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Moçambique

Bispo de Pemba espera que intervenção militar estrangeira defenda direitos humanos

15 jul, 2021 - 19:24 • Henrique Cunha

Em entrevista à Renascença, D. António Juliasse Sandramo renova o apelo para que a comunidade internacional não deixe de ajudar a população deslocada. O bispo afirma que na região de Palma, onde ocorreu um forte ataque terrorista em março, prosseguem os incidentes e estima que o número de deslocados já ultrapassa os 800 mil.

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O bispo de Pemba, D. António Juliasse Sandramo, espera que a intervenção militar externa em Moçambique “não traga mais dificuldades no respeito pelos direitos humanos”.

D. António Juliasse Sandramo revela, em entrevista à Renascença, que “ainda não são visíveis no terreno” as forças de segurança ruandesas, compostas por mil militares e polícias, que se encontram no país desde a semana passada, depois do Governo de Filipe Nyusi ter aceitado ajuda.

O bispo espera que “esse tipo de intervenção de forças de outros países não traga mais dificuldades em termos de respeito aos direitos humanos; e que pelo contrário nos ajude cada vez mais a encontrar caminhos para pôr fim a este tipo de violência terrorista”.

O prelado acredita que o “Governo moçambicano vai dando sinais e vai aprofundando e compreendendo os contornos do conflito”, e também vai “tentando encontrar luzes e decisões para dar resposta contra esta violência que se vive aqui em Cabo Delgado”.

Portugal deu alerta, terror subsiste

O bispo valoriza o papel de Portugal na sensibilização da comunidade internacional para o problema.

D. António Juliasse Sandramo entende que “foi a partir de Portugal que a Europa tomou conta da dimensão do problema que existe em Cabo Delgado”.

“De Portugal, Moçambique não recebe apenas apoios materiais, mas está também a receber este tipo de apoio de um povo irmão que sofre quando escuta as noticias de Moçambique e leva também esta emoção de sofrimento”, diz o bispo, ao mesmo tempo que sublinha que “Portugal tem feito muito bem a sua intervenção na União Europeia e também no terreno sobretudo para o treinamento das forças armadas no terreno”. “Este é um bom caminho”, garante.

De acordo com o bispo de Pemba, ainda subsistem ataques terroristas, sobretudo, na zona de Palma.


D. António Juliasse Sandramo relata mesmo a morte de um dos animadores da comunidade cristã local. “Nós tínhamos lá membros das comunidades cristãs e chegaram notícias de que um dos animadores, um dos responsáveis de uma comunidade cristã foi morto, num dos ataques”, revela.

Nesta altura, e de acordo com os cálculos do bispo de Pemba, serão já mais de 800 mil os deslocados na região. Por isso insiste no apelo à ajuda internacional: “temos lançado o apelo e renovo-o através da Rádio Renascença para que a solidariedade para com Cabo Delgado continue porque há imensa pessoas com necessidades básicas não resolvidas”.

O bispo sustenta que “qualquer tipo de ajuda em fundos para se comprar alimentação vai ser muito útil neste sentido”, até porque “a questão da alimentação não se resolve facilmente, pois as pessoas comem hoje e precisam comer nos próximos dias; não é alguma coisa que se oferece de uma só vez e acabou”.

Igreja anseia pelo regresso à evangelização

O bispo de Pemba anseia pelo momento em que a Igreja local possa voltar a desenvolver o seu trabalho de evangelização. D. António Juliasse Sandramo diz que, por agora, “a Diocese está sobretudo voltada para o apoio humanitário”.

Depois, a Igreja está atenta às dificuldades de integração dos deslocados e D. António Juliasse Sandramo fala da necessidade de se “combater um certo discurso em que se fala de nós e eles” e que demonstra “tensão entre deslocados e população que já residia nos locais de reassentamento”. O bispo entende que esse trabalho é fundamental “para evitar nova violência no futuro”.

O “mundo está próximo de Cabo Delgado”, mas não nega a necessidade da manutenção do apoio internacional.


D. António adianta que “há muitas organizações humanitárias em Cabo Delgado”, mas considera que “a resposta ainda não é suficiente” até porque “os apoios que elas recebem são limitados e a situação humanitária poderá continuar por muito mais tempo”.

“É preciso que esta solidariedade continue a vir e que se desperte mais pessoas para o apoio a tantos destes irmãos que perderam as suas casas e as suas terras e que ficaram com o coração despedaçado por terem testemunhado violências horríveis”, sublinha.

Apesar da instabilidade e da manutenção de incidentes pontuais sobretudo em Palma, o bispo de Pemba entende que, por agora, não se justifica ponderar a possibilidade de a Igreja abandonar Cabo Delgado, até porque “no momento em que falamos a situação aqui em Pemba é calma”.

O bispo acredita que nesta altura já haverá mais de 800 mil deslocados e reafirma que “Há ainda um número considerável de crianças por localizar”.

“Penso que ainda vai levar muito tempo para se tentar saber qual o paradeiro destas crianças. Há notícias de que algumas podem ter sido capturadas pelos insurgentes, e admite-se também que outras possam estar em campos de reassentamentos onde ainda não se fez a localização de outros membros da família”, conclui.

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