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Exposição no Santuário celebra centenário da imagem de Fátima

29 nov, 2019 - 17:00 • Maria João Costa (texto e fotos)

"Vestida de Branco" é a exposição que, até 15 de outubro de 2020, celebra os 100 anos da primeira escultura de Nossa Senhora de Fátima.

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"É um dos ícones mais importantes do catolicismo actual" – é assim que o comissário da exposição ‘Vestida de Branco’, Marco Daniel Duarte,descreve a imagem original de Nossa Senhora de Fátima, cujo centenário é agora celebrado numa exposição que abre ao público dia 30 de novembro, no Santuário de Fátima.

A mostra, patente até 15 de outubro de 2020, é de entrada livre e reúne cerca de 150 peças vindas de todo o país, de várias coleções públicas e privadas. "Pretende olhar para a imagem de Nossa Senhora de Fátima, que se venera na Capelinha das Aparições, e entender a razão pela qual ela se torna numa das imagens mais importantes da história do cristianismo", explica o comissário numa visita guiada que fez à Renascença.

Na sala ‘Convivium de Santo Agostinho’, da Basílica da Santíssima Trindade, a exposição recorda, logo na entrada, as palavras da vidente de Fátima, a irmã Lúcia, que a 8 de Julho de 1924, quando questionada sobre como estava vestida a Senhora, respondeu; “estava vestida de branco". Esta é a frase que dá o título a esta exposição que leva o visitante a descobrir pormenores sobre a história da primeira escultura da Virgem de Fátima.

Sabe como surgiu a escultura de Nossa Senhora de Fátima?

"A primeira representação da Virgem de Fátima acontece logo em 1917, no dia do milagre do sol, quando o devoto de Torres Novas, Gilberto Fernandes dos Santos faz umas pagelas com o título ‘Nossa Senhora da Paz’, e apresenta a primeira representação da aparição. São os pastorinhos em baixo e uma representação de Maria em cima", conta Marco Daniel Duarte que traz consigo um exemplar dessa pagela - já de papel amarelecido pelo tempo - que saiu dos arquivos do Santuário de Fátima para esta exposição.

O comissário, que é também diretor do Museu do Santuário de Fátima, recorda que na altura não havia ainda um "modelo de Nossa Senhora de Fátima". Para essas pagelas Gilberto Fernandes dos Santos “vai buscar a fotografia da escultura da Imaculada Conceição que se venera na Sé de Leiria. Até 1920, não há qualquer representação na Capela das Aparições" explica Marco Daniel Duarte.

Esta história, agora contada na nova exposição do Santuário, revela também como foi a oficina artesanal da escultura. "Em novembro de 1919, Gilberto Fernandes dos Santos já estava a tentar encontrar uma imagem que pudesse corresponder às descrições dos videntes". Chegou a ir “a Lisboa, a uma loja de arte sacra, e não encontra nenhuma parecida, então resolve encomendar uma escultura à Casa Fânzeres, de Braga”.

A obra é entregue ao santeiro José Ferreira Thedim, que "sem contar, torna-se o autor de um dos mais importantes símbolos do cristianismo actual", refere Marco Daniel Duarte. Na altura, este santeiro não falou com os pastorinhos, mas os seus relatos chegaram-lhe através do padre Manuel Nunes Formigão, que interrogou os videntes. Thedim "apoia-se num catálogo, onde aparecia a imagem de Nossa Senhora da Lapa [venerada em Ponte Lima], que em alguns traços correspondia às descrições dos videntes", explica ainda à Renascença o especialista de arte.

Na exposição estão, lado a lado, a imagem da Senhora da Lapa e a de Fátima. O comissário aponta, por isso, as diferenças. "Aquilo que vai acontecer é depurar-se a imagem. Tira-se o Menino e os anjos da nuvem". Marco Daniel Duarte que fala em "inovação", e admite que se "deve a Fátima a criação de um tipo figurativo de Nossa Senhora, que não existia. É esta imagem toda branca, de mãos postas em oração, que se transforma neste símbolo de Paz, que a imagem tem quando sai nas procissões e quando está na Capelinha das Aparições."

A imagem, com 1,04 metros de altura, foi esculpida em cedro do Brasil e transportada para Fátima num baú de madeira que também pode ser visto na exposição. A imagem chegou à Cova da Iria em maio de 1920, mas "porque estavam proibidas as manifestações religiosas", ficou então na igreja Paroquial de Fátima. Só um mês depois foi levada para a Capelinha construída em 1919, e onde permanece até hoje, salvo raras viagens que fez, três delas ao Vaticano.

Fátima e o ‘bispo vestido de branco’

"Quando os Papas querem em Roma uma imagem que simbolize todo o culto mariano no mundo, é esta a imagem que pedem" lembra Marco Daniel Duarte. O comissário da exposição ‘Vestida de Branco’ fala à Renascença da ligação que a imagem de Fátima teve, e tem, até hoje com os Papas.

A escultura, que pesa 19 quilos, foi solenemente coroada a 13 de maio de 1946. A coroa da "rainha da paz", como lhe chama Marco Daniel Duarte, recebeu em 1989 a bala extraída do corpo do Papa São João Paulo II, após o atentado em Roma, a 13 de maio de 1981. João Paulo II, que chegou a encontrar-se com a Irmã Lúcia, e que veio a Fátima por três vezes (1982, 1991 e 2000), ofereceu o projétil a Nossa Senhora a 26 de maio de 1984.

A exposição termina com o visitante a passar entre vários mantos brancos, e a olhar de frente para a imagem de Nossa Senhora da Boa Estrela, também conhecida como Nossa Senhora dos Pastores. Este molde em gesso da imagem mais alta de Maria, colocada em Portugal no alto da Serra da Estrela, é vista na exposição ao mesmo tempo que são recordadas as palavras do Papa Francisco: “Temos Mãe" repetiu por três vezes, quando visitou Fátima a 13 de maio de 2017, no âmbito das comemorações do centenário das Aparições.

"Esta ligação da temática da maternidade à imagem da Virgem de Fátima parece-nos muito importante" destaca o comissário da exposição, para quem “tudo somado, depois de toda esta reflexão, parece-nos que é o que o crente sente na Capelinha das Aparições. Tem ali a imagem materna, de uma mãe que está disposta a ouvir, a acolher e a proteger”.

A imagem de Fátima pelos olhos de artistas portugueses contemporâneos

A imagem de Fátima tem "um vigor plástico", aponta Marco Daniel Duarte, que para esta exposição desafiou vários artistas portugueses contemporâneos a criarem obras para serem mostradas ao público.

"Esta exposição, para além de ter os testemunhos do passado, pretende também ela própria dar início a representações novas da figura da Virgem, por isso desafiámos alguns artistas contemporâneos a partir de um protocolo de colaboração com a Sociedade Nacional de Belas Artes", explica o comissário, que deu a cada um dos artistas "um tema a partir dos símbolos marianos".

Nas paredes da exposição estão, por isso, obras de Pedro Calapez, Sofia Areal, Cristina Ataíde, Ana Lima Neto ou Emília Nadal, que nas palavras do responsável da exposição "fazem uma representação inusitada" mas que "mostra de forma clara, como a igreja, em cada época, chama os melhores para representar aquela que considera sempre a mais bela das Criaturas."

A imagem original na exposição

Organizada pelo Santuário, a exposição ‘Vestida de Branco’ contou com diversas colaborações, sem as quais não seria possível esta mostra. "A imagem mais antiga é uma escultura românica do século XIV que foi cedida pelo Museu Grão Vasco, de Viseu, e a mais recente é uma peça do arquiteto Líbano Monteiro, que vem de uma paróquia [Igreja da Anunciação, Póvoa de Santo Adrião]”.

Além de obras do acervo do Santuário e de outros museus de Fátima, como o da Consolata, há também peças do museu de Lamego ou do de Soares dos Reis, e o contributo de "colecionadores particulares”, que ao serem contactados se dispuseram a ceder peças “a título de empréstimo", refere Marco Daniel Duarte. São também inúmeras as contribuições de paróquias e arquivos de todo o país, bem como da Misericórdia e autarquias.

Na exposição não está, pelo menos para já, a imagem original, a escultura de Nossa Senhora de Fátima. Contudo, "a protagonista desta exposição" não poderia faltar. "O Santuário não pode retirá-la do culto, porque iria defraudar todos aqueles que vêm à Cova da Iria" , mas a imagem vai estar “durante umas horas” na exposição, garante o comissário. “Será no dia 13 de Junho de 2020, precisamente nos cem anos da sua chegada à este lugar”, Durante a manhã estará nas celebrações religiosas, mas na parte da tarde “vai estar no núcleo que lhe corresponde nesta exposição”.

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