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Sínodo da Amazónia

À procura de novos ministérios “e até de uma nova maneira de ser sacerdote”

01 out, 2019 - 14:04 • Ângela Roque

O padre Joaquim Fonseca já passou mais de 40 anos em missão em várias regiões do Brasil, incluindo a Amazónia. Em entrevista à Renascença, fala da importância do Sínodo para a salvaguarda do planeta e para o futuro da Igreja, que tem de contar mais com os leigos.

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Com quase 72 anos (nasceu dia 29 de outubro de 1947, em Resende), o padre Joaquim Fonseca está há mais de quatro décadas ligado ao Brasil. A sua primeira missão foi na Amazónia, em Pimenta Bueno, no Estado da Rondônia, entre 1978 e 1983. Tirando alguns intervalos em Portugal (foi Provincial dos Missionários Combonianos), serviu sempre em território brasileiro, no estado do Espírito Santo, em Minas Gerais ou em Roraima e desde o ano passado que está em missão em Santa Rita, na periferia de João Pessoa, a capital de Paraíba.

“Nós, os missionários combonianos no Brasil, trabalhamos sobretudo em duas realidades: a periferia das grandes cidades ou em áreas mais de interior. Eu já trabalhei nas duas”, conta à Renascença no início da conversa marcada a propósito do Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia, uma iniciativa do Papa que não hesita em elogiar. “Acho muito bonito isso. É uma nova oportunidade para rever a missão da Igreja na Amazónia, tornar a essa missão mais incarnada na realidade, dar atenção à cultura, à religião, aos problemas da ecologia”.

A Amazónia é uma região que conhece bem. Fala num território vasto e diversificado em tradições e culturas, o que por si só já levanta dificuldades à Igreja. “São muitos povos. Nós pensamos que a Amazónia é tudo igual, e não é. São mais de 200 línguas faladas, só no Brasil. Cada tribo, cada grupo indígena tem a sua língua, a sua cultura, a sua forma de manifestar a religiosidade, a forma como estão ligados à terra”.

Realidades que a Igreja nem sempre entendeu. “Muitas vezes fizemos uma evangelização que foi levar a fé e o império, evangelizava-se os índios como se se estivesse a evangelizar o povo de Lisboa ou do Porto, e não é a mesma coisa. Cada povo tem a sua cultura, a sua maneira de exprimir a fé, que é preciso respeitar, não se pode impor”.

Sem padres suficientes para chegar a todo o lado, a Igreja tem de contar mais com a ajuda dos leigos, defende o padre Joaquim. Se há comunidades indígenas onde a figura mais importante é a mulher “isso deve ser tido em conta”. Quanto à possibilidade de ordenação de homens casados, que vai ser discutida no sínodo, prefere falar na criação de novos ministérios. “Para fazer uma evangelização nova é necessário encontrar também novos ministérios, novos serviços na Igreja, provavelmente até uma nova maneira de ser sacerdote nessas comunidades. E se a Amazónia é uma realidade muito diferente da Europa, ou até de São Paulo ou do Rio de Janeiro, isso significa que o padre, os ministros da Palavra, os ministros das comunidades, também têm de ser diferentes”.

“O sacerdote pode tranquilamente ser uma pessoa da comunidade, casado lá, e que vai servir naquela realidade. É uma visão nova, diferente. Agora, a meu ver, pela experiência que tenho, acho que aquilo que devíamos formar mais é ministros da Palavra, novos ministérios, preparar lideranças. A Igreja caminhou durante muito tempo baseada no anúncio da Palavra, os Apóstolos era isso que faziam”, lembra.

“Lá as vacas têm mais terra do que os meus fiéis da paróquia”

Intitulado “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, o Sínodo também quer ajudar a encontrar respostas ao nível da defesa da floresta, que é um dos pulmões do mundo, mas está ameaçada. Joaquim Fonseca acredita que, também nesta matéria, o que for decidido servirá para todos. “A visão dos povos indígenas parte sempre da terra, da realidade da natureza onde eles vivem. Portanto, para eles, e para quem trabalha com eles, defender a natureza é defender o direito daqueles povos viverem”. E não tem dúvidas de que “uma Igreja que defende a natureza, a ecologia, o bem viver para os povos, pode ser também modelo na Europa”, e no resto do mundo.

Os incêndios do verão na floresta amazónica vieram mostrar como este é um sínodo atual e oportuno, apesar de continuar a não ser bem visto pelo Presidente do Brasil, que continua a favorecer algumas atividades que, segundo os seus críticos, prejudicam a Amazónia, a começar pelo espaço que permite que os grandes produtores de gado ocupem. “Lá no Brasil dizemos que o gado tem muito mais terra do que os homens”, conta o padre Joaquim, que exemplifica: “lá as vacas têm mais terra do que os meus fiéis da paróquia, que vivem na periferia, em barraquinhas, encostadas umas às outras”.

O missionário lamenta que o atual presidente brasileiro continue a incentivar a “desmatação da Amazónia” assim como a “exploração das riquezas do petróleo e do ouro”, e de outro tipo de minério. “O garimpo é algo que destrói muito a floresta amazónica, além de poluir, além de envenenar. Porque para separar o ouro, eles usam mercúrio e o mercúrio vai para onde? Lavam o ouro com ele, vai para o rio, morrem os peixes, morre tudo, morre a natureza por onde passa, e os povos que vivem à beira daqueles rios, os povos indígenas ou povos ribeirinhos, têm que fugir, ficam sem comer, ficam sem o meio de sobreviver. Bolsonaro permite o garimpo no interior e quer fazer barragens para produzir energia elétrica nas áreas indígenas. É evidente que não é para os índios, porque os índios quase que não usam a energia elétrica”, sublinha.

Brasil: um país onde não há “verdadeiros partidos”, mas “bancadas”

Para o padre Joaquim Fonseca “o grande problema a nível político no Brasil é que na Câmara e no Senado não há verdadeiros partidos. Há muitos partidos, mais de 30, mas são partidos que nós lá dizemos que é um 'balaio de gatos', um cesto de gatos, tem de tudo lá dentro a arranhar-se uns aos outros, não são partidos que tenham uma ideologia, um projeto”. Depois há os lobbies, sendo que cada lobbie pode reunir gente de todos os quadrantes políticos. “A Câmara dos deputados organiza-se por bancadas: tem a bancada da Bíblia, que são os evangélicos, tem a bancada ruralista, que são os grandes proprietários de terras, tem a bancada da bala – bala mesmo, de matar! – que é muito forte, é o lobbie sobre distribuição de armas a todo o povo para se defenderem. Imagina, com a violência que lá tem, entregar armas! Essas bancadas têm pessoas de todos os partidos, portanto no Parlamento têm muito mais força os ruralistas do que o PMDB, PSDB ou o PT. Com a bancada da bala a mesma coisa”.

Muito crítico do Presidente Bolsonaro, lamenta que este se tenha aproveitado da religião para ganhar votos, e confirma que a relação da Igreja Católica com o regime brasileiro já viveu melhores dias. “É triste dizer isso, mas ele utilizou uma linguagem religiosa, apresentou-se quase como o ‘messias’ que vem salvar o Brasil, como um homem muito religioso, mas é um tipo de religiosidade que não interessa. Usou essa dimensão religiosa apoiando-se nas igrejas evangélicas, porque a esposa dele – a terceira esposa – é evangélica. Mas diz que é católico, e também se apoiou nos movimentos conservadores da Igreja”. E sempre com críticas aos padres e bispos. “Ele é dos que diz que 'o lugar do padre é na sacristia, é rezar missa, para que é que se metem nisso aí?’”. O que tem afetado o relacionamento entre a Igreja e o Presidente.

“A Igreja tem de se tornar missionária”

“O Sínodo vai precisamente na linha oposta à linha de Bolsonaro em relação à Amazónia, por isso ele critica muito a Igreja e os missionários que trabalham lá. Ele diz 'o vosso trabalho é pregar o Evangelho. Os fazendeiros são gente boa igual aos índios que estão lá, e os garimpeiros também têm direito a viver'. E até diz que os índios, se quiserem, também se podem tornar exploradores de madeira e de pedras preciosas. Portanto, a proposta dele é precisamente ao contrário da do Sínodo”, explica o missionário português.

Apesar do crescimento das igrejas evangélicas, e da tendência “light” que, diz, muitos querem dar à religião no Brasil, o padre Joaquim Fonseca garante que a Igreja Católica “continua a ser muito importante no país, sobretudo naquilo que nós chamamos a Igreja mais de missão – a Igreja na Amazónia, a Igreja no nordeste, a Igreja nas periferias. Embora depois haja aquela Igreja mais tradicional, mais acomodada, que se preocupa mais com as coisas da sacristia. Muita gente refugia-se nisso”. Mas, também há bons exemplos. “Onde eu estou, lá na Paraíba, as comunidades são vivas, ativas, mesmo não sendo muito numerosas”.

Joaquim Fonseca acredita que o caminho sinodal proposto pelo Papa dará frutos. “O Papa Francisco veio dar um fôlego novo à Igreja, veio chamar a atenção para aquilo que é o essencial, aquilo que é realmente a evangelização, anunciar o Evangelho, aquilo que significa uma Igreja que vai ao encontro, aberta. Ele desafia a não se acomodar, a não clericalizar a Igreja. Ele várias vezes insiste nisso, diz 'o clericalismo é um grande pecado para a Igreja'. E é o grande problema que acontece hoje, através de movimentos, que colocam o padre no trono, e não o padre servidor, que caminha com o povo”.

O Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia vai decorrer no Vaticano de 6 a 27 de outubro, com o tema “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.

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