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Centro de Arte Moderna da Gulbenkian

A arte contemporânea anda de comboio e em contentores marítimos

15 out, 2021 - 20:00 • Maria João Costa

Enquanto decorrem as obras de remodelação e ampliação, o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian resolveu levar a arte ao encontro do público. Nas Linhas de Sintra e Cascais já circulam comboios com intervenções artísticas.

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"Vai partir na Linha número 1 o comboio com destino a Sintra", anuncia uma voz pelos altifalantes na Estação do Rossio, em Lisboa. Esse comboio poderá ser um dos que foi intervencionado por artistas no âmbito do projeto ‘CAM em Movimento’ que o Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Gulbenkian pôs em marcha enquanto decorrem as obras de remodelação e ampliação do museu.

“Na raiz deste projeto está o desejo de estabelecer o contato com os públicos que desejamos receber no CAM quando reabrimos”, explica o diretor do CAM.

Numa visita guiada pela cidade de Lisboa ao encontro da arte, Benjamin Weil aponta esta iniciativa de levar a arte às ruas como uma via para “experimentar novas formas de exposição”. “Queremos que a experiência de arte faça parte da vida quotidiana de todos”, diz na Estação do Rossio, Benjamin Weil.

Ao lado está parado o comboio que levou uma nova pele desenhada por Didier Fiúza Faustino. É uma tela que cobre quatro composições que vão viajar na Linha de Sintra até pelo menos ao final do ano. Esta intervenção tem como nome “Tatuagem” e reproduz em tamanho gigante essas imagens que muitos gravam na pele.

Aos jornalistas, o artista de ascendência portuguesa refere que a peça poderia chamar-se “o mapa do céu ou uma linha de vida”. Para Faustino o comboio dá a ideia de “transportar várias histórias e momentos da vida”. Para contar essas diversas histórias, o artista quis “extrair elementos íntimos e pessoais” e encontrou nas tatuagens essa expressão.

Noutra linha, a de Cascais, este projeto do CAM em Movimento feito em parceria com a CP – Comboios de Portugal, vai fazer circular um comboio com uma intervenção da artista Fernanda Fragateiro. A criadora pegou numa obra sua de 2014, intitulada ‘Não Ligar’ e ampliou-a na tela que reveste todo o comboio.

Segundo Fragateiro, esta peça cheia de fios de seda coloridos, “é uma metáfora do que o comboio é, e faz. Um comboio liga dois pontos”, indica a artista.

Mas há mais camadas nesta obra. Para a criadora, esta tela que agora reveste o comboio da linha de Cascais é uma “imagem silenciosa” que contrasta com a habitual publicidade que costuma ocupar o exterior dos comboios.

“O espaço público está carregado de mensagens, muitas delas têm um carácter mercantil, de vender. Eu queria fazer o oposto disso. Trazer uma imagem não objetiva que interrompesse essa lógica de que somos o povo da mercadoria”, explica Fernanda Fragateiro na plataforma da estação do Cais do Sodré.

Mas o CAM ocupou também um contentor marítimo com obras de vários artistas da sua coleção. Nos jardins da Fundação Gulbenkian está um contentor azul, lá dentro estão instalações vídeo de artistas como João Onofre, Lida Abdul, Pedro Barateiro e Fernando José Pereira.

Em entrevista à Renascença, João Onofre vê esta iniciativa do CAM como “positiva”. “Em vez do CAM estar parado, ter programação exterior pode captar novos públicos”, aponta o artista. De dentro do contentor vem uma voz de uma rapariga a cantar, uma voz quase angelical. Está a passar o vídeo de Onofre. Ele explica-nos que “é uma obra que tem 10 anos”.

“É uma teenager a cantar uma obra da Petula Clark, mas como ela canta à capela, num espaço vazio, mais parece um lamento. Na minha leitura essa música parece outra, com mais densidade e uma poesia que tende a ficar mais negra”, explica João Onofre sobre esta peça.

Também no jardim da Gulbenkian está o ilustrador António Jorge Gonçalves que foi desafiado pelo CAM para intervir nos tapumes que escondem as obras do CAM. O criador explica que a sua peça intitulada “O voo do pato-real” apresenta “uma sequência de Banda Desenhada que tem um arco no tempo” onde nos quadradinhos da BD é contada a história da área onde a Gulbenkian está implantada.

Dentro de um mês as ilustrações de António Jorge Gonçalves serão aplicadas nos tapumes. O artista pegou na ideia de “movimento” e criou uma narrativa que terá “como protagonista o pato-real, porque é um animal muito presente na Gulbenkian”, explica o ilustrador.

“O que essa sequência de Banda Desenhada vai dar, é através do voo do pato real, momentos da ocupação desta zona geográfica. Já tivemos aqui uma quinta que produzia cereal e alimento para os armazéns da cidade, já tivemos o primeiro Jardim Zoológico, um velódromo, um centro hípico, já houve um tornado em 1941 que destruiu uma parte do jardim, tivemos a primeira Feira Popular. Toda essa convivência está lá, em saltos do tempo”, indica Jorge Gonçalves sobre o seu trabalho.

O ilustrador prepara outra criação que fará um arco do tempo, projetando o futuro que será mais tarde colocada também nos tapumes da obra do CAM. O museu tem também neste momento outra exposição fora de portas.

Em Cascais, a Casa das Histórias Paula Rego acolhe vinte e quatro obras da Coleção de Arte Britânica do CAM. A mostra acontece numa altura em que a obra de Paula Rego está exposta em Londres, na Tate Britain, na maior retrospetiva da obra da artista alguma vez realizada.

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