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D. Luiz Fernando Lisboa.“O que está em jogo no Brasil é a Democracia"

16 mai, 2022 - 07:10 • Henrique Cunha

O antigo bispo de Pemba, atual arcebispo no Brasil, defende que nas eleições de outubro "o que está em jogo não é esse ou aquele partido, esse ou aquele candidato, mas a democracia". Assumindo que lhe custou deixar Moçambique, o prelado lamenta que o conflito de Cabo Delgado esteja a ser, tal como outros, algo esquecido por causa da guerra na Europa.

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Foto: Henrique Cunha/RR
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Foto: Fundação Fé e Cooperação
Foto: Fundação Fé e Cooperação

O arcebispo brasleiro de Cachoeiro de Itapemirim, D. Luiz Fernando Lisboa, expressa, em entrevista à Renascença, numa passagem pelo Porto, a preocupação da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) face às eleições de outubro próximo.

O antigo bispo de Pemba, no norte de Moçambique, diz que há pessoas “ligadas ao Governo” de Bolsonaro que “desrespeitam as instituições”. Critica também a comunidade internacional por “esquecer as guerras de África, inclusive a de Cabo Delgado” por causa da Guerra na Ucrânia.

O arcebispo confessa que “a saudade ainda é muita” em relação a Pemba e admite que a sua saída de Cabo Delgado possa estar relacionada com o facto de se ter tornado incómodo. “A Igreja, em si, era incómoda. Eu gosto sempre de lembrar”, sublinha.

Noutro plano, D. Luiz Fernando Lisboa antecipa grande presença de jovens brasileiros na Jornada Mundial da Juventude do próximo ano, em Lisboa, e revela que na sua diocese de Cachoeiro de Itapemirim “já há pessoas a preparar-se para vir”.

Participou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto na conferência "Desafios missionários da pós-contemporaneidade". Quais são os grandes desafios que se colocam na atualidade à Igreja?

Os desafios são muitos. O Papa Francisco tem desafiado constantemente a Igreja. O desafio maior dele, o último, justamente, diz respeito ao sínodo que ele propôs para toda a Igreja, que traz como tema "Igreja sinodal, comunhão, participação e missão". Essas três palavras é o que ele quer com esse sínodo.

Na verdade, é um grande "vamos". Podemos dizer assim, um grande movimento em toda a Igreja, no mundo inteiro, para nós revermos o nosso modo de ser, nosso modo de estar no mundo. Ele tem proposto uma igreja cada vez mais participativa, uma igreja cada vez mais em saída, uma igreja cada vez mais dialogante com a sociedade, com as várias realidades. Esse desafio é para toda a Igreja, onde ainda há muito clericalismo, ou seja, tudo está voltado para os ministros ordenados. Ele propõe uma Igreja onde todo mundo tenha o seu espaço, onde todo mundo assuma responsabilidades.

Ele está dando um exemplo nisso, na reforma que fez na Cúria Romana, convidando e trazendo para dentro da Igreja, no próprio Vaticano, leigos e leigas, dando postos de responsabilidade, de governança para leigos e leigos. Isso é um grande ensinamento e deve repercutir-se em toda a Igreja, nas igrejas particulares, nas nossas dioceses.

Isso é ser missionário, todos sermos missionários? No fundo, todos temos um papel na igreja?

Com certeza. O Papa Francisco não está inventando nada. Ele está trazendo, na verdade, aquilo que o Vaticano II já propôs há 60 anos, valorizando todo o povo de Deus. Todo mundo tem o sentido da fé. Então, todos nós devemos nos sentir responsáveis pela Igreja, sermos igreja.

O senhor bispo habituou-nos a uma leitura muito atenta do que o rodeia. Como está a situação social do Brasil? Os receios pelos efeitos da pandemia confirmam-se?

Confirmam-se. Nós, no Brasil, tivemos já mais de 660 mil mortos pela pandemia, por causa de um Governo que não deu a mínima importância para a pandemia no início, que a negou. Nós temos um Governo que é negacionista, infelizmente. Negou a pandemia e não tomou as atitudes que deveria ter tomado no começo. Isso custou milhares de vidas.

Então, nós estamos vivendo um momento assim, um momento especial no Brasil, de polarização, não é? Construíram-se narrativas. Hoje, no Brasil, para um certo grupo extremista, falar de pobre é ser comunista, falar de justiça social é ser comunista, defender qualquer grupo que seja os povos originários, que sejam os negros, que sejam quem quer que seja, é comunismo. Então, nós vivemos tempos bastante difíceis. Nós teremos eleições nesse ano, em outubro, e o que está em jogo não é esse ou aquele partido, esse ou aquele candidato, mas o que está em jogo é a democracia. Então nós temos, nós temos falado muito sobre isso na Conferência dos Bispos, a CNBB. Tivemos uma assembleia há menos de 15 dias e fizemos um comunicado ao povo brasileiro, onde colocamos essa situação e pedimos para todo mundo refletir e participar com responsabilidade das eleições, porque nós precisamos defender a democracia.

Existe essa polarização. No fundo, essa divisão poderá acentuar-se até com a entrada de Lula novamente na corrida eleitoral. Poderemos ter uma grande divisão entre os apoiantes de Lula e de Bolsonaro?

Já havia esta divisão. Só que agora ela ampliou-se. Ampliou-se no sentido de que existem aqueles que querem a democracia e aqueles que estão ligados ao Governo atual, que a criticam e que querem o fim das instituições. Quer dizer, se você desrespeita as instituições, se você quer passar por cima das instituições, você está colocando em causa a democracia, não é? Então houve manifestações. O atual Presidente andou ameaçando o Tribunal Superior e há pessoas que o seguem que fazem o mesmo.

Existe esse risco forte de a democracia não vingar?

Olha, nós queremos acreditar e acreditamos que o povo não quer isso. Não quer, não quer o extremismo, o fascismo, o povo quer manter a democracia. Acreditamos nisso e pedimos para que todo mundo reflita bem e escolha com liberdade seus candidatos, mas não escolha o desrespeito à democracia.

E como é que estão a ser vivida no Brasil a preparação da Jornada Mundial da Juventude do próximo ano, em Lisboa? Acredita que muitos jovens brasileiros possam estar presentes?

Acredito, porque o Papa Francisco tem dado um apoio muito grande à juventude. Tem falado muito com a juventude, não só da juventude, mas com a juventude. O início do pontificado dele foi justamente no Brasil, na Jornada Mundial da Juventude, e os nossos jovens estão muito motivados. Na jornada passada, houve uma participação muito grande e, sendo aqui em Portugal, muito maior ainda vai ser a adesão dos brasileiros. Na minha diocese, já há pessoas preparando se para vir.

Certamente que continua atento à situação vivida em Pemba, em Cabo Delgado. Como é que olha para a situação atual?

Eu saí de lá há menos de um ano e meio, mas tenho acompanhado sempre porque passei lá quase 20 anos. Então, como eu costumo dizer, eu saí da África, mas a África não saiu de mim e vai continuar.

Então, acompanho com muita tristeza que o povo ainda esteja sofrendo tanto. Com as novas guerras, sobretudo na Ucrânia e Rússia, as guerras da África, inclusive a de Cabo Delgado, estão esquecidas. Então, no começo havia todo um movimento. O Papa ajudou muito a internacionalizar a guerra. Havia muitas ajudas. As ajudas começam a escassear e eu sei porque tenho conversado com as pessoas de lá e isso nos preocupa muito, porque quando eu saí havia 800 mil deslocados e esse número não está a diminuir, ao contrário, está a aumentar. A situação começa a piorar porque estão faltando essas ajudas.

Porque a comunidade internacional também tem os olhos postos no outro conflito?

Exatamente.

Ainda recentemente, penso que esta semana, ouvimos um bispo nigeriano a criticar a comunidade internacional por não combater verdadeiramente o terrorismo. Partilha desta opinião?

Posso partilhar, sim, porque quando começou lá, em Cabo Delgado, as autoridades foram chamadas à atenção. Foi mostrado para eles que nós tínhamos um problema e eles minimizaram. Quiseram atribuir a intriga religiosa a guerras religiosas, o que não era verdade. E a prova disso é que nós estamos já há quatro anos nessa guerra, com tanto sofrimento, com tantas pessoas mortas. Numa guerra, como diz o Papa Francisco, não tem vencedor: todos perdem. Então, o povo moçambicano está perdendo, especialmente os mais pobres, porque os ricos têm outros interesses, não estão preocupados com a guerra porque não estão perdendo os seus. Mas o povo continua sofrendo.

Uma questão, mais de caráter pessoal: a esta distância, já pode partilhar connosco os sentimentos que o invadiram quando saiu de Pemba?

Bom, foram muitos. Primeiro, com uma vontade de não sair, de ficar, de permanecer e, depois, com o sentimento de tristeza por deixar aquele povo que eu aprendi a amar. Então me custava muito aceitar, de sair dali. Depois, aos poucos, tentando digerir toda a situação, fui entendendo que nós podemos ser missionários em qualquer lugar e também aquilo que eu procurei fazer lá, o pouco que eu fiz, outros também poderiam fazer. Então, fui aos poucos acalmando o meu coração. Mas a saudade ainda é muita.

E chegou à conclusão que tinha mesmo que sair?

Olha, eu rezei muito, pedi muito que Deus me mostrasse o caminho, mas não decidi sozinho. Eu tive uma conversa muito franca com o Santo Padre e, naquele momento, a Igreja achou que seria melhor eu sair.

O senhor era uma personalidade incómoda, naquela altura?

É, pode ser que sim. A Igreja em si era incómoda. Eu gosto sempre de lembrar. Há pouco, eu falei aqui na conferência que o D. Hélder Câmara dizia assim: "Quando eu ajudo, quando eu dou pão aos pobres, me chamam de santo. Quando eu pergunto porque é que os pobres não têm pão, me chamam de todos os nomes, comunista e outras coisas."

Então, isso acontece com a Igreja também. A Igreja procura ser a voz daqueles que não têm voz. Quer dizer, procura emprestar a sua voz para aqueles que não podem, que não conseguem ou que têm medo de falar. E isso é normal, acontece em todo lugar.

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  • Eduardo Sousa
    17 mai, 2022 Oliveira de Azeméis 20:27
    O Sr Bispo ou está ou quer estar mal informado sobre a situação do Brasil. Lamentável e grave esta desinformação.

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