Tempo
|
A+ / A-

Comissão quer dar “voz ao silêncio” das vítimas de abusos na Igreja em Portugal

02 dez, 2021 - 15:39 • Ângela Roque, com Ricardo Vieira

Além do pedopsiquiatra Pedro Strecht, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja Católica portuguesa será constituída pelo psiquiatra Daniel Sampaio, o juiz Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares e ainda a cineasta Catarina Vasconcelos.

A+ / A-

O presidente da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja Católica portuguesa (CIEAMI), Pedro Strecht, quer dar “voz ao silêncio” e apela a possíveis vítimas que “ousem falar”.

O pedopsiquiatra Pedro Strecht, em conferência de imprensa realizada esta quinta-feira, deixou um apelo bem claro a todos os que tenham sido abusados, para que denunciem o que lhes aconteceu, mesmo que os casos tenham décadas.

“Apelamos desde já a todas e todos quantos possam ter sido vítimas destes crimes para que ousem falar. Que relatem finalmente e sem medo o que lhes aconteceu, mesmo perante naturais hesitações completamente aceitáveis diante situações pelas quais podem ter passado décadas, tocando agora em assuntos que não desejam fazer emergir.”

“A esses pedimos que confiem na sua própria voz interior e na utilidade de a partilhar, para que daí surja, no mínimo, uma atitude reparadora por parte daqueles que os abusaram, reforçando-lhes a dignidade enquanto pessoas feridas nas mais íntimas experiências das suas vidas”, declarou Pedro Strecht.


A Comissão Independente conta com a ajuda de toda a sociedade civil e garante sigilo às eventuais vítimas.

“A comissão deseja contar com o empenho e disponibilidade de toda a sociedade civil, nomeadamente daquelas e daqueles que no passado tenham sido alvo de abusos sexuais no seio da Igreja Católica portuguesa, enquanto menores de idade, seguindo um lema que para nós é fundamental de dar voz ao silêncio. Para tal, garante-se um absoluto respeito e sigilo pessoal e profissional sobre a história de vida traumática de toda e qualquer pessoa que nos venha a contactar.”

Além do pedopsiquiatra, a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos de Menores na Igreja Católica portuguesa será constituída pelo psiquiatra Daniel Sampaio, o juiz conselheiro e antigo ministro da justiça Laborinho Lúcio, a socióloga Ana Nunes de Almeida, a assistente social e terapeuta familiar Filipa Tavares, e ainda a cineasta Catarina Vasconcelos.

Na conferência de imprensa desta quinta-feira, Pedro Strecht diz que não é possível "mudar o passado, mas podemos sempre construir um futuro melhor e livre da repetição deste tipo de situação junto dos nossos filhos, netos ou simplesmente de todas as crianças e adolescentes em que, certamente, podemos rever partes de nós próprios".

Face ao que considerou ser a “saudável onda de interrogação” que nos últimos anos tem crescido na sociedade portuguesa, relativamente a eventuais casos de abuso na Igreja, Pedro Strecht garantiu que a Comissão quer contribuir para a “clarificação inequívoca” das situações que surjam, num trabalho que não será fácil, nem rápido.

A Comissão hoje apresentada poderá vir a integrar mais elementos, se tal se revelar necessário, disse ainda Pedro Strech, sublinhado o que já tinha avançado esta quinta-feira à Renascença, que esperam ter um relatório concluído no final de 2022.

"Ir ao encontro das pessoas que sofreram estes dramas"

Na sua intervenção, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. José Ornelas, agradeceu a Pedro Strecht a disponibilidade para liderar a CIEAMI e abraçar esta missão.

D. José Ornelas recordou o caminho prosseguido nos últimos anos na Igreja Católica de combate aos abusos, nomeadamente através da criação de comissões de proteção de menores e de critérios e protocolos de atenção, de prevenção e de intervenção para cada Diocese e para as suas instituições.

“A continuação deste caminho e as transformações que forem necessárias têm de partir do conhecimento da realidade em que nos movemos, de modo a encontrar os métodos mais acertados e as soluções e profilaxias que se impõem. É com esse propósito que surge esta Comissão Independente de Estudo”, sublinha o também bispo de Setúbal.

“Posso afirmar, com toda a clareza, que é essa realidade que pretendemos conhecer, nas suas dimensões, mas também e sobretudo nos dramas que esconde, a fim de que que se possa ir ao encontro das pessoas que sofreram estes dramas, oferecendo a oportunidade de ter vez e voz, para verem reconhecida a sua justiça e a sua dignidade. É por essas pessoas que empreendemos este caminho e elas são a razão de ser fundamental da Comissão”, afirma D. José Ornelas.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • Thereza Ameal
    04 dez, 2021 Lisboa 14:59
    Meu Deus... Não sei como se faz uma coisa destas minimamente justa. É super importante dar voz a quem foi abusado (e punir duramente qualquer abusador!). Mas não vejo como defender o bom nome de inocentes perante acusações sem provas anos e anos depois (qualquer pessoa desequilibrada, ou com ódio à Igreja, ou com desejo de protagonismo, diz o que quiser). E parece-me essencial colocar as situações no seu tempo. Quando eu era jovem, levar um assobio na rua era um piropo que fazia bem ao ego. Hoje seria um assédio. Levar uma reguada na escola era sinal de má ortografia. Hoje seria abuso de menores. Eu levei alguns poucos assobios e algumas poucas reguadas, mas sei perfeitamente que nunca fui nem assediada nem abusada. Mas se decidisse queixar-me (neste caso de professores, não de padres), ainda podia sujar o nome de alguém. Que tristeza que isto seja sequer necessário, não há palavas para a dor e a revolta perante esta ignomínia. Gostaria de ver as Ordens dos Médicos, as FENPROFs, outras igrejas e instituições fazerem o mesmo processo que a Igreja Católica está a fazer agora, mas agradeço por não fazer parte duma Comissão deste género! Rezo por todos, e sobretudo rezo para que se faça verdadeira Justiça.

Destaques V+