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Entrevista Renascença/Ecclesia

Só razões sociais podem levar ao adiamento de casamentos, diz D. José Cordeiro

29 mai, 2020 - 07:00 • Henrique Cunha (Renascença) e Paulo Rocha (Ecclesia)

Presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade lembra que as orientações da Conferência Episcopal para o regresso das celebrações comunitárias “estavam prontas e foram aprovadas no dia 8 de maio”, mas as circunstâncias que exigem “prudência e segurança”. D. José Cordeiro abre a porta a procissões e outras celebrações. O bispo não exclui, por exemplo, “haver de um modo contido” a procissão do Corpo de Deus.

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Só razões sociais podem levar ao adiamento de casamentos e batismos, diz D. José Cordeiro
Só razões sociais podem levar ao adiamento de casamentos e batismos, diz D. José Cordeiro
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O presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade, D. José Cordeiro, diz que só razões sociais podem levar ao adiamento dos casamentos ou batizados previstos para os próximos meses.

Em entrevista à Renascença e agência Ecclesia, D. José Cordeiro lembra que foi o momento crítico que, por agora está ultrapassado, que originou muitas suspensões e adiamentos.

O bispo de Bragança-Miranda deixa a pergunta retórica: “mas a razão do adiamento é uma razão de fé ou uma razão social?” Para mais à frente lembrar que “o adiamento foi, se calhar, num momento critico desta pandemia” de Covid-19.

“Mesmo as orientações [da Conferência Episcopal Portuguesa] dizem que é no contexto da pandemia. Se ela passar em breve, como todos nós auguramos, deixa de haver razões”, sublinha o prelado, ao mesmo tempo que reforça a ideia de que o adiamento “de muitos casos” que conhece “é porque o sacramento do batismo, as primeiras comunhões, o sacramento do matrimónio, passaram a ser um ato social”.

Um regresso responsável que “todos queríamos que acontecesse mais cedo”

No regresso das celebrações comunitárias, o também bispo de Bragança-Miranda diz que a “primeira palavra que nós procuramos transmitir, em cada diocese e como Conferência Episcopal Portuguesa, é a da confiança, da serenidade”.

Admite que é de esperar “muita criatividade, muita maneira nova de fazer as coisas”, sem, contudo, pensar em “fazê-las como há dois meses, nem o ano passado”, sobretudo, “no que respeita às festas, procissões, expressões da piedade popular”, mas “não devemos deixar de as fazer”.

De acordo com D. José Cordeiro, para a Igreja “é uma questão decisiva até na coesão social e coesão territorial”, mas as celebrações religiosas devem ser feitas “com segurança, com dignidade, com a solenidade possível.

“E atrevo-me a dizer: devem ser feitas porque nós vivemos de símbolos e sabemos que ao longo da história, nas outras épocas culturais, o medo criou deuses”. Devem ser feitas “até em coerência com outras coisas da vida quotidiana que já estão a acontecer”, sublinha.

O bispo admite que “todos queríamos que acontecesse mais cedo” e que ele próprio também se incluiu no conjunto dos “gostariam que tivessem começado bem mais cedo”. Faz questão de recordar que as orientações da CEP “estavam prontas e foram aprovadas no dia 8 de maio”. “Mas são as próprias circunstâncias deste contexto, na prudência e na segurança quisemos começar, como corpo, conjuntamente”, sublinha D. José Cordeiro.

No momento do regresso das missas presenciais, o presidente da Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade pede também muita corresponsabilidade, lembrando que “com a Liturgia não se brinca”.

Sugere "a criação de uma harmonia" em que coabitem o "bom senso humano e pastoral". “Teremos de, pelo menos neste primeiro tempo das celebrações litúrgicas comunitárias, de sermos muito corresponsáveis”, refere o bispo de Bragança-Miranda, ao mesmo tempo que recorda que as experiências até agora são muito positivas”, pelo que “não vamos criar problemas onde eles não existem”.

Sábado é dia de teste

D. José Cordeiro aponta o próximo sábado como “o nosso grande teste” quanto ao regresso das celebrações, e manifesta confiança dizendo “acreditar na competência, na inteligência, no bom senso de todos nós”, pois “as pessoas têm uma grande consciência da gravidade da situação que estamos a viver”.

O bispo admite como muito difícil gerir a possibilidade de alguém não ter acesso à Eucaristia por lotação do espaço. “Deus queira que não venha a acontecer isso”, desabafa.

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Normas da DGS. Bispo rejeita interferência

A Direção Geral da Saúde (DGS) criou um conjunto de normas para o regresso das missas e deu mesmo indicações da forma como os fiéis devem comungar.

D. José Cordeiro garante que não houve interferência. Os cartazes com as orientações da DGS “são meramente indicativos" pois “cada um na sua paróquia e diocese pode adaptá-los”, explica.

O bispo sublinha que, “desde o início da pandemia, nós dissemos que estávamos na inteira colaboração recíproca com as autoridades civis e sanitárias, como sempre estivemos”. “Não há aqui nenhuma interferência de nada, nem de ninguém”, garante.

“O que está em causa é um diálogo para um bem maior; queremos que ninguém se contagie no âmbito de uma celebração litúrgica comunitária”, frisa D. José Cordeiro.

O bispo reconhece e compreende “o cansaço, o desgaste, até na perspetiva de querer recomeçar mais cedo, mas vamos começar de novo e isso exige de todos uma atitude de conversão”. “Tinha de haver estas linhas-guias, numa colaboração muito estreita com as autoridades civis e sanitárias”, diz o bispo, ao mesmo tempo que reforça a ideia:nós queremos ser bons cristãos e honestos cidadãos”.

A indicação é para que se comungue na mão, mas o bispo não exclui outras possibilidades, até porque “ninguém deixará de receber a comunhão; pois todos têm acesso à comunhão”. O recurso a outras formas para comungar “exigirá também um maior esforço e cada um tem de tomar isto muito a sério”.

Peregrinações, procissões, romarias podem regressar de forma mais segura e criativa

O regresso das celebrações religiosas com a presença de fiéis surge em fim de semana de solenidade de Pentecostes e coincide, também, com o encerramento do mês de Maria. E aí terá que “haver mais alguma cautela", adverte o bispo de Bragança-Miranda.

O dia de Pentecostes coincide com o último dia do mês da Mãe e do mês de maio. Aí terá que haver “mais alguma cautela nas manifestações possíveis de rua, no diálogo com as autoridades civis, as autoridades de segurança, as autoridades sanitárias, para que não se facilite, para que não se corram riscos, mas que não se deixe de celebrar e que nada se deixe de celebrar por medo ao medo”.

Neste contexto, D. José Cordeiro não exclui a possibilidade de peregrinações, procissões, festas e romarias poderem vir a ser retomadas nos próximos tempos.

O bispo lembra que “as orientações da Conferência Episcopal sugeriam que permanecessem suspensas até novas orientações” e revela que “novas orientações” podem surgir “localmente” e que “também a Assembleia Plenária (da CEP), em breve, e conjuntamente encontrará formas criativas” de celebrar.

D. José Cordeiro defende que “não se pode seguir a lógica do ‘não’, tem de ser um ‘sim’ responsável, criativo, de vida”. E a nível diocesano “teremos de encontrar as formas mais seguras e mais criativas, expressivas da nossa fé, sob pena de sermos vítimas de nós próprios, isto é, de andarmos com a cara nas nuvens, que muda a forma e o perfil segundo o vento”.

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