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Capelães militares requisitados em todo o lado. “Pedem-me mais, mas não tenho"

23 out, 2017 - 06:57 • Ângela Roque

Igreja assinala 50 anos de assistência religiosa organizada no meio militar em Portugal. D. Manuel Linda diz que este é um serviço “apreciado” e que continua a “fazer sentido”.

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A diocese das Forças Armadas e das Forças de Segurança é “uma instituição canónica que organiza e acompanha, segundo critérios semelhantes aos das outras dioceses territoriais, os fiéis católicos que estão presentes no sector militar e policial”, assim é apresentada no seu site.

“Começou por se chamar vicariato castrense, hoje é ordinariato”, explica o actual bispo, D. Manuel Linda. “Foi estabelecida em 1966, mas só no ano seguinte, em 67, se realizou o primeiro curso com 54 padres. Ficaram todos ao serviço das Forças Armadas”.

Estava-se então em plena guerra nas ex-colónias. Mas, se hoje não há guerra no sentido tradicional do termo, o contexto em que se vive tem outras dificuldades, sobretudo por causa da ameaça terrorista, e em sua opinião a assistência religiosa prestada continua a fazer sentido e a ser necessária.

“Claro que continua a fazer sentido, em linha deste princípio fundamental – os militares também são sujeitos de salvação, precisam desta assistência religiosa, de encaminhamento”, afirma D. Manuel Linda, lembrando que, “além da questão religiosa, temos a questão ética, no sentido de que convém haver alguém que, embora estando na organização militar, não seja propriamente um militar, um homem de armas, mas que chama a atenção, a racionalidade e a razoabilidade das intervenções – e isso é o que nos chamamos a dimensão ética, que leve o militar a questionar-se sobre a melhor forma de conseguir a paz, a liberdade, assegurar a democracia e o bem para o seu povo”.

O papel do capelão é, assim, “fundamentalmente ético e especificamente espiritual, ou, como nós dizemos, religioso”; é uma função que tem uma dimensão evangelizadora, de acompanhamento espiritual e é um serviço apreciado pelos militares nos diversos contextos, garante o bispo das Formas Armadas.

“Em todos os lugares por onde tenho ido ninguém me pediu para retirar um capelão. Pelo contrário, muitos, mesmo muitos, mais de uma dezena ou duas, me têm pedido um capelão próprio, que não tenho. Porque muitos estão a acumular três, quatro e até cinco unidades, particularmente no Exército, mas não só, também nos outros ramos. E muito mais na Polícia de Segurança Pública, onde tenho um único capelão para o todo nacional, incluindo as duas regiões autónomas”, explica.

“Portanto, o papel do capelão é apreciado e cada vez me pedem mais esta sua presença, porque sabem que é o portador de uma outra dimensão mesmo até de cultura, e fundamentalmente de sensibilidade”, resume.

A diocese tem neste momento “27 capelães no activo, mais 10 que já foram capelães, estão reformados, mas que continuam a dar-nos a sua assistência”.

E não é possível ter mais? “Não”, explica D. Manuel Linda, “porque nós não temos seminário. Todos aqueles que recebemos são provenientes das dioceses. Ora, como hoje quer as dioceses, quer as congregações religiosas, têm dificuldades de clero, logicamente não dão tantos como eu desejaria”.

O bispo das Forças Armadas diz que é assim “em praticamente todos os países do mundo, embora Itália, Espanha e alguns países da América Latina tenham um seminário, e uma parte significativa dos capelães seja proveniente do seio militar”.

“Ainda recentemente estive em Itália e vi que neste momento têm nove seminaristas de teologia no seminário do ordinariato castrense e estão mais dois em discernimento vocacional. Mas, nós não temos isso”, lamenta.

Os 50 anos da assistência religiosa organizada em meio militar vão ser assinalados esta segunda-feira, 30 de Outubro, com uma festa simples – até porque “uma parte significativa daqueles 54 capelães que entraram em 1967, uns já não têm saúde e não podem vir, outros já faleceram”.

“Mas faremos um convívio com alguns deles, desse primeiro o grupo, juntamente com todos os actuais capelães que estão ao serviço”. Vai decorrer na Academia Militar, explica D. Manuel Linda, “um lugar que eles frequentaram, e eu próprio também, quando fui capelão militar, porque fui durante cerca de quatro anos, e antes do início do serviço na capelania fazemos um curso lá. Ainda hoje é assim”.

Para assinalar a data, esta segunda-feira vai ser também lançado o livro “O Capelão Militar – Subsídios para a história da Igreja em Portugal” (Paulinas Editora), da autoria do padre António Francisco Gonçalves Simões, do Funchal, que fez o primeiro curso de 1967.

Será ainda prestada homenagem aos quase 2.000 capelães que nestes 50 anos de ordinariato castrense asseguram este serviço da Igreja.

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