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Bispo do Porto. "O populismo vai ser um cancro, um vírus com o qual vamos ter de nos confrontar nas próximas décadas"

02 jun, 2020 - 22:00 • Pedro Mesquita

"Quando não há uma relação social assente e motivada pelo sentimento humano de colaboração, mesmo na adversidade, os populistas exploram as diferenças entre nós para objetivos que são os deles: a curto prazo, a conquista do poder e, depois, a imposição de uma determinada ideologia", adverte D. Manuel Linda.

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"O populismo vai ser um cancro, um vírus, com o qual vamos ter de nos confrontar nas próximas décadas. Tenho medo dos populismos e a melhor forma de os desarmar é a convivência assente em razões de coração".

A declaração é feita, em entrevista à Renascença, pelo bispo do Porto, D. Manuel Linda, a propósito do filme "A Luz de Judá", que as comunidades católica e judaica do Porto promoveram esta terça-feira.

O filme, que, na prática, resultou num documento verdadeiramente histórico, relata a presença dos judeus do Porto até à expulsão, no final do séc. XV, e o seu regresso, no séc. XX. Testemunha, também, a boa convivência entre as duas comunidades.

O filme - cuja receita reverte integralmente para instituições que apoiam as pessoas mais afetadas pela pandemia - é precisamente o ponto de partida para a entrevista.

Este filme, "A luz de Judá", faz um relato histórico do regresso da comunidade judaica a Portugal, no século XX e marca também uma aproximação entre as comunidades católica e judaica, no nosso país. Em tempos de pandemia, imagino que a aproximação entre culturas e religiões diferentes assuma uma importância ainda mais decisiva...

Se nós, numa situação normal, devemos dar bom exemplo de convivência, porque as religiões devem assentar numa convivência humana sólida ou alguma coisa falha nelas, numa altura destas todos precisamos de todos muito mais, ainda. Portanto, este filme vem na melhor altura, precisamente quando mais precisamos de dar as mãos em função de um projeto comum, que é também um projeto de ajuda.

É, também, com alguma preocupação, imagino, que vê alguns movimentos populistas a extremarem posições ao nível racial e também religioso. Como olha para esse fenómeno?

Com muita preocupação. De facto, quando não há uma relação social assente e motivada pelo sentimento humano de colaboração, mesmo na adversidade, os populistas exploram as diferenças entre nós para objetivos que são os deles: a curto prazo, a conquista do poder e, depois, a imposição de uma determinada ideologia. O populismo vai ser um cancro, um vírus com o qual vamos ter de nos confrontar nas próximas duas, três ou quatro décadas, não sei. Tudo leva a crer que ele está para durar.

Também entre nós, em Portugal?

O populismo tanto pode ser da extrema-direita como da extrema-esquerda. Os extremos não são só de hoje. O que era o regime de Hitler? Não começou por um populismo extremo? Levam sempre a desfechos perigosos. Tenho medo dos populismos e a melhor forma de os desarmar é a convivência assente em razões de coração.

"Imagino que o nosso governo terá capacidade para descobrir critérios justos para que, efetivamente, esse dinheiro chegue efetivamente a todos" - D. Manuel Linda

Estamos quase no pós-pandemia. Portugal, o mundo inteiro, está preocupado com as consequências económicas, mas, de repente, fala-se de um "eurobiliões" que poderá chegar a Portugal, nos próximos tempos. O senhor bispo está preocupado com a forma como esse dinheiro poderá ser distribuído? Só a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, no Porto, distribuía, antes da pandemia, cerca de 150 refeições a pessoas necessitadas e, agora, já vai em mais de 400...

Eu não sou técnico para conhecer os critérios da distribuição desse dinheirão, mas imagino que o nosso governo - em contexto de diálogo com os principais parceiros sociais, que são quem está no terreno, e também a Igreja, porque não? - terá capacidade para descobrir critérios justos para que, efetivamente, esse dinheiro chegue a todos. É preciso relançar a economia, recriar o emprego, criar condições de segurança para que o turismo regresse. Estou convencido de que todos os parceiros sociais deveriam ser chamados a ver como aplicar, justamente, aquele dinheiro que, segundo se diz, será realmente em quantidade muito grande.

E é, essencialmente, esse "alicerce humano", que sofreu muito com a pandemia, que perdeu empregos, que deve ser a prioridade, é preciso apoiar essas pessoas...

Eu creio que hoje mesmo um jornal dizia que já vão em 100 mil os empregos perdidos pela Covid-19. Se isto permanecer durante mais dois ou três meses, este número de certeza vai multiplicar. Uma das prioridades - não será a única -, mas uma das principais é relançar a economia para que o emprego possa ressurgir outra vez.

Está confiante?

Estou. Vamos ver o mês de Julho. Eu, que não sou técnico nem futurologista, costumo dizer que, se o mês de Julho, com o futebol e as pessoas a pensarem outra vez nos bons resultados das suas equipas (riso), com outras noticias que venham e se diminuir o numero de infeções e de mortes, estou convencido de que nós esquecemos a pandemia. E, então, imediatamente o turismo funciona, a economia volta a estar presente na sociedade. Os restaurantes, os cafés e os 'snack-bar' reabrem e o emprego recria-se. Isto é, tenho uma suposição interna de que tudo depende um bocadinho do mês de Julho. Vamos ver, se ele nos ajuda.

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  • 05 jun, 2020 19:02
    D. Manuel Linda esteve quasi lá. Escolheu o pc. As prácticas políticas e sociais existem desde o início da humanidade. E variam em cada geração porque ninguém estará satisfeito com as normas em que foi criado — isto é duas a três vezes por século. O populismo sempre existiu; como outras ideias consideradas desagradáveis. Não são doenças, cancros nem pandemias. No Séc. XX houve crises graves criadas pelas humanas alternâncias. Devemos trabalhar para que estas alternâncias sejam suaves e não motivos de guerra.
  • Ivo Pestana
    03 jun, 2020 Funchal 20:27
    Pois é, não se promete o que não se pode cumprir, os populistas depois entram em acção.

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