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Aos 60 anos de carreira, a brasileira Nélida Piñon escreve o seu primeiro livro à mão

22 out, 2021 - 11:40 • Maria João Costa

“Um Dia Chegarei a Sagres” é a nova obra da escritora brasileira, editada pela Temas e Debates. O romance, que aborda a aventura marítima portuguesa, foi escrito em Portugal durante o ano de pandemia. A língua portuguesa - diz a autora - é a sua grande razão de viver.

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É com uma declaração de amor à língua portuguesa que a escritora Nélida Piñon celebra os seus 60 anos de carreira literária. Confessa que nunca evitou “amar profundamente a língua portuguesa” e que essa “é a grande razão” da sua vida. É na língua “mestiça”, como lhe chama que escreve o seu mais recente romance “Um Dia Chegarei a Sagres”, uma obra que pensou ser o seu último livro. Vários problemas na vista atrapalharam a escrita desta obra agora editada pela Temas e Debates. Mas Nélida Piñon não parou e pela primeira vez escreveu um livro à mão.

O romance tem como personagem central Mateus, um jovem aldeão do Norte que atravessa Portugal rumo a Sagres para perceber a dimensão da aventura marítima. A autora que já venceu, entre outros, o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, revela em entrevista ao Ensaio Geral da Renascença, como “Portugal deu ao mundo uma nova noção de imaginação”. Sobre a atual situação do Brasil, Nélida Piñon diz esperar que “a corrupção” não impeça o país de “alcançar um porto seguro”.

O título deste romance surge ao longo do livro repetidamente como uma espécie de refrão e desígnio de vida de Mateus, o seu protagonista. Ele deixa para trás o avô Vicente e parte na aventura. Que viagem é esta a deste jovem português?

De certo modo, todos nós cumprimos uma meta. Todos peregrinamos pelo mundo, no exercício da sua existência. Ele é um jovem, um pobre miserável do norte de Portugal. Mãe prostituta, pai ignorado e o avô o acolhe. O avô vai ser aquele que lhe dá substância para ele poder seguir vivendo. De repente um professorzinho das aldeias lhe faz ver que para uma aldeia, seja ela qual for, quando ela acende para virar uma Nação que é Portugal, passa pelo trânsito da grandeza. Ele não acredita porque é um pobre camponês.

Não acredita nessa aventura que foram os descobrimentos.

De repente esse professor fala-lhe que Portugal era uma nação, a partir do século XVI. Sobretudo com o Infante e as glórias acumuladas conhece a grandeza. Portugal não era uma aldeia, era uma Nação. Portugal deu ao mundo uma nova noção de imaginação com os mares que estavam diante dele. Os loucos e insanos portugueses (risos) fizeram maravilhas. O mundo se transforma a partir de Portugal. Essa é que é a verdade! Essas loucuras permitiram que esse menino Mateus dissesse ‘eu quero conhecer esse infante, quero conhecer Camões’. Ele fica entre o esplendor do Infante e o da língua que ele começa a falar com volúpia. Então, é a peregrinação dele até Sagres.

“Não disponho de muito, arrasto comigo a humanidade que o avô me ofereceu”, diz Mateus. Quem era este avô Vicente, um homem que deixa ao seu neto apenas uma Bíblia?

Você sabe, eu sempre acreditei que os pobres, os miseráveis têm uma linguagem soberba. Conhecem o mundo, às vezes mais do que os letrados. Esse Vicente tinha a noção da ancestralidade, de onde veio. O pobre tem uma noção da antiguidade como quase ninguém tem, porque viu passar pelas suas portas todas as idiossincrasias humanas, todas as violências, foram violados e mal tratados, mas nunca deixaram de viver e sobreviver. O pobre não é o analfabeto que o erudito pensa que é. Lembro-me, no Brasil quando discutiram a questão do voto do analfabeto, eu fui uma grande defensora porque sempre percebi que aquela gente que estava atrás de mim, poderia estar na minha frente a dar-me dados que me faltavam. Portanto, sou uma amante dos camponeses, dos pobres, daqueles que semeiam o mundo sem hesitação! Dominam a arte da sobrevivência.

Nesta peregrinação de Mateus, ele vive a pobreza, mas está também aqui na sua escrita uma critica à escravatura

Podemos dizer deste livro, ocorreu-me essa frase, são as águas barrentas da nossa origem, ou seja, quem nós somos está aí. Fascina-me a odisseia humana. Mateus chega primeiro a Lisboa, conhece a miséria, a discriminação horrível contra ele, os miseráveis. A Lisboa pobre, mas fascinante, linda. O Tejo. O que é o Tejo? O Tejo é a marca da grandeza portuguesa e brasileira. Nós começamos ali à beira do Tejo quando as treze naus de Cabral se despedem de D.Manuel. O que acho que se destaca neste livro é o sentido da aventura humana, da descoberta, da abertura dos portos, ou seja, eles levam o sangue português para o Brasil.

“Um dia chegarei a Sagres” é um livro que a Nélida Piñon diz que a salvou deste último ano e meio de pandemia. Porquê?

Desde 2005 que queria fazer esse romance, mas as circunstâncias da minha vida o impediram. Agora, foi uma maravilha. Eu fiquei aqui concentrada um ano, num apartamento alugado em Benfica. A minha alma entregou-se totalmente a este projeto. Eu estava enxergando muito mal, quebrei um braço em Madrid, então tive todos os embargos possíveis, mas nada me distraiu e afastou desse projeto. Foi uma coisa de uma intensidade profunda. Acho que nunca pude mergulhar tanto no meu ser secreto, como ao fazer esse livro. Marcou a minha alma para sempre. Terminei todo o manuscrito, e a professora Carla que me acompanhava conseguiu entender a minha letra, porque eu tive de escrever à mão pela primeira vez na vida.

Depois voltei para o Brasil e como que por milagre consegui enxergar o texto e a partir daí, no Brasil, consegui fazer mais sete versões. Portanto, é um livro nascido de oito versões. Uma coisa extraordinária. Mas senti-me feliz. Queria a plenitude do texto. Não era por ambição, nem por vaidade. Foi para cumprir aquilo que seria talvez, o final da minha vida, o último romance.

Está a completar 60 anos de escrita. Escrever continua a ser como respirar para si?

Para mim é uma paixão extraordinária. Estou completando 60 anos de ofício literário, de devoção impressionante à literatura. A literatura abriu-me as portas do paraíso, e ao mesmo tempo do inferno. Me ensinou a ser mestre de mim mesma, porque eu aceitei a mestria do mundo. 60 anos em que eu posso dizer que incluo a família, os meus amores, a minha devoção pela vida. Vivi sempre com imensa intensidade. Não me furtei de viver, não me furtei de aprender, não me furtei de amar profundamente a língua portuguesa que é a grande razão da minha vida.

Este livro “Um Dia Chegarei a Sagres” é também um hino à língua portuguesa, aos seus poetas. Como vê hoje a forma como a língua portuguesa é tratada?

A língua portuguesa é um fenómeno extraordinário. É uma língua maravilhosa, portentosa. Poucos países dispõem da combinação da língua com a literatura que se faz com essa língua, portanto nós brasileiros, portugueses, todos os que vivem à sombra dessa língua maravilhosa, deveríamos acreditar que somos herdeiros de um património extraordinário. Não é qualquer país que teve um Camões, que teve os brasileiros, os africanos, grandes escritores de todos esses tempos! Vivo dizendo, meu Deus, como agradeço as maravilhas, o esplendor, o espelho de água da língua portuguesa. É uma língua que sempre digo que é mestiça, que atravessa as águas do Atlântico, do Índico, em todos os lugares. Essa nossa língua é soberba!

Foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras, já venceu diversos prémios, entre eles o Prémio Príncipe das Astúrias. Como é que olha o seu país, atualmente, depois do impacto da pandemia e da presidência de Jair Bolsonaro?

Evidentemente que as coisas estão muito precárias, muito difíceis e muito penosas. Mas também acho, infelizmente que essas circunstâncias terríveis não são de hoje, vêm de algum tempo atrás. O Brasil precisará muito de equilibrar-se a partir dos seus defeitos anteriores. Também acho, sinceramente, triste com as circunstâncias de hoje, que nós temos condições de resgatar todo esse fracasso, porque o Brasil é um país prospero e rico. Tem um povo com imaginação, que preserva a língua e que tem de estar apto a ter a noção da sua grandeza. Não pode permitir que o fracasso dos governos, a corrupção que houve e está havendo impeça a sua marcha para a ressurreição, para alcançar o seu porto seguro. Sei que é difícil, mas não estou pessimista, porque entendo que a História se mobiliza de uma forma muito misteriosa. Eu acredito profundamente no meu país. Um país que teve Machado de Assis, não pode fracassar!

Afinal este “Um Dia Chegarei a Sagres” não será o seu último livro? Já está a escrever de novo?

Eu já estou praticamente com um livro de ensaios pronto e também um livro de reflexões que eu gosto muito de fazer. Acho que o ato de pensar e transgredir por conta da força e pujança do pensamento é necessário. Nesse momento estou com esses dois livros e me dá muito prazer. Ensina-me a pensar, porque o pensar é diabólico, mas também me explica onde eu estou no mundo.

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