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Mia Couto recuperado da Covid admite que ideia de morte “estava bem presente”

12 nov, 2021 - 07:40 • Maria João Costa

O mais recente livro do escritor moçambicano Mia Couto é marcado pela pandemia e pelo vírus que também o infetou a ele. "O Caçador de Elefantes Invisíveis" reúne uma série de contos. Em entrevista à Renascença, o autor fala do drama dos deslocados de Cabo Delgado.

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Nasceram como crónicas, mas transformaram-se em contos. Os textos do novo livro do escritor moçambicano Mia Couto reúnem histórias escritas no último ano e meio marcado pela pandemia. “O Caçador de Elefantes Invisíveis” (ed.Caminho) junta as crónicas que o autor escreveu para a revista Visão, mas rescritas agora em forma de conto.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral, o autor recorda que também ele esteve infetado com Covid-19 em janeiro deste ano. Tal como Bernardo, um escritor personagem de um dos contos do livro, Mia Couto afirma: “Eu senti solidão. Parece-me que a minha própria casa se comprimiu. Eu não tinha uma casa, tinha um quarto. Foi algo que me suscitou um grande medo.” Durante esse período, não conseguiu escrever. Apenas “tomava notas e lia muito”.

Mia Couto revela que temeu pela vida, depois de perder “amigos e colegas” para o vírus. Apesar de admitir ser um “otimista”, confessa que “perante o peso daquela realidade pensava sempre que não estava ainda atingido com febre e com sintomas graves, mas que seria no dia seguinte”. O autor diz que esperou sempre “que acontecesse o pior”. “A ideia de que eu pudesse morrer estava bem presente. Eu perdi o meu chão”, conclui Mia Couto.

Sobre a forma como a pandemia está a atingir o continente africano, Mia Couto tem uma explicação. O autor, biólogo de formação, considera que África está a ser “poupada”. A “pandemia passou felizmente de uma maneira muito mais ligeira do que aconteceu aqui na Europa. África está a ser atingida, mas já foi atingida por tanta outra coisa que felizmente, parece que está a ser poupada”, afirma.

Pessoas “foram-se vacinando naturalmente”

Mia Couto questiona “como é que se faz distanciamento social em sociedades completamente gregárias, que existem porque existem ajuntamentos?”. Na opinião do autor, o modo de vida do seu país contribuiu para “a sua própria resposta imunitária”. “Uma das razões pela qual moçambique tem uma capacidade de resistir à doença, é porque esse convívio mais próximo, desde criança, trouxe contato com bactérias, vírus e elementos patogénicos e as pessoas foram se imunizando. Foram-se vacinando naturalmente”.

Sobre o modo de distribuição de vacinas e as diretrizes globais sobre a Covid-19, Mia Couto aponta que “nem sempre são pensadas para a realidade social dos países mais pobres”. Exemplo disso, é o confinamento. “No nosso caso teve de ser repensado. Ficar em casa às vezes era pior do que estar na rua. Há casas com 40 pessoas dentro, com condições básicas e sanitárias muito pobres”, exemplifica.

O autor dá outros exemplos. Na “realidade rural a maior parte das escolas não têm paredes, não têm teto. Como é que se fecha uma escola sem paredes? Falar de unidades hospitalares, em grande parte de Moçambique as pessoas não têm um hospital próximo. Têm de andar 30 a 40 quilómetros para encontrarem um hospital. Portanto, tudo isso tem de ser questionado”, reflete o escritor.

A propósito do livro “O Caçador de Elefantes Invisíveis” em que através das histórias fala da pandemia vista pelo continente africano, Mia Couto fala numa “aprendizagem”. “Para mim o que foi uma aprendizagem foi pensar que as pessoas iam ter dificuldade em entender esta causa invisível, um vírus, um organismo que não é do domínio do visível, mas faz parte daquela cosmogonia onde há criaturas não visíveis que comandam o mundo, portanto foi perfeitamente aceitável e as pessoas conviveram com isso sem nenhum drama”, conclui o escritor.

Cabo Delgado e o próximo livro

Em “O Caçador de Elefantes Invisíveis" estão também narrados os ataques terroristas como os que aconteceram em Cabo Delgado, no norte de Moçambique. Agora que a situação está mais calma, subsiste o drama dos refugiados.

“A grande diferença vai acontecer quando as pessoas puderem regressar aos seus locais. Este quase um milhão de deslocados que está à espera de poder voltar é uma corrida contra o tempo. Um deslocado mesmo que esteja numa condição sub-humana num campo de deslocados, ele encontra ali facilidades que não tem na sua aldeia natal e provavelmente muitos desses já não querem regressar”, explica o escritor.

Questionado sobre o seu próximo livro, o Prémio Camões admite que precisa de tempo para si, para organizar a história que já começou a escrever. Segundo Mia Couto, não se trata de ter “dificuldade de ter temas”. Segundo as suas palavras “o problema é exatamente ao contrário, é depois arrumar isso numa história única”. Para dar corpo à história que já tem 30 a 40 páginas escritas, o escritor diz que vai ter de “fugir” e sentar-se num sítio onde esteja consigo próprio.

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