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Entrevista a Pedro Strecht

Comissão que investiga abusos quer "continuar a aprofundar bom relacionamento com as dioceses”

18 mar, 2022 - 16:57 • Ana Catarina André

O grupo que está a investigar casos de abuso sexual de crianças e adolescentes no seio da Igreja começou, recentemente, a colaborar com a estrutura que, em Espanha, se dedica ao mesmo tema.

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A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa tem dedicado as últimas semanas aos contactos com diferentes estruturas eclesiais e está a preparar, para maio, uma conferência dedicada ao tema. O evento contará com a presença do Presidente da República e com vários especialistas, entre os quais o padre Hans Zollner, conselheiro do Papa Francisco.

Em entrevista à Renascença, Pedro Strecht, coordenador do grupo de trabalho, revela também que já foi criada uma equipa para estudar os arquivos históricos das dioceses portuguesas.

O que é que significa esta parceria com a comissão espanhola que investiga os abusos sexuais de crianças e adolescentes ocorridos no seio da Igreja, em Espanha, e que foi criada a pedido da Conferência Episcopal Espanhola?

Nesta fase, temos vindo a estabelecer contactos por solicitação da comissão de Espanha, que foi recentemente criada a pedido dos bispos e da Igreja Católica espanhola e que obviamente tem procurado quem já fez ou está a fazer este tipo de trabalho. Para a comissão independente pode ser útil perceber como é que noutros países estas situações vão ser tratadas. Para Espanha, percebemos que o exemplo português está a ser considerado muito útil e importante. Embora sejam realidades diferentes, penso que querem perceber que tipo de trabalho temos desenvolvido até aqui, sempre com uma salvaguarda muito importante: tudo o que são dados pessoais e questões que dizem respeito ao estrito profissional, isso manter-se-á [sigiloso] não só agora, como sempre.

Já têm um plano de trabalho ou calendário que indique como pode ocorrer essa colaboração?

Estamos mesmo no começo, mas a ideia é estabelecer por escrito essa forma de colaboração, que depois naturalmente poderá passar por encontros e que podemos pensar em conjunto. De facto, estamos todos juntos pela verdade, no sentido de ajudar a Igreja Católica a perceber o que aconteceu no passado, contactar e recolher o maior número possível de depoimentos de vítimas, e fazer um estudo que, de várias formas, possa vir a proporcionar um futuro melhor e com menos riscos não só para aqueles de quem a Igreja cuida diretamente, crianças e adolescentes, mas também para todos aqueles, de novo crianças e adolescentes, que contactam diariamente com membros da Igreja Católica.

No dia 10 de maio, vamos organizar uma jornada de encontro sobre o tema, seguindo uma sugestão do Senhor Presidente da República, quando nos encontrámos em janeiro.

Anunciaram também que iriam organizar uma conferência sobre o tema.

Estamos a preparar para o dia 12 de abril um pequeno tempo de conferência de imprensa, para fazermos um ponto de situação dos três meses de atividade, e continuar a apelar à ajuda e à intervenção da comunicação social na divulgação dos nossos contactos. Depois no dia 10 de maio, vamos organizar uma jornada de encontro sobre o tema, seguindo uma sugestão do Senhor Presidente da República, quando nos encontrámos em janeiro. Podemos confirmar a [sua] presença. Também vamos ter especialistas nacionais e estrangeiros a falar sobre o tema. Temos confirmada a presença do padre Hans Zollner, professor na Universidade Gregoriana de Roma que tem vindo a estudar o tema e, com quem sabemos, Sua Santidade o Papa Francisco tem mantido um contacto muito próximo.

Em que fase do trabalho estão neste momento?

Queremos continuar a aprofundar o bom relacionamento com as dioceses, no sentido de levar, de forma mais próxima e mais ativa, a nossa imagem às paróquias. Como já foi referido, reunimos com o Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, a semana passada. É muito útil manter uma relação de confiança recíproca em relação a este tema. Foi a Igreja Católica que nos pediu para fazer este estudo. Esperamos que a própria Igreja continue, tal como até agora, a colaborar e a envolver-se no sentido de divulgar a nossa mensagem, os nossos contactos, e claro na questão que tem a ver com o acesso e estudo dos arquivos históricos da própria Igreja.

Houve ainda contactos com a CIRP, [Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal], no sentido de pedir a divulgação do nosso trabalho

O que pode adiantar sobre o tema?

Foi proposto e aceite junto da Conferência Episcopal Portuguesa que esse trabalho será feito em coordenação connosco e com a própria Conferência Episcopal, diocese a diocese. A equipa será liderada por Francisco Azevedo Mendes, professor da Universidade do Minho, na área da História, mais especificamente em arquivos, que nos propôs uma metodologia de trabalho e um cronograma, com uma pequena equipa, para levar a cabo, já nos próximos meses.

Houve também contactos com a recém-criada coordenação nacional das comissões diocesanas?

Sim. Em 2019 foram criadas as várias comissões diocesanas que, até agora, têm feito um trabalho importante, embora diferente, diocese a diocese. Com o surgimento da nossa comissão independente, as comissões diocesanas decidiram, e penso que bem, criar uma coordenação nacional das 21 comissões diocesanas e escolheram para presidir a essa coordenação nacional, o Dr. José Souto Moura, que já foi Procurador-geral da República e uma pessoa idónea. Já reunimos com ele e com a equipa para colaborarmos naquilo que for estritamente necessário em relação a estas questões. As comissões diocesanas já estavam presentes antes da nossa existência, continuarão a existir e podem ter um trabalho muito importante, sobretudo na prevenção da repetição dessas situações. Houve ainda contactos com a CIRP, [Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal], no sentido de pedir a divulgação do nosso trabalho junto de todos estes institutos religiosos, e de apurar se têm situações de testemunhos ou denúncias neste campo.

Prevê que o estudo fique concluído no prazo previsto, ou seja, no fim do ano?

É muito difícil responder a essa pergunta. O trabalho tem sido mesmo muito. Temos tentado desdobrar-nos para responder, mas também estamos a manter todo o esforço possível para cumprir com os prazos que nos foram dados e que nós próprios marcámos como data final para a entrega do relatório. Até agora, com muita coisa, estamos a achar que vamos bem, mas ainda estamos em março. Esperamos continuar com este bom ritmo.

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