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​Ucrânia. "Guerra só acaba quando esquecermos tudo o que vimos e reconstruirmos as nossas almas"

16 mai, 2022 - 14:51 • Redação

Responsáveis da Rede Cáritas alertaram, no Vaticano, para o aumento do fluxo de refugiados e para o impacto global do conflito, sobretudo nos países mais pobres.

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A guerra na Ucrânia está a ter um forte impacto nas populações mais pobres do mundo. O alerta foi sublinhado esta segunda-feira, no Vaticano, pelo secretário-geral da Cáritas Internacional, para quem este é um conflito onde “não haverá vencedores”.

Aloysius John considera urgente não esquecer as outras “crises humanas”, que até se agravaram com o atual conflito na Europa.

“Uma das importantes consequências deste conflito na Ucrânia é que pôs na sombra as outras crises humanitárias que há no mundo, em que as pessoas continuam a sofrer e a estar privadas de uma vida digna. Há muitos exemplos: Etiópia, África central, a região do Sahel, e muitos outros locais”, afirmou, desafiando a comunidade internacional a não “desviar o olhar” destas “crises esquecidas” e a “agir com urgência”, financiando a “intervenção humanitária” que aí for necessária.

Por seu lado, Tetiana Stawnychy, a presidente da Cáritas Ucrânia, agradeceu a “solidariedade” que têm recebido, com bens, mas também com muitos voluntários, o que tem permitido dar resposta às necessidades que são sempre crescentes, até porque a população continua a fugir da guerra.

“Quando falamos de crise humanitária, estamos só no início da resposta. Continuamos a apoiar quem foge das zonas onde há mais combates e precisa de ajuda imediata, mas alguns dos nossos centros já estão a fazer acolhimento mais prolongado, Mas isto é só o começo, gostava de sublinhar isso. Vai ser um longo caminho e precisamos de ajuda para continuar”, afirmou aquela responsável, que lembrou o ataque contra as instalações da Cáritas, em Mariupol, para sublinhar que há riscos associados à resposta humanitária.

Na mesma conferência de imprensa, o secretário-geral da Cáritas-Spes Ucrânia, o padre Vyacheslav Grynevych, manifestou-se muito preocupado com o impacto que o conflito está a ter no percurso educativo das novas gerações, a somar às dificuldades que a pandemia já tinha trazido.

“Nos dois últimos anos as nossas crianças não tiveram aulas normais, só online, foi muito difícil, e agora com a guerra vemos que não será possível retomar a normalidade do processo educativo. Vem aí o verão, vemos as imagens da ocupação, os pais estão a combater... no futuro quem serão os nossos médicos, os nossos professores, os nossos líderes? Temos de pensar nisto”, afirmou, prevendo uma “guerra longa”, com feridas difíceis de sarar.

“É difícil imaginar o fim da guerra. Na minha opinião não vai terminar com um acordo de paz. Só acabará quando conseguirmos esquecer tudo o que vimos e reconstruir não só as casas, mas as nossas almas, a nossa memória. Vai demorar”, acrescentou o padre Vyacheslav, para quem o “remédio é a Igreja, o amor e a esperança. E é nossa vocação, como família Cáritas, partilhar isto com quem está perto de nós”.

Questionado sobre uma eventual viagem do Papa a Kiev, admitiu que “não é fácil visitar a Ucrânia, neste momento”, mas agradeceu as manifestações de apoio que têm recebido.

Aquele responsável e a presidente da Cáritas Ucrânia foram recebidos pelo Papa este domingo. Na audiência, que durou cerca de 30 minutos, Francisco recebeu informações sobre a resposta da instituição católica ao conflito.

Desde que a guerra começou, a 24 de fevereiro, que a rede da Cáritas tem estado na linha da frente da ajuda, tanto na Ucrânia como nos países vizinhos, nomeadamente na Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Roménia e Moldávia.

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