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“O Casarão”. A história de um seminário, farol de liberdade em pleno salazarismo

18 nov, 2021 - 07:46 • Maria João Costa

Estreia dia 18, o filme do realizador Filipe Araújo que recorda as memórias do seminário dominicano de Aldeia Nova, em Ourém, um espaço hoje vazio, mas onde durante a ditadura, dentro de muros se respirou “liberdade” e “cosmopolitismo”.

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Por vezes, a vida intromete-se no percurso profissional de um realizador. Foi o que aconteceu a Filipe Araújo. Em 2008, a morte do seu pai, um reputado docente da Universidade Católica Portuguesa, acabou por o levar a realizar o seu mais recente filme, “O Casarão”, que estreia dia 18.

O realizador conta ao programa "Ensaio Geral", da Renascença, que “o processo do filme foi todo muito orgânico” e confessa: "Jámais imaginara fazer um filme sobre um seminário”. Araújo tinha, inclusivamente, em mãos outro projeto, mas, como admite, "a vida intrometeu-se”.

“O meu pai faleceu em 2008 e tinha-me sido pedido que fizesse um inventário da sua bibliografia. Depois de ter agrupado tudo o que era oficial, fui à procura e decidi ver pela internet se não haveria alguma coisa que me estivesse a escapar”. Foi então que descobriu um blogue de antigos seminaristas, do seminário dominicano de Aldeia Nova, no concelho de Ourém, onde o seu pai tinha estudado.

“Foi para mim muito interessante perceber que os colegas de seminário do meu pai eram praticamente todos avós, ou seja, tinham seguido pela vida civil. A partir daí, com curiosidade, fui seguindo os 'posts' que iam aparecendo e foi a partir do blogue que soube que a casa [seminário], por falta de meios e de uso, ia ser posta à venda pelos dominicanos”.

Hoje, o antigo seminário é um velho casarão a apodrecer no coração da aldeia. E, atraído pelas histórias que o pai lhe contava quando era criança, Filipe Araújo procurou resgatar essas memórias. O realizador fala mesmo numa “necessidade de ir conhecer aquele espaço” que tantas memórias lhe trazia das histórias que o seu pai lhe contava na infância.

Araújo conta: “Foi esta necessidade, antes do edifício desaparecer ou deixar de ter acesso a ele, ou mesmo ser descaracterizado”. Mas ao pa,rtir para o terreno, o realizador foi percebendo que o seminário por onde passaram, além do seu pai, nomes como o dominicano Frei Bento Domingues ou o escritor João de Melo, tinha ainda um guardião.

A história do filme é contada através de António, vizinho da frente do seminário, que, desde a saída dos padres dominicanos, se tornou no fiel guardador das suas memórias. “À medida que fui indo a Aldeia Nova e que tive contato com o caseiro, a realidade do tempo presente também me foi entrando pelos olhos. Apercebi-me que o que queria fazer e que fazia sentido não era apenas uma história sobre o passado, mas sim um diálogo entre o presente e o passado”, explica Filipe Araújo.


Nas palavras do realizador, o que o fascinou foi “a particularidade deste seminário que, de facto, proporcionou, apesar do seu aspeto austero”, um ambiente de “liberdade” dentro dos muros que Araújo descreve como sendo semelhantes aos de uma “prisão ou reformatório”.

“Dentro de muros descobriram a liberdade. O ambiente cá fora, em pleno Estado Novo, o cinzentismo não lhes permitiria ter tido acesso aquilo que tiveram dentro de muros. Sobretudo nos anos 60, respirava-se algum cosmopolitismo, havia professores de todo o mundo, ali chegava o cinema e ali havia uma forma muito desempoeirada de estar”, nota Filipe Araújo.

Com produção da Blablabla Media, “O Casarão” conta com música original de Ana Araújo, irmã do realizador e filha de Horácio Araújo. Com coprodução da RTP, o documentário, teve apoio de produção do Instituto do Cinema e Audiovisual e do Fundo Cultural da AGECOP e da Sociedade Portuguesa de Autores.

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