16 dez, 2021 - 19:09 • Liliana Carona
O bispo da Guarda considera que a sociedade vive um silêncio “ensurdecedor” de Deus. No encontro que convocou para divulgar a Mensagem de Natal, D. Manuel Felício destacou que expressões religiosas e tradições de fé são abolidas por causa de um respeito pela a identidade que destrói as pessoas e os ambientes.
O prelado chamou a atenção para o “silêncio ensurdecedor” que se vive também na diocese da Guarda: “Vivemos hoje, é certo, um silêncio “ensurdecedor” de Deus, quantas vezes promovido por interesses inconfessados, mas não desistimos de permanecer vigilantes para O escutar, também agraciados pela companhia e pela luz do Seu Espírito”, revelou, sublinhando que “vivemos numa sociedade laica, muito desvinculada do religioso e qualquer expressão de fé se deve eliminar. Quando queremos nivelar as coisas de tal maneira que desfaçamos todas as identidades, estamos a destruir as pessoas e os ambientes”, lamenta o bispo da diocese da Guarda.
D. Manuel Felício critica, por outro lado, aqueles para quem “tudo o que se refira a Deus é de eliminar, como se não só tivéssemos respeito pela identidade quando silenciamos as convicções mais profundas das pessoas. Temos de encontrar maneira de conjugar as diferenças. ‘Até logo se Deus quiser’, agora não dizem, referem-se a tradições culturais em vez de tradições religiosas, como a queima do madeiro, que se transformou em tradição cultural, mas é uma manifestação de fé”, garante o prelado. “Sonegamos a sua dimensão de convicções e este silêncio tem a ver com a dificuldade em que a realidade de Deus seja colocada no palco das relações das pessoas”, conclui.
O bispo da Guarda sublinha, ainda, que o tempo de Natal e a preparação do Advento “convidam-nos a fortalecer a atitude da escuta, para ouvirmos e tentarmos compreender tantos dramas instalados à nossa volta, como é o caso de famílias desfeitas ou gente que perdeu o gosto de viver, porque não trabalho, porque se enganou nas escolhas da vida ou não tem condições para fazer aquilo para que se julga mais vocacionado ou simplesmente sente o abandono dos familiares, dos amigos ou da sociedade como tal”. Em suma, “temos obrigação de nos cuidar uns aos outros”.
O prelado assegura que a diocese está atenta a essas dificuldades. “Temos estudantes do IPG em que a alimentação que têm é esta, através do Banco Alimentar, sobretudo dos alunos que vêm do estrangeiro e dos PALOP.
Um africano aparece aqui com uma t-shirt e mais nada e todos os pedidos são atendidos. Mas a questão é mais de fundo, como é que os poderíamos entusiasmar para arranjar um trabalho entre nós e para que se possa fazer um equilíbrio demográfico? Temos de criar condições de vida e as possibilidades não são tantas como isso”, lamenta D. Manuel Felício.
D. Manuel Felício assumiu por diversas vezes o receio que sentia quando pensava no que viriam a revelar os Censos 2021 e os receios concretizaram-se.
“Os últimos Censos revelaram grandes constrangimentos, somos menos em média, entre 5% e 10%, com a agravante de ainda serem bastante menos percentualmente os que trabalham e podem garantir a natalidade que nos falta. Por isso, não nos surpreendem os resultados de estudo recentemente feito na Guarda, segundo o qual, neste momento, as empresas sediadas entre nós, não encontram pessoas que possam recrutar para os seus quadros e por isso, outras que desejariam instalar-se aqui não vêm”, observa D. Manuel Felício, apontando um caminho.
“Eu ainda esta manhã estive a falar com o administrador apostólico de Ciudad Rodrigo e eles passam o mesmo problema e adiantou que talvez haja oportunidades transfronteiriças para inverter a tendência, o teletrabalho está instalado”, considera.
Sobre as celebrações de Natal, D. Manuel Felício defende que “estar 200 pessoas na Sé não será desajustado. As nossas celebrações não têm sido foco de contágio e todas as regras da DGS estão a ser respeitadas”.