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Conferência Nacional do PCP

Cara nova e olhos na rua. PCP junta tropas este fim de semana

11 nov, 2022 - 21:20 • Tomás Anjinho Chagas

Jerónimo de Sousa faz, este sábado, o último discurso como secretário-geral do PCP e, no domingo, Paulo Raimundo é entronizado como o novo líder. Partido procura agora recuperar as bases, chegar aos jovens e intensificar a presença nas ruas.

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O novo líder está escolhido e será eleito este fim de semana. Este sábado, cerca de mil comunistas juntam-se na Conferência Nacional, no Seixal. É apenas a quarta vez que acontece nos mais de 100 anos de existência do PCP. O foco está virado para a passagem de testemunho entre Jerónimo de Sousa e Paulo Raimundo.

No entanto, o metalúrgico que foi líder do PCP durante 18 anos já deixou claro que o evento não vai influenciar em nada a escolha anunciada pelo partido, em comunicado, no passado sábado à noite. “O órgão que o elege não é o Congresso, nem a conferência, mas o Comité Central”, esvaziou Jerónimo em conferência de imprensa.

Além de retirar pressão de Paulo Raimundo no imediato, o até aqui secretário-geral do PCP tentou também fazê-lo a longo prazo.

Reiterando a ótica não-resultadista do partido, Jerónimo de Sousa sublinhou que o novo líder não deve ser responsabilizado pelos futuros resultados eleitorais, posição já reiterada por João Oliveira, membro do Comité Central, em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do Público.

Mas o futuro há de vir, e nada apaga o passado recente. Depois de votar contra a proposta de Orçamento do Estado em outubro de 2021, o PCP foi depenado nas legislativas e perdeu metade do seu grupo parlamentar. Nas legislativas antecipadas de janeiro deste ano, a queda foi grande e reduziu o partido a seis deputados. Em fevereiro começou a guerra na Ucrânia.

As posições dúbias e "ziguezaguiantes" do partido, que se concretizaram na ausência de uma condenação clara à Rússia por invadir outro país, irão penalizar ainda mais o PCP nas urnas? Esse é um cenário reservado para 2024, nas europeias - até prova em contrário.

“Responder às novas exigências”

É um dos motes que levou o Comité Central a convocar a Conferência Nacional, o que mostra que apesar de parecer, o PCP não pode, nem está (eleitoralmente) a alienar-se das atuais circunstâncias.

No projeto de resolução política, que explica os motivos que levaram o núcleo duro da Soeiro Pereira Gomes a chamar os militantes, o PCP salienta a necessidade de afirmar uma “política alternativa” de oposição à “política de direita a decorrente da ação do Governo PS”.

Nas 12 páginas que compõem o documento, pode ler-se que os comunistas admitem que é preciso “melhorar o estilo de trabalho e intervenção visando o conhecimento e a ação sobre a realidade envolvente”. Elencando que uma das razões é a perda de poder negocial do PCP na relação que tem com o PS. Com maioria absoluta, os socialistas só negoceiam o que quiserem, e a geringonça faz parte do passado.

É o que está escrito, por outras palavras, quando no comunicado o partido admite que “a obtenção da maioria absoluta pelo PS (...) visou romper com um percurso, ainda que limitado, de defesa, reposição e conquista de direitos concretizada nos últimos anos pela luta dos trabalhadores e pela iniciativa e ação do PCP”.

De volta à contestação

A luta tem de sair do Parlamento e ir para as ruas. Esta é uma das apostas que o PCP vai fazer e que pretende transmitir durante este fim de semana. “Intensificar a luta dos trabalhadores e das massas populares”, pode ler-se num dos pontos. A seta aponta para os sindicatos, e é aqui que Paulo Raimundo entra na equação.

"Ao contrário do que pretende o inimigo, os trabalhadores contam com os comunistas"

O novo secretário-geral do PCP, apesar de desconhecido do público em geral, tem uma vida ligada às estruturais sindicais controladas pelo partido. Com 46 anos, pertence à "linha dura" dos comunistas e isso ficou patente no discurso que fez no último Congresso do PCP, em Loures.

“Ao contrário do que pretende o inimigo, os trabalhadores contam com os comunistas para o reforço da sindicalização e da organização sindical, para o desenvolvimento da luta reivindicativa”, disparava em 2020.

Nesse Congresso, que assinalou o centenário do Partido Comunista Português, só três pessoas subiram ao palco. Um deles foi Paulo Raimundo, além de Margarida Botelho e o próprio Jerónimo de Sousa - mais um sinal do então secretário-geral para o que estaria a preparar. De lá para cá, foram poucas as palavras que proferiu ou escreveu.

Apesar de a escolha trair previsões, bate certo com aquilo que levou o Comité Central a juntar os militantes no Seixal. No documento, palavras relacionadas com “sindicato” aparecem seis vezes, como parte da estratégia para fortalecer as “organizações e movimentos de massas”. Paulo Raimundo é, para Jerónimo, o homem certo para o fazer.

Na entrevista que deu à Renascença e ao jornal Público esta semana, João Oliveira concordou que o Parlamento perdeu centralidade e que o foco devia ser passado para a contestação. “A luta nunca desapareceu nem deixou de estar presente”, dizia o comunista. Mas o caminho é cada vez mais esse.

O PCP coloca as fichas na ação sindical, aproveitando o descontentamento das pessoas numa altura em que os níveis de inflação atingem valores máximos em 30 anos.

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