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“Racismo do bem”, um livro sobre Marcelino da Mata sem “caixotes ideológicos”

04 abr, 2022 - 17:25 • Tomás Anjinho Chagas

“O Fenómeno Marcelino da Mata” é o título do livro publicado este ano por Nuno Gonçalo Poças. Depois da morte do militar português mais condecorado de sempre, o objetivo é fazer uma leitura “desapaixonada” da história.

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Descolonização, movimentos independentistas, racismo, 25 de abril, processo revolucionário. “O Fenómeno Marcelino da Mata” fala de todos estes temas que são indissociáveis da história de Marcelino da Mata.

O militar que nasceu na Guiné-Bissau foi sempre português e toda a vida reafirmou isso. Durante o Estado Novo, destacou-se pelas capacidades militares. Quando começou a Guerra Colonial, combateu pelo lado português contra as forças independentistas. Foi condecorado pelas mãos de Salazar e estabeleceu-se em Portugal depois da independência da Guiné.

Envolto em polémica, assumiu ter morto centenas de guineenses e ter cometido atrocidades durante a guerra. Depois do 25 de abril, foi torturado por forças ligadas ao MRPP.

No ano passado, morreu de Covid-19 e a sociedade portuguesa dividiu-se num debate aceso sobre a forma de olhar para Marcelino da Mata.

Nuno Gonçalo Poças é advogado, colunista e escritor. Enquanto autor, tem-se dedicado a temas quentes da História de Portugal. Publicou um livro sobre as FP-25, e este ano acaba de publicar “O Fenómeno Marcelino da Mata”. Em entrevista à Renascença, o autor revela que quer ler a história de forma “desapaixonada” e sem “caixotes ideológicos”.

A intenção deste livro é tentar romper com esta discussão que se tem feito em torno de Marcelino da Matta, sobre se ele era um herói ou um vilão e procurar ir mais a fundo?

Eu acho que a intenção do livro, mais do que tentar furar a discussão, é tentar que ela seja feita mas noutros moldes.

Isto é, que passe um bocadinho para lá da barreira da discussão um pouco infantilizada que ocorreu no ano passado [depois de o militar ter morrido em 2021, vítima de Covid-19] relativamente ao Marcelino da Mata ser considerado um herói ou um vilão.

Quer colocar-nos a discutir algumas questões que estão relacionadas com ele e com o seu percurso de vida, mas que acabaram por ficar um bocadinho fora da antena, como a descolonização, o processo revolucionário, a guerra, a forma como nós tratámos os soldados africanos que tinham combatido por Portugal.

Eu tenho dito isto várias vezes: eu não escrevi uma biografia sobre Marcelino da Mata. Este livro é, no fundo, um ensaio que pretende lançar as bases para uma discussão sobre os nossos últimos 50 anos de história.

Eu acho que, a dois anos do cinquentenário do 25 de abril, parece-me importante que isso pudesse ser feito.

Acredita que a discussão deste, e de outros temas na sociedade portuguesa são pautados por uma espécie de tabu? E que quem os discute assume posições radicais?

Sim, parte deles são tabu, parte deles são um enigma completo. São normalmente viciados por posições pré-concebidas relativamente áquilo que aconteceu.

A nossa história de consolidação democrática, apesar de tudo, é uma história de sucesso, mas foi feita de muitos silêncios e de muitas dores de alguns setores da sociedade.

É normal que isso aconteça, mas eu gostava que, nesta fase do campeonato, nós conseguíssemos fazer aqui uma espécie de balanço daquilo que foram os últimos 50 anos.

Gostava que fosse feita uma redenção à direita e à esquerda relativamente alguns factos políticos, posições políticas e atos praticados. Conseguirmos ganhar algum balanço para a frente.

Escreve, a dada altura, que este tipo de debates e algumas causas, esta é uma delas, a questão racial, está paulatinamente dominada por uma retórica marxista, revolucionária, anticapitalista e antiburguesa...

Sim, porque eu acho que há uma série de causas justas nas sociedades modernas, como o combate ao racismo, o feminismo, os direitos das minorias, a igualdade de género, os direitos das mulheres, os direitos dos homossexuais.

São um bocado usadas como arma de arremesso, e eu acho que nós temos caído nesse erro. A esquerda porque o tem feito, e a direita porque tem respondido com sete pedras na mão, como se aquelas causas não fossem justas.

Gostava que fosse feita uma redenção à direita e à esquerda relativamente alguns factos políticos, posições políticas e atos praticados.

No meio disto, há pessoas reais que precisavam de ver as suas vidas resolvidas, ver os seus direitos reconhecidos, etc.

A questão do racismo é também isto, nós hoje em dia enquadramos as coisas todas em caixotes. A história do Marcelino da Mata contraria tudo isso.

Se nós analisarmos tudo isto: a narrativa, a política, a ideologia do PAIGC, a forma como alguma historiografia portuguesa olha para os negros que combateram por Portugal como traidores à sua causa. É no fundo uma visão racial, é quase um racismo ao contrário, um “racismo do bem”

Considera-se que os negros, só porque eram negros, deveriam ter combatido pela independência [das ex colónias], sem equacionar que eles podiam sentir-se portugueses, como os brancos de cá.

Isto não nos permite encaixar em caixotes simplistas. Isto não entra nas narrativas.

Diz que a história do Marcelino da Mata não cabe em “caixotes ideológicos”. Considera que há uma esquerda que vê nele um traidor e uma direita que vê nele um herói de guerra...

Ele pode ser tudo e mais alguma coisa, depende sempre da forma como queremos olhar para aquilo.

Acho que há uma série de causas justas nas sociedades modernas, como o combate ao racismo, o feminismo, os direitos das minorias, a igualdade de género, os direitos das mulheres, os direitos dos homossexuais. São um bocado usadas como arma de arremesso, e eu acho que nós temos caído nesse erro...

Eu acho que há coisas que são incontestáveis: que Marcelino da Mata era um grande combatente; que cometeu aterocidades em guerra, isso também é inegável; que era legitimamente português e que se sentiu assim até ao fim; que foi usado pela ditadura como símbolo e, ao mesmo tempo, foi desprezado em democracia por contrariar a ideia simplista que as coisas deviam estar arrumadas de uma determinada maneira.

Ele, de facto, contrariava tudo isso.

Em termos de notoriedade e prestígo, o Marcelino da Mata ficou numa espécie de hiato, esquecido entre o Portugal antigo e a Guiné independente. Considera que, se Marcelino da Mata fosse branco, a forma como a sociedade portuguesa tinha olhado para ele tinha sido diferente?

Era diferente em função das posições que Marcelino da Mata tivesse tomado. Houve soldados brancos que também cometeram aterocidades na Guiné, mas como se enquadraram rapidamente na narrativa do espírito revolucionário, isso acabou por não ser um tema.

O facto de ele ser negro não o ajudou.

Houve muitos combatentes [nas ex-colónias] que acabaram por assumir posições oficiais depois do 25 de abril, algo que não aconteceu com Marcelino da Mata...

Quase todos! O 25 de abril foi feito por ex-combatentes, aquela gente tinha estado na guerra.

O Marcelino da Mata acabou por ser utilizado como o facínora de serviço. As pessoas sabem o que é uma guerra. Isso até está na ordem do dia.

É um bocadinho absurdo querermos usar uma pessoa para carregar o peso das dores da guerra às costas, não foi isso que aconteceu.

Digo isto sem preconceito nenhum. As pessoas que lá estiveram cumpriram o seu papel, fizeram o que lhes mandaram fazer. E ao mesmo tempo acabaram com a guerra e depuseram a ditadura.

Marcelino da Mata era um grande combatente; que cometeu aterocidades em guerra, isso também é inegável; que era legitimamente português e que se sentiu assim até ao fim; que foi usado pela ditadura como símbolo e, ao mesmo tempo, foi desprezado em democracia por contrariar a ideia simplista que as coisas deviam estar arrumadas de uma determinada maneira.

Mas mais uma vez, isto não cabe numa apreciação simplista da história.

Isso foi mais ou menos compreendido em função da cor da pele de quem combateu?

Eu acho que sim, acho que sim.

Considera que este é um livro que abre feridas sobre o passado colonial em Portugal ou pretende fechá-las?

Não acredito que abra feridas, porque elas existem. Também não tenho a presunção de achar que as pode fechar.

Acho que pode contribuir para olharmos para isto com outros olhos. Para a minha geração sobretudo, porque apesar de tudo, a história da guerra colonial foi escrita por quem lá esteve.

Acho que agora podemos dar um passo em frente e olharmos para isto com a perspetiva de quem não esteve.

Uma leitura desapaixonada?

Sim, exatamente.

É um livro que surge praticamente ano depois do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no 25 de abril do ano passado, em que pediu precaução ao tirar lições sobre o nosso passado colonial. Este livro quer também contribuir para essa desconstrução?

Não pensei no discurso do Presidente enquanto estava a escrever e até hoje não me tinha lembrado dessa associação.

O Marcelino da Mata acabou por ser utilizado como o facínora de serviço. As pessoas sabem o que é uma guerra. Isso até está na ordem do dia.

Eu ouvi o discurso na altura, achei importante. Mas sim, acho que corresponde ao que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa disse há um ano no 25 de abril.

Primeiro escreveu sobre as FP 25 e agora sobre o Marcelino da Mata. O que se segue? Há mais algum tema quente da história portuguesa sobre o qual tenha intenções de escrever?

(Ri-se) Temas quentes há muitos! Eu tenho um projeto que vou iniciar em breve. Julgo que não será um tema tão quente quanto estes, mas é um tema que interessa ao país.

E que não quer revelar?

(Ri-se) Não, não, não. Ainda não, ainda não.

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