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Curta sobre racismo e colonialismo exibida no Padrão dos Descobrimentos

25 set, 2021 - 16:37 • Lusa

A curta aborda "temas como o próprio Padrão [dos Descobrimentos], o racismo, o antirracismo, o colonialismo e o "neon colonialismo" e, inevitavelmente, a saúde mental", explica a nota de imprensa.

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"O Princípio, o Meio, o Fim e o Infinito", filme de Pedro Coquenão, "resulta de um cenário vivido e criado" na Casa Independente, em Lisboa, e ganha agora uma nova vida, com projeção no Padrão dos Descobrimentos.

A curta aborda "temas como o próprio Padrão [dos Descobrimentos], o racismo, o antirracismo, o colonialismo e o "neon colonialismo" e, inevitavelmente, a saúde mental", explica a nota de imprensa.

Em entrevista à Lusa, Pedro Coquenão esclarece que o filme que é agora exibido, a 1 e 2 de outubro, no Padrão dos Descobrimentos, "resulta de um cenário vivido e criado", ao longo de um mês, num alojamento artístico que desenvolveu na Casa Independente.

"Tenta registar essa residência, as peças que foram expostas e as obras que foram apresentadas, nomeadamente um musical. Depois, cruza com esta ficção, que são as personagens IKOQWE, a viverem nessa residência, a interagirem com o espaço e a criarem eles próprios, também, um musical", detalha.

A tudo isto, soma-se uma rádio que foi emitida durante aquele mês no Largo Intendente, "chamada Normal, que tem um locutor que vai contando a história".

Para este projeto, partiu de algumas obras suas, mas também de peças que foi "buscar ao acervo do Museu de Lisboa, com a ajuda da EGEAC, como a maquete original do Padrão dos Descobrimentos, esculpida por Leopoldo de Almeida, aguarelas de António Costa Pinheiro ou a escultura dos Pretos de São Jorge".

Daí, resultaram pecas como "Neon Colonialismo" ou "Aluzejo".

"Foi muito interessante para mim fazer essa conversa, entre coisas como a escultura original do Leopoldo de Almeida ou quadros do António Costa Pinheiro com coisas minhas, com coisas que pintei na parede ou peças que fiz com caixas de luz e pequenas instalações que fiz na casa inteira", conta o artista.

O que chega agora aos ecrãs "foi mesmo criado para ser real e vivido pelas pessoas que foram à casa durante aquele mês, e foi mesmo habitado por estas duas personagens" e foi desenhado para que não fosse "um "making of" do que lá aconteceu, mas que fosse suplementar e levasse as pessoas para uma outra dimensão.

Além disso, o adiamento de apresentações, dada a pandemia de covid-19, levou à criação de mais material, "um complemento ao que foi lá feito".

Pedro Coquenão está "muito contente" com a projeção no Padrão dos Descobrimentos "porque o espaço em que vai ser apresentado é desconhecido para a maior parte das pessoas" e permite "ver uma curta com a dignidade que uma curta merece, e conversar um bocadinho sobre isso, sobre o filme e sobre o porquê de estarmos ali dentro daquele monumento".

"Aquele monumento é muito imponente (...), ele entra pelo rio adentro, não parece que está a ir para o oceano, parece que está a ir pela Trafaria adentro", destaca o artista, frisando que "tem uma série de problemas que são normais na História -- a representatividade é terrível, pobre, [tem] apenas uma mulher, se não me engano, a mãe do Infante D. Henrique", a rainha Filipa de Lencastre.

Para o realizador, "não há uma representação, de todo, do que foi o diálogo daquela época com tudo aquilo que é o que valida muita gente defender essa época como uma época dourada da História".

Mas acredita que a sociedade tem "evoluído muito nestes últimos anos, principalmente, e há uma visão do Padrão como algo que, de facto, é obsoleto, e que retrata uma História numa perspetiva que é muito limitada", mas que, à luz do que se sabe hoje, se torna evidentemente num "agressor".

"Visto de costas, ele não é um barco, não são velas, é uma espada, uma espada muito forte ali fincada", que "leva consigo muitas cruzes e muitas espadas", demonstrando que o intuito da viagem não era "conhecer pessoas ou descobrir o mundo", mas antes "fazer aquilo que qualquer país poderoso e opressor hoje faz".

Aquele monumento e o Cristo Rei, exemplifica, "são coisas muito definidoras" da capital "de um país que se afirma laico e diverso, e, no entanto, essas duas representações muito fortes e altivas na cidade são reveladoras de uma outra forma de ver as coisas".

"O filme tem essa leveza, mas tem essa preocupação de, imaginando dois personagens que chegam à cidade e olham para ela, se calhar estranharem algumas coisas que se calhar não são tão lineares para quem chegue de repente à cidade".

Depois de ter sido estreado no Indie Lisboa, uma nova versão de "O Princípio, o Meio, o Fim e o Infinito" é agora mostrada no Padrão dos Descobrimentos nos dias 1 e 2 de outubro, mas faz também parte da seleção de filmes do Womex 2021, que se realiza no Porto de 27 a 31 de outubro.

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