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Francisco Geraldes veste a camisola do Plano Nacional de Leitura. "Só quero fazer as pessoas pensar"

26 mar, 2021 - 06:29 • Maria João Costa

O Rio Ave Futebol Clube recebeu esta semana o prémio “Responsabilidade Social” da Fundação de Futebol - Liga de Portugal pela iniciativa “As leituras do Francisco”, promovida pelo clube de Vila do Conde com o apoio do Plano Nacional de Leitura.

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José Saramago e Valter Hugo Mãe são dois dos escritores de eleição de Francisco Geraldes. O jogador do Rio Ave diz, contudo, que acabou de ler um livro da escritora Clarice Lispector que foi o que mais o marcou, até agora.

Aos 25 anos, o futebolista foi desafiado pelo seu clube para gravar uns vídeos para promover o gosto pela leitura. “As Leituras do Francisco” têm o apoio do Plano Nacional de Leitura e mereceram já ao Rio Ave um prémio de ‘Responsabilidade Social’ da Fundação de Futebol – Liga de Portugal.

Em entrevista ao programa Ensaio Geral da Renascença, o jogador conta que ganhou hábitos de leitura com as histórias que os pais lhe liam à noite e na escola; e revela que não prescinde de ler entre treinos. Francisco Geraldes espera influenciar, nem que seja uma só pessoa, para a leitura. Os livros dão-lhe vocabulário e criatividade.

Apresentou agora o segundo episódio em vídeo de “As Leituras do Francisco”. Esta parceria entre o Rio Ave e o Plano Nacional de Leitura visa promover o livro e combater a iliteracia e o isolamento social. Como surgiu a ideia e tem noção da recetividade?

Foi-me falado pelo Rio Ave que havia a intenção de haver uma espécie de incentivo à leitura através do Plano Nacional de Leitura. Desde logo, achei que era uma ideia interessante, mas não achei que ia ter este tipo de repercussão.

Acho que a ideia está a ser bastante bem-recebida. Também é uma coisa diferente. Aliás, não me lembro de haver alguma iniciativa deste género, por isso também rompe com o que tem sido feito e, nesse sentido, a receção da ideia é melhor e muito maior. Tem excedido as expetativas.


Como nasceram os seus hábitos de leitura?

No meu colégio sempre houve iniciativas de promoção de leitura, a nível de testes, exercícios, trabalhos para casa. Sempre houve, principalmente nas aulas de Português, a tentativa de os professores nos fazerem ler e a recomendação de livros que saíam nos testes.

A partir daí, e quando uma pessoa se identifica com algo, depois passa a fazê-lo por si e não porque alguém lhe diz que tem de ser feito. Por isso, o meu gosto vem muito com naturalidade pelo meu percurso educacional. Também há alguma influência de casa, dos meus pais que sempre, através das clássicas histórias à noite, permitiram que o meu interesse e gosto pela leitura florescessem.

Francisco Geraldes, o que é que a leitura lhe dá?

A leitura dá uma imensidão de valências. Desde logo, a nível de vocabulário. Permite-nos aceder a palavras e a textos que nunca teríamos hipótese de aceder, senão através da leitura. Depois há uma parte de experiência, de uma conversa a sós com o autor. Ainda que ele não nos ouça. Há uma espécie de confrontação em que lidamos com as nossas próprias imagens.

Quando vemos um filme, ou experienciamos a nível sensorial com o olhar, não é uma criação nossa. O livro permite-nos uma criação só nossa, criamos as nossas próprias imagens e isso, a nível da criatividade, é extremamente importante, sobretudo quando somos mais jovens.


Quando é que encontra tempo para a leitura?

Tendo os meus treinos e o meu trabalho, nessas alturas nunca posso ler. Mas sempre que tenho tempo em casa ou estou em estágio, sempre que arranjo meia hora, creio que é importante para mim ler. Já faz parte da minha rotina. Não prescindo. Quando não o faço, sinto que está a faltar alguma coisa.

Numa época de “influencers”, de que forma acha que pode influenciar os mais jovens?

Quando faço estas iniciativas e entro neste tipo de projetos penso que, se conseguir influenciar apenas uma pessoa, acho que o trabalho já está realizado! Não pretendo influenciar multidões. Como Sócrates dizia: “não quero que pensem como eu, só quero que pensem”. A minha intenção é essa. Só quero fazer as pessoas pensar, refletir e, caso se identifiquem, melhor ainda!

E o que anda a ler Francisco Geraldes?

É engraçado, porque diria que 99% das vezes nós escolhemos os livros que lemos, mas há aquela mínima percentagem de 1% em que acabamos de ler um livro e achamos que o livro nos escolheu.

Eu acabei de ler um livro há pouco tempo que é “Perto do Coração Selvagem” [ed. Relógio d’Água], de Clarice Lispector, que acho que entra nesta ínfima percentagem de 1%. Acho que é o livro que mais me marcou.

Na sua biblioteca que outros autores existem? Prefere portugueses ou estrangeiros?

Gosto um pouco de tudo, embora tenha de dizer que, de facto, os escritores portugueses são excecionais. Pelo menos, para um português, ler em Português obviamente que o peso das palavras tem outra importância.

Há inúmeros escritores, tanto vivos como de outras épocas. Não consigo deixar de mencionar José Saramago ou o Valter Hugo Mãe, embora sejam escritas diferentes, são sempre escritas que tocam e que aprofundam questões essenciais e nos colocam sempre em confronto com a nossa vida e são de extrema importância.

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