduz, se é ou não agradável, isso já o dizia o romancista francês Stendal, no século XIX.

Eu não defendo que se deve generalizar e considerar que a família do protagonista seja um modelo, ou a que predominava no seu tempo. A verdade é que percorre toda a vida, que vem desde o franquismo, passando pela transição para a democracia, e, isso, dá lugar a um retrato social no qual muitos cidadãos se reconhecerão mais ou menos.

A relação complicada que Toni teve com o seu pai reflete-se na relação que ele tem com o seu próprio filho. Também acaba por abordar a questão da educação no livro.

É a convicção que tenho, segundo a qual somos o resultado não só das nossas próprias decisões, como também o tipo de vivência que tivemos desde a infância. A infância e a educação marcam muito, bem como a vivência familiar.

Por sorte, eu tive um pai muito bondoso e com sentido de humor. Mas percebi que a ficção neste romance me permitiria explorar outras possibilidades, outra vidas. Eu não gostaria de ter tido um pai como o de Toni. Mas é razoável pensar que ele e o seu irmão são, em grande parte, o resultado daquela educação daquele pai e do ambiente em que cresceram.

Ao longo da vida que conta, Toni parece que é apenas fiel ao seu cão, Pepa, e ao amigo Patachula. Ele falhou nas relações humanas?

Desde jovem que ele tentou o afeto e procurou o amor. Em algum momento, até o conheceu, mas não com grandes resultados, por isso quando entramos no romance encontramos um homem desenganado que considera que todo o seu esforço para conseguir uma relação harmoniosa com os seus semelhantes, foi uma fraude, talvez não tenha merecido a pena.

Ele consola-se com seres não humanos, com uma cadela e uma boneca de companhia, ou com os próprios pássaros que ele contempla como com um desejo de participar de forma imaginária na sua vida. Também se verifica ao longo do livro que ele não conseguiu relações sentimentais harmoniosas, em grande parte por culpa sua.

A cidade de Lisboa também faz parte desta história, de um momento feliz da vida do protagonista.

Eu estive em Lisboa quando publiquei o ‘Pátria’. Acho que foi há quatro ou cinco anos, ainda antes da pandemia. Vim a Lisboa pela primeira vez e levei uma recordação muito grata da cidade e das suas gentes. Então, como agradecimento, achei que Lisboa merecia constar de algum episódio. É essa simplesmente, a razão.

É um episódio recordado, não é narrado no presente. É um episódio que marca um momento de satisfação e felicidade do protagonista que ele vai tentar repetir, mas que não se vai repetir nunca mais. E efetivamente a editora teve o gesto de me alojar no mesmo hotel de que falo no meu romance!

No caminho do que parece ser uma despedida da vida, Toni vai se desfazendo dos seus livros, vai abandonando-os na rua. Que simbolismo tem, até porque os livros são importantes para ele.

Devo confessar que tenho muito poucas semelhanças com o protagonista, mas tenho algumas e, uma delas, é o fervor pelos livros. Eu não seria capaz de me desprender dos meus livros, mas ele faz isso. Vai deixando-os paulatinamente pela cidade. A mim parece-me, com este gesto, que ele não sucumbe ao niilismo inicial.

Ele poderia ter deitado fora todos os seus livros, levado pelo desejo de livrar-se das amarras materiais, que no fim, quando pensa em suicidar-se, poderiam ser um obstáculo, ou uma desculpa para não poder pôr em prática a sua decisão. Mas ele vai deixando os livros pelas ruas de Madrid, com a esperança de que outras pessoas os possam encontrar e disfrutar deles, lendo-os.

Foi fácil escrever depois de "Pátria"?

É verdade que levei o livro "Pátria" por muitos países, fiz muitas viagens, muitas intervenções públicas, mas quando me sento a escrever, tudo o que fiz antes não está presente de forma alguma, não me coloca qualquer problema.

Senti-me completamente livre quando escrevi este romance. Escrevi-o parcialmente durante a época de pandemia que me dispensou das viagens e a escrita foi muito intensa, foi de segunda-feira a domingo, e não senti que sobre mim flutuasse a sombra de Pátria ou qualquer outro livro anterior.

Vive na Alemanha, onde dá aulas. Como está a assistir a esta guerra na Ucrânia?

A Ucrânia está muito próxima e só a palavra guerra desperta recordações muito dolorosas e muito negativas no centro da Europa. Vemos chegar pessoas da Ucrânia que fogem da barbárie. Parece-me um acontecimento completamente lamentável e reprovável que um governante, pelo facto de dispor de armas, invada outro país, com o desejo expresso de se apropriar de território. Eu pensava que estas coisas pertenciam a um passado que não se ia repetir, mas vejo que sim, e é muito entristecedor.

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