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Refugiados com incapacidade física ou mental vão ter ajuda em Portugal

14 mar, 2022 - 18:02 • Ângela Roque

Uma plataforma criada no início do mês pelo ‘Movimento Cidadão Diferente (MCD) tem o apoio do governo e da Igreja. “Temos o dever de não deixar ninguém para trás, nem na guerra”, sublinham à Renascença as responsáveis pela Pastoral da Deficiência das dioceses de Lisboa e Porto.

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Isto nasceu de um impulso”. Pai de um jovem adulto com autismo severo, Miguel Azevedo, coordenador do ‘Movimento Cidadão Diferente’ (MCD), conta que foi depois de ver nas notícias uma mãe, refugiada, em total desespero, que resolveu que tinha de fazer alguma coisa. “Ela precisava de um bilhete de comboio para sair de Lviv, na Ucrânia, para a Polónia e não conseguia, porque o filho deficiente estava num dos túneis e ela não conseguia tratar dele, das bagagens e dos bilhetes. Eu olhei para o meu filho e pensei ‘eu teria dificuldades semelhantes, ou piores. Tenho de fazer alguma coisa’ “. E fez.

A Plataforma de apoio aos refugiados ucranianos com necessidades especiais e suas famílias foi criada a 1 de março, e estima vir a ajudar “entre 100 a 200 pessoas” nestas circunstâncias. “É fazer as contas: a ordem de grandeza da população mundial com algum grau de deficiência é à volta dos 10 por cento, e isto é praticamente igual em todos os países. É esse o número que podemos receber em Portugal”, explica à Renascença.

Ao MDC juntaram-se, entre outras associações, a Humanitas (Federação Portuguesa para a Deficiência Mental) e a ANDII (Associação Nacional de Desporto para o Desenvolvimento Intelectual), e ainda os serviços da Pastoral a Pessoas com Deficiência do Patriarcado de Lisboa e da Diocese do Porto, apoio que Miguel Azevedo considera muito importante. “É um conforto que as pastorais nos dão, porque não queremos desintegrar famílias, e estes serviços vão-nos ajudar a incluir estas famílias na comunidade”. E podem também fazer a “ponte” com as estruturas e instituições ligadas à Igreja, “como a Cáritas”.

“Acabámos por criar aqui uma rede de contactos e serviços que ficam disponíveis para estas pessoas, desde lares residenciais, ocupação de tempos livres, apoio técnico, consultas de psicologia, acompanhamento por assistentes pessoais ou sociais. E e até quando precisarem de ajudas técnicas, como cadeiras de rodas ou andarilhos, aquilo que for necessário, dentro da rede temos disponível”, conta Miguel Azevedo.

Apesar da Plataforma ter sido impulsionada por associações ligadas à deficiência mental, não vão ajudar só a este nível. “Aliás, já nos apareceu a necessidade de uma cadeira de rodas, uma pessoa que tem incapacidade física, e encaminhámos para a rede de contactos que já existe”.

Este responsável garante que a ideia da Plataforma foi muito bem acolhida por outras instituições e pelo próprio governo. “Temos o apoio da Secretária de Estado para a Inclusão, Ana Sofia Antunes, dando cobertura a toda esta rede. Porque se nos surgirem questões para lares residenciais, ou outro tipo de respostas sociais, é preciso ter o aval da Segurança Social, e já há essa disponibilidade. E isso é bastante importante para que esta Plataforma informal tenha uma cobertura legal”, explica.

Todos os casos que vão surgindo são sinalizados ao Alto Comissariado para as Migrações, “para as pessoas serem identificadas e saberem onde é que elas estão, porque é importante haver estes registos”. E estão a tentar “chegar com mais capilaridade de informação às pessoas”, por exemplo, “junto das que estão a ir para a Polónia levar mantimentos, ou através de outras organizações internacionais, como a Autism Europe a Inclusion Europe, que são plataformas europeias que também estão a amplificar todos estes apoios que existem nos vários países”.

Em breve haverá um formulário para que os casos que possam vir a precisar cá de ajuda possam ser inscritos, para se avançar com o processo. “A partir de amanhã (terça-feira) já estará em todos os sites e redes sociais do MCD e dos nossos parceiros”, garante.

“Acima de tudo o que queremos é que as pessoas ao chegarem a Portugal, além de se sentirem acolhidas, sintam que têm uma resposta inclusiva para os seus filhos ou netos com deficiência. Porque, a inclusão que queremos para os nossos filhos aqui em Portugal, também queremos facilitá-la a estas pessoas que chegam”, sublinha Miguel Azevedo, para quem a preocupação para com os refugiados com deficiência não é de agora. “Quando houve a vaga de refugiados do Afeganistão, no MCD escrevemos uma carta aberta ao Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a lembrá-lo da necessidade de proteção desta população tão vulnerável, seja por dificuldade de mobilidade ou por sofrerem de deficiência intelectual, muitas vezes nem conseguem comunicar e são completamente esquecidos”.

“Não deixar ninguém para trás”

A criação da Plataforma é apoiada pelo Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência do Patriarcado de Lisboa. À Renascença Carmo Dinis explica que não podia ser de outra forma. “Queremos ser uma voz e uma força de acolhimento das pessoas que têm mais dificuldade em chegar cá e mais dificuldade em se instalar num sitio novo. Muitas pessoas com deficiência - nós sabemos, já vimos nas notícias - estão a ser deixadas para trás por falta de condições, seja de ajudas técnicas, seja de outro nível, e a Igreja, todos nós, temos o dever de trabalhar para que não fique ninguém para trás. É o principal mote. No serviço temos esta responsabilidade de apoio às pessoas com deficiência que estão em risco ou em perigo, não permitir que fiquem para trás, nem na guerra”, sublinha.

Joana Morais e Castro, da Pastoral a Pessoas com Deficiência da diocese do Porto, subscreve, e fala da importância que o apoio deste serviço da Igreja pode significar para a própria Plataforma, agilizando contactos. “Somos o garante que conseguimos chegar aos serviços paroquiais e da Igreja, para todo o tipo de apoios que sejam necessários às pessoas com deficiência, até eventualmente a integração na escola, a questão da saúde, terapias, atividades ocupacionais, materiais de suporte que sejam necessários, na questão da mobilidade reduzida”. E acrescenta: “isto não é uma escolha, é mais do que dever nosso. As pessoas com deficiência são as mais vulneráveis dos vulneráveis neste momento, e onde podermos estar presente e fazer-nos presentes, estaremos”.

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