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​Dia Mundial da Paz. Mensagem do Papa é de leitura e aplicação “obrigatórias”

01 jan, 2022 - 09:33 • Ângela Roque

A atualidade e pertinência das propostas de Francisco não devia passar ao lado dos políticos, diz à Renascença o padre Tony Neves, para quem investir menos em armas e mais em educação é uma das chaves para o desenvolvimento, que é urgente pôr em prática.

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A luta contra a pandemia vai continuar a ser o grande desafio em 2022, ao qual tem de se responder com mais “fraternidade” e “solidariedade”, diz o padre Tony Neves.

Em entrevista à Renascença a partir de Roma, o missionário português - que integra o governo geral dos Espiritanos - olha para o atual momento na Igreja, e recomenda a todos, mas sobretudo a quem tem poder de decisão, a leitura atenta da mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz.

Como é que perspetiva este novo ano? Quais são os principais desafios que se avizinham?

2022 tem pela frente uma série de combates. O primeiro é este da pandemia: temos de acabar com ela, senão ela acaba connosco, e isso implica darmos as mãos, implica deitar fora muitas “fake news” que circulam e que fazem com que à escala mundial as pessoas comecem a ter medo da vacina, a desconfiar que o combate à pandemia não está a ser bem conduzido, e isso tem sempre o efeito terrível das pessoas desmazelarem o combate, e vão aparecendo novas estirpes e variantes que serão cada vez mais duras.

A economia está destruída e temos outras linhas de destruição que estão a seguir a crise pandémica, por isso essa tem de ser a primeira linha de ataque. Depois, e até para que essa linha de ataque funcione, temos de aumentar os nossos índices de fraternidade e solidariedade. O Norte e o Sul não estão a colaborar, boa parte do Sul não está nem sequer a ser vacinado, nem a primeira dose tem, quanto mais pensar numa terceira, como nós já vamos tendo. Essa para mim é outra linha de combate.

Sugeria, ainda, aos governantes, a quem tem de mandar, e a todos, que tomássemos a sério os três caminhos da paz que o Papa Francisco propõe na mensagem para o Dia Mundial da Paz.


Esses caminhos são o diálogo entre gerações, a educação e o trabalho digno. São as prioridades no contexto em que nos encontramos?

São, de facto, muito importantes. O primeiro caminho é o diálogo entre gerações, e estamos a ver que esta luta contra a pandemia veio pôr em relevo um problema muito sério: continuamos a ter uma geração mais idosa que morre mais, que é mais vítima da pandemia, que está mais isolada, e por outro lado temos uma geração mais nova que nesta altura também está a ser bastante contaminada, mas porque não sente os efeitos que sentem os mais velhos, não toma tão a sério o combate à pandemia, e notamos que muitos estão a tentar fazer a vida que faziam há três anos atrás, o que faz aumentar o número de novos contaminados e vai prejudicar por ricochete as gerações mais velhas. Mas, o Papa na mensagem diz outra coisa importante, que com esta pandemia a economia ficou tão desestruturada que os mais jovens não veem caminhos de futuro, e isso também desestabiliza.

A segunda grande questão é a da educação, e o Papa acaba por remeter para o famoso 'Pacto Global', apresentado em 2020, que põe a família ao centro, quer uma nova ordem económica - ou seja, uma nova forma de organizar a economia e a sociedade – e onde as questões ecológicas estão muito presentes.

O terceiro caminho para a paz tem a ver com o trabalho. O Papa diz que é preciso trabalho digno, estável, que as pessoas ganhem a sua vida com o suor do rosto, mas tenham condições, não sejam exploradas. Fala, ainda, do ataque que a pandemia fez à economia, sobretudo à economia informal, que afeta sobretudo os mais fracos, e particularmente o mundo migrante. O Papa diz que um terço da população mundial em idade laboral não tem um sistema de proteção social a funcionar.

Depois, o Papa denuncia ainda que os governos estão a desinvestir na educação, mas estão a investir cada vez mais em armamento, e diz 'temos de inverter isto' - é mais educação, menos armas, porque isso iria ajudar a combater uma violência que é cada vez mais estrutural nas nossas sociedades, o crime organizado que toma conta de muitas linhas laborais e mesmo governamentais.

Se formos capazes de apostar na abertura dessas três grandes estradas - diálogo entre gerações, educação e trabalho - o mundo será melhor, e eu proponho isto como um projeto de vida para 2022.

Esta é, de facto, uma mensagem muito abrangente nos temas que toca e que se relacionam todos entre si. Devia ser de leitura obrigatória para os políticos?

Sim, sim. De leitura obrigatória, e não só de leitura, porque o nosso grande problema é que lemos muito, mas depois não tiramos as consequências práticas. Uma mensagem como esta dá linhas, é verdade, faz refletir e aponta caminhos, mas isso não chega, temos de passar à etapa seguinte, que é mais dura e pragmática: nós temos de pôr em prática estas grandes ideias.

Fiz um estudo, por estes dias, sobre as mensagens dos Papas para o Dia Mundial da Paz, e é interessante reparar que esta já é a 55.ª mensagem. Quando o Papa Paulo VI quis lançá-la, a 8 de dezembro de 1967, disse 'espero que esta mensagem tenha dois objetivos: que seja praticada, e que não acabe aqui, que seja para o primeiro dia do ano e seja para continuar’. Por um lado fizeram a vontade a Paulo VI, porque já vamos na 55ª, mas por outro, acho que a sua aplicação tem sido residual, e sobretudo aqueles que têm poder para mudar a história, que são os governos, os governantes, não estão a tomar muito a sério isto que o Papa ano após ano apresenta como um projeto político, um projeto social e também, obviamente, religioso.


Olhando para a vida interna da Igreja, está a decorrer o processo sinodal. Do que tem conhecimento e vai observando, estamos de facto a viver um momento de viragem na Igreja?

Espero que sim, mas mais uma vez a diferença entre o que se diz e o que se faz ainda é grande, temos de encurtar essa distância.

O Papa Francisco, repegando na tradição da Igreja, diz que "a sinodalidae é a identidade da Igreja", mas não tem sido a prática da Igreja. O que eu vou vendo - e eu acompanho aqui, a partir do nosso Conselho Geral, em Roma, 60 países e realidades eclesiais todas muito diferentes umas das outras – é que há sítios onde, de facto, se está a tomar a sério e se está a tentar praticar a sinodalidade, a partir de uma reflexão e de um envolvimento de todos – porque este caminhar em conjunto implica que todos sejam tidos em linha de conta -, mas em alguns países, a começar pelos hierarcas, há um distanciamento. Há muitos líderes da Igreja que acham que isto vem criar mais problemas do que soluções e que estão muito bem a mandar sozinhos, e isso é muito mau.

Temos mesmo de avançar para uma sinodalidade praticada. Somos família, devemos tomar decisões coletivas e devemos praticar. E este é um caminho que tem todo o futuro pela frente e é preciso tomá-lo a sério. Agora, há ainda muitas resistências a destruir, muitos caminhos novos a abrir, mas estou convencido que o futuro está na sinodalidade, pela razão simples de a sinodalidade ser a identidade da Igreja. A Igreja por essência é sinodal, se não for também não é Igreja.

A carta aos casais de todo o mundo que o Papa divulgou a 26 de dezembro, dia da Sagrada Família, também lança desafios para 2022?

É uma carta muito bonita e emblemática, para celebrar os cinco anos da ‘Amoris Laetitia’, neste ano dedicado à família. Lê-se a carta e vê-se que não é só para os esposos, é para a família toda.

O Papa diz coisas importantes: por exemplo, diz que a pandemia fez com que as famílias se encontrassem mais, deu mais tempo para estar em família, mas também permitiu que a violência doméstica pudesse aumentar no seio de outras. Sobretudo mostrou que as famílias não estão todas a viver o mesmo momento, que há famílias felizes, outras destruídas, que há famílias que têm trabalho - e por isso condições para viver com dignidade – e outras não têm pão para dar aos seus filhos.

2022 tem de ser o ano das famílias, cheio de fraternidade, de solidariedade, de amor e de paz, e criando também um ritmo social que ajude as famílias a ter o mínimo de condições para aceder a todos os cuidados básicos de saúde, educação e ter condições de habitação, trabalho, reunir as condições para se viver com dignidade. E, claro, que a família seja também um espaço onde a fé cresce, amadurece, onde se partilha, porque esse também está a ser um problema muito sério em termos cristãos, o de conseguir em família fazer passar testemunho dos valores cristãos em que acreditamos.

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