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Dos animais fofinhos aos casos políticos. Quem ganhou a campanha nas redes sociais?

28 jan, 2022 - 15:20 • Inês Rocha

Rio cavalgou a imagem de candidato simpático, com a ajuda do gato Zé Albino, mas acabou por ver a imagem manchada com referências ao seu passado. Costa acabou por reconquistar as redes quando, à segunda semana, começou a falar em pontes. O Chega perdeu alguma força face às presidenciais e os restantes partidos foram aparecendo à boleia da televisão.

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PS, PSD e Chega e os respetivos líderes, Rui Rio, António Costa e André Ventura dominaram a atenção nas redes sociais nas duas semanas de campanha eleitoral, nomeadamente no Facebook, que continua a ser a rede mais representativa da população portuguesa. É o que avança à Renascença Gustavo Cardoso, coordenador do Media Lab do ISCTE.

As redes sociais foram, nestas duas semanas de campanha, mais um palco para os candidatos lutarem pela atenção dos eleitores. No entanto, as dinâmicas e os tipos de reações aos candidatos foram mudando ao longo das duas semanas.

Rui Rio foi ganhando terreno nas redes a partir do final dos debates. “A ideia de uma onda laranja, o candidato genuíno, foram ideias construídas nas próprias redes”, explica o professor, que lembra o destaque que o candidato teve com as inúmeras referências ao seu gato, Zé Albino, que se tornou também uma personagem da campanha.

Mas as coisas acabaram por mudar: “Por uma questão de gestão do ciclo de campanha ou mero acaso, o PS conseguiu alterar a dinâmica da campanha nas redes na última semana”.

“Rio continua a ser o mais falado no Twitter, mas agora a ideia de uma onda laranja foi substituída por centrar a atenção no seu passado e por questões levantadas pelo seu próprio discurso”, diz Gustavo Cardoso, referindo-se à publicação do jornalista Paulo Moura sobre uma entrevista feita a Rio em 2007, um episódio que teve bastante eco nas redes.

O PS, nos últimos dias de campanha, conseguiu recuperar, face ao PSD. “António Costa chamou Pedro Nuno Santos e no Twitter essa chamada foi aprovada”, diz o especialista.

“O PS encontrou uma forma de estabelecer relação com os seus eleitores, quando abandonou uma retórica de linhas vermelhas e passou a adotar uma retórica de pontes”, considera o investigador, afirmando que, a partir desse momento, “foi possível verificar que houve uma maior adesão àquilo que circulava da parte de António Costa”.

Apesar de continuar na liderança, em particular no Facebook, o Chega “parece ter perdido muito da sua tração nas redes sociais”, diz Gustavo Cardoso, que nota que as métricas das páginas de Ventura e do Chega são muito inferiores nestas eleições, face a janeiro de 2021, nas presidenciais.

O partido “consegue manter os canais abertos para a sua base, conquistada nos últimos anos, mas tem muita dificuldade em marcar a agenda nas redes”.

Porque é que isto acontece? “Neste momento, o Chega tem como objetivo afirmar-se como credível. E portanto deixou de ser um partido a utilizar as redes sociais para bater em tudo e em todos aqueles que não sejam do Chega. O que leva depois que se centre muito na ideia do terceiro lugar, passa a ser um partido por objetivos e não um partido de causas”, explica o investigador.

“Isso muda o registo e a adesão também nas redes. Não conquista novos aderentes para essa dinâmica”, diz.

A Iniciativa Liberal “domina o Instagram, onde estão os mais jovens”, mas nesta rede social “a comunicação política de atualidade não está no centro do interesse dos utilizadores e a própria dinâmica da plataforma não promove nem partilha a discussão política”.

Ainda assim, o partido está também muito presente no Twitter, “a rede que mais gira em torno da política, mas é uma rede habitada por um certo tipo de elite que é pouco representativa do universo dos eleitores e dos cidadãos. É muito utilizada por jornalistas e políticos, mas é uma rede essencialmente destinada a marcar a agenda mediática e menos a espelhar as opiniões dos cidadãos”, explica o investigador.

Quanto aos outros partidos, “o Bloco de Esquerda mantém a sua base de apoio nas redes mas Catarina Martins parece já não ser a liderança que entusiasme as redes sociais. Em sentido inverso, no PCP a entrada de João Oliveira na campanha teve um impacto que conseguiu verificar nas redes, em particular no Facebook”.

“O CDS é mais Francisco Rodrigues dos Santos, consegue ser falado nas redes sempre que adota o estilo ou declarações menos convencionais. Mas o CDS nas redes do Facebook, Instagram e Twitter é pouco mais do que o seu líder e a campanha depois dos debates teve pouco impacto”.

“O PAN e o Livre vivem essencialmente nas redes quando aparecem na rádio, na televisão ou nos jornais”.

Campanha começou mais cedo nas redes

O coordenador do Media Lab do ISCTE conta que a campanha nas redes começou com a pré-campanha – “aquilo a que nós assistimos desde o dia 2 de Janeiro foi um aumento substancial do volume de publicações sobre os candidatos em todas as redes e é necessário focar a ideia de que foram os debates o fator de discussão, o que aconteceu em todas as redes sociais. É a partir daí que a campanha começa efetivamente”, diz.

Houve muitas críticas ao modelo dos debates mas estes acabaram por ter grande impacto e centraram o foco das redes nas eleições, em particular no Twitter, que foi a rede privilegiada para acompanhar toda esta discussão.

Os candidatos perceberam bem o impacto dos debates nas redes sociais – o que fez com que os momentos “instagramáveis” fossem crescendo ao longo do ciclo de debates, com André Ventura e Cotrim Figueiredo em destaque nesse campo.

Para os investigadores do Media Lab, o sucesso dos debates é também um sinal de que, em campanha, a televisão continua a ser a rainha em termos de foco político.

Além dos debates, as participações dos políticos em programas como o de Ricardo Araújo Pereira, na SIC, tiveram um grande impacto - os candidatos também se prepararam e criaram mensagens desenhadas especificamente para as redes.

No fim dos debates, as redes sociais voltaram a girar em torno dos “pequenos casos”.

No fim destas duas semanas, Gustavo Cardoso considera que alguns partidos ainda não perceberam uma dinâmica importante das redes sociais: “as redes sociais não foram desenhadas para se comunicar politicamente”. “As redes sociais foram desenhadas para as pessoas falarem umas com as outras e portanto quanto mais os partidos e menos os líderes interagem, menos resultado existe porque menos ligação se estabelece”, explica.

Por outro lado, isso torna as eleições mais focadas dos líderes, o que fez com que estas eleições parecessem “quase presidenciais”. “Foi como se tivéssemos candidatos , pessoas, e não partidos com programas”.

No fim de tudo, o investigador volta a sublinhar: likes não são votos e portanto por ter mais gostos ou ser mais partilhado, não quer dizer que isso seja um voto em urna e que conte para eleger deputados.

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