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Herman José: "Carlos do Carmo foi ostracizado" pelas suas ideias, mas "acabou em plena glória”

01 jan, 2021 - 13:45 • Beatriz Lopes , com redação

Em declarações à Renascença, o humorista Herman José recorda o fadista como um homem "fora do comum, de muito bom gosto e de muita coragem".

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Herman José reage à morte de Carlos do Carmo
Herman José reage à morte de Carlos do Carmo
Herman José reage à morte de Carlos do Carmo

Carlos do Carmo, que morreu esta sexta-feira aos 81 anos, era um fadista com ideias próprias e, a certa altura da carreira, pagou por isso "em silêncio e com um sorriso" no rosto, lamenta Herman José em declarações à Renascença.

“Ele era uma personagem fora do comum, de muito bom gosto e de muita coragem, mas também para fazer algum esforço para esconder a mágoa do muito mal que lhe tentaram fazer a certa altura, que é inevitável nas grandes carreiras”, afirma o humorista e cantor.

“Há sempre uma altura em que o mundo se junta para conspirar contra o sucesso continuado e, no caso dele, o pretexto foi a política, como se uma opção política de esquerda fosse uma espécie de uma peçonha, de uma infeção ou de um crime ilegal”, recorda Herman José.

Nestas declarações à Renascença, o humorista considera que Carlos do Carmo “foi muito muito ostracizado durante muito tempo e sofreu muito com isso, sempre em silêncio, com um sorriso”.

Herman José testemunhou episódios em que, nas costas do fadista, “pessoas malevolamente: ‘então, agora dás-te com comunas’?”.

“As pessoas são muito cruéis quando querem, mas, como homem inteligente que era, deu a volta a tudo e mais alguma coisa e acabou em plena glória”, sublinha.


Morreu Carlos do Carmo, o rei do Fado
Morreu Carlos do Carmo, o rei do Fado

Herman José recebe a notícia da morte de Carlos do Carmo com “inevitável mágoa” e não esquece os conselhos que recebeu no início da carreira, “sobretudo em relação à gestão dos nossos sins e dos nossos nãos”.

“Eu conheço-o há muitos muitos anos. Éramos colegas de editora quando eu comecei nos anos 70, na Movieplay. Ele era unha com carne com o Thilo Krasmann, foi o Thilo que arranjou o meu primeiro sucesso musical, ‘O Saca-Rolhas’, e ele achava-me muita piada, mesmo ainda antes do grande público me achar piada, ele reconhecia-me grandes qualidades e chorava a rir comigo.”

O humorista descreve Carlos do Carmo como “uma personagem fora do comum, de muito bom gosto e de muita coragem, mas também para fazer algum esforço para esconder a mágoa do muito mal que lhe tentaram fazer a certa altura, que é inevitável nas grandes carreiras”.

O fadista, que faleceu na sequência de um aneurisma, conseguiu “fazer uma coisa raríssima, talvez nem o Charles Aznavour. O Carlos mesmo fragilizado fisicamente, o último espetáculo que dá é imaculado artisticamente”, considera Herman José.

Carlos do Carmo é “um exemplo para uma quantidade de artistas e também no que corresponde a uma arte que todos os artistas têm de ter, que é a arte do discurso”.

“Ter um discurso, ideias, um posicionamento, ter argumentos, não ser uma amiba. E há nitidamente uma quantidade de artistas que se deixaram influenciar pelo Carlos do Carmo e que, a certa altura, o tomaram como exemplo.”

“O Ricardo Ribeiro com certeza. A Mariza começa por ser um produto muito influenciado pela Amália e, a certa altura, deixa-se influenciar pelo Carlos e, hoje em dia, há muito de Carlos do Carmo na interpretação dela. Podia dar uma lista interminável de jovens artistas que o têm um bocadinho como exemplo, não só artístico, mas no rigor da escolha dos seus poetas e da dialética. Não podemos ser umas figuras artísticas muito valiosas e, depois, quando nos metem um microfone à frente, não dizemos uma para a caixa”, defende.

Para Herman José, a melhor homenagem que se pode fazer a Carlos do Carmo na hora da morte “seria pegar numa coisa de terrivelmente icónica e dar-lhe o nome do Carlos do Carmo”, porque as palmas e as palavras de ocasião são vãs.

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