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​Aos 25 anos, Teresinha Landeiro quer "defender e mostrar o Fado tradicional”

14 jan, 2022 - 16:54 • Maria João Costa

Canta desde os 12 anos, lançou um segundo disco de Fado e atua este sábado no Teatro Virgínia, em Torres Novas. Teresinha Landeiro é uma das novas promessas do Fado. Cresceu na casa de fados e conquista agora os palcos.

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Diz que mesmo quando está só a ensaiar, não consegue não cantar com intensidade. Teresinha Landeiro tem 25 anos. Apaixonou-se pelo Fado quando tinha 12 anos. De lá para cá, fez o seu caminho nas casas de Fado e tem já dois discos editados. “Agora” é o mais recente álbum que vai levar ao palco do Teatro Virgínia, este sábado.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral, da Renascença, a artista, que gosta de escrever as suas próprias letras, assume-se como uma “fadista que representa a tradição”. Cresceu a ouvir João Braga, Beatriz da Conceição ou Celeste Rodrigues, tem em Ana Moura, Carminho, Camané ou Hélder Moutinho as suas referências. Teresinha Landeiro, considera que o Fado “é sobre viver e sentir” e que as letras que escreve e canta, acompanhada pelos seus músicos a quem chama “banda”, são mais uma das formas de se expressar.

Como será o concerto em Torres Novas?

Este concerto vai ser muito na base do que tenho andado a fazer ao longo deste final de 2021 que é a apresentação do meu novo álbum, “Agora”. Claro que há também uma pequena viagem pelo meu primeiro álbum, “Namoro”, mas o centro e aquilo que quero mostrar às pessoas é o meu novo trabalho que é aquele com que me identifico nos dias que correm. Esta sim, sou muito mais eu. Olho para este trabalho e é o meu espelho. Será por isso que o vou apresentar com mais força no concerto.

“Agora” é um disco mais seu? Mostra o caminho que quer trilhar no Fado?

Acaba por ser. Tem aqui a minha grande paixão pela escrita, cada vez mais presente. Eu olho para este disco, embora tenha uma coisa ou outra que realmente foge um bocadinho do Fado tradicional, mas olho para este disco e sinto que é um disco de Fado. Acabo por ser uma fadista que representa um bocadinho a tradição e a linguagem mais tradicional do Fado que é aquilo que me apaixona e é aquilo por que me apaixonei há quantos anos? Não sei, tinha eu 12 anos! Há 13 anos já! É isso que eu quero defender e mostrar, o Fado tradicional, para que as pessoas possam conhecer o Fado tão bem como eu conheço e que se possam apaixonar por ele, como eu me apaixonei!

A Teresinha Landeiro começou pelas casas de Fado. Qual é a diferença de um concerto num palco, como o do Teatro Virgínia e um espetáculo da casa de Fados, como a Mesa de Frades onde canta?

É muito diferente. A nossa entrega é sempre a mesma. Eu, por exemplo, às vezes estou num ensaio e dizem-me: "Não é preciso cantares com tanta intensidade!". Não dá! Estamos a falar de fados e de sentimentos. De repente quando começamos a cantar as coisas são sempre levadas muito a sério. Cantemos nós para 10, 20, 200 ou 500 pessoas, a entrega é sempre a mesma e a dedicação será sempre a mesma. Agora, se calhar a forma como as pessoas recebem a informação é diferente. Num concerto, temos as luzes, o palco que acho que também são fascinantes e conseguem levar a pessoa a viajar numa história mais visível. Mas depois nas casas de Fado têm-se a proximidade. O que uma coisa tem de bom, a outra perde, mas depois a outra tem muitas outras caraterísticas. Vão-se completando. Acho que é muito interessante ver o artista nas duas perspetivas para se conseguir perceber o fadista num todo.

Ao escrever as suas próprias letras, sente que as canta com maior verdade, são mais sentidos os fados? O Fado acontece melhor?

Não sei se são mais sentidas. Tenho aqui outras letras que não são minhas e quero acreditar que as canto com tanta verdade e intensidade, quando canto as minhas. Mas, claro que é mais fácil para mim falar das minhas histórias e das minhas coisas, porque sei exatamente como as vivi e as sinto, e porque é que as escrevi. A viagem acaba por ser por vezes mais intensa. Mas a verdade é que também quando escolho outra música de reportório, escrita por outra pessoa, também a escolho porque ela me faz viajar. As letras, acredito que é mais uma forma de me expressar, não só através do canto, mas também da escrita. Claro que isso faz com que fique mais intenso e mais meu. Mas quero acreditar que também consigo fazer com que as outras músicas sejam minhas de alguma maneira.

Como é que tem estado a viver estes quase dois anos de pandemia na sua jovem carreira?

O primeiro confinamento foi o que eu usei para gravar o disco. Depois, quando as coisas melhoraram, em 2021, saiu o “Agora” e foi uma lufada de ar fresco. Tem de se tentar encarar as coisas com alguma esperança, embora o caminho esteja um bocadinho negro. Temos de continuar o nosso trabalho, a compor, a acreditar naquilo que fazemos e a acreditar que as pessoas precisam da nossa arte para se encontrarem, sentirem-se tranquilas e às vezes encontrarem um refúgio. É isto em que acredito e que me faz continuar, ter vontade de continuar a escrever.

Sente que o Fado tradicional será sempre o seu caminho?

Eu digo sempre "desta água não beberei". Não quer dizer que não vou sair do Fado tradicional. Não sei qual vai ser o meu caminho. Mas que este é um caminho em que eu acredito muito e que me faz muito feliz, é sem dúvida. Na verdade, é de onde eu venho, porque antes deste disco houve uma aprendizagem de muitos anos, nas casas de Fado, com muitos fadistas com muita história. Portanto, este é sem dúvida, o meu canto e o meu caminho. Não quer dizer que eu não vá fazer outras coisas ou que não gosto de cantar outras coisas. Surgem neste álbum alguns estilos musicais diferentes, mas sem dúvida que esta é a minha essência e o caminho que me faz mais feliz.

Quem são as suas referências no Fado, os fadistas que a marcam?

Tenho várias. É difícil dizer nomes, mas a Amália Rodrigues será sempre uma inspiração, não só pelo canto, mas também pela escrita e pela artista que era. Na nova geração há muitas vozes que admiro. Cresci a ouvir ao vivo o João Braga, a Dona Beatriz da Conceição, a Celeste Rodrigues, depois também a Carmino, o Camané, o Pedro Moutinho, o Hélder [Moutinho], a Raquel Tavares, a Ana Moura. Foram pessoas que fui conhecendo ao longo do meu caminho e todos eles contam como inspiração.

Tem 25 anos, sente que há uma idade para se ser fadista?

Não. Normalmente as pessoas não gostavam de ouvir crianças a cantar, exatamente pelo problema de não existirem letras para aquelas idades. Era preciso haver uma grande procura e pesquisa. Foi por isso que também comecei a escrever as minhas coisas. Eu não acredito que haja uma idade. Acho que toda a gente sente e vive, e o Fado é sobre viver e sentir coisas! Não tem problema nenhum começarmos cedo, porque só faz com que o nosso caminho seja mais longo e a nossa aprendizagem comece mais cedo. Só tem vantagens! Claro que com idade vem a maturidade e a voz ganha corpo.

Qual a importância dos músicos com que toca, o Pedro Castro na guitarra portuguesa, o André Ramos na viola e o Francisco Gaspar no baixo?

A minha banda! Embora no cartaz esteja só o meu nome, nós somos uma banda e eu trabalho com eles desde que percebi que as coisas poderiam tornar-se um bocadinho mais sérias. Lembro-me de chegar ao pé do Pedro Castro e do André Ramos e perguntar-lhes "se algum dia acontecer alguma coisa mais séria e eu precisar de ter um concerto e levar os meus músicos, vocês poderiam vir comigo?". Eles disseram: "claro que sim!". Eu era muito novinha na altura! E ficaram para sempre. O Pedro, o André e o Francisco fazem parte desta banda desde que decidi que iria assumir as coisas de forma mais séria. Vejo-os como uma família, uma equipa. Não vivo sem eles! É uma simbiose.

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