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Reportagem Renascença

"Quando eu morrer acabou, já ninguém quer isto". O amolador que ainda percorre o país numa bicicleta-oficina

12 jun, 2024 - 15:20 • Liliana Carona

Domingos Manuel tem 61 anos e desde a terceira classe que trabalha como amolador — ofício também conhecido como polineiro ou chapeleiro. Percorre todo o país e vai conseguindo viver de uma profissão em vias de extinção.

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Vida de amolador. Reportagem de Liliana Carona
Ouça a reportagem de Liliana Carona

“Já ninguém pede para consertar chapéus de chuva”, começa por lamentar Domingos Manuel, 61 anos, amolador/chapeleiro, enquanto afia uma faca. É um dos serviços mais requisitados pelos restaurantes por onde passa.

Domingos já perdeu a conta ao número de facas que afiou. Foi cedo, demasiado cedo, que começou o trabalho como amolador. Domingos Manuel era ainda uma criança, frequentava a escola primária e por esse motivo também só estudou até à terceira classe.

Hoje, continua a desempenhar o ofício que tem várias designações, dependendo da região: polineiro, amolador, chapeleiro.

Domingos Manuel é natural de Évora e vive em Leiria. Tem quatro filhos e nenhum deles demonstrou interesse na profissão. “Isto foi de família, com o meu avô, com o meu pai. Comecei quando andava na escola primária, na terceira classe… Andava com uma guia, estava sempre a mudar de sítio. Aguento porque gosto disto, senão já tinha deixado”, afirma à Renascença.

A bicicleta da Domingos Manuel transformada em oficina. Foto: Liliana Carona /RR
A bicicleta da Domingos Manuel transformada em oficina. Foto: Liliana Carona /RR
Domingos ainda afia facas e arranja guarda-chuvas por todo o país. Foto: Liliana Carona/RR
Domingos ainda afia facas e arranja guarda-chuvas por todo o país. Foto: Liliana Carona/RR

As pessoas conhecem-no e esperam a sua passagem, de seis em seis meses. Às vezes demora menos, outras mais, conforme as distâncias.

“Gosto de fazer isto, corro muitas aldeias", conta o amolador.

"Da minha casa, quando eu morrer acabou, já ninguém quer isto, mas acredito que ainda haja uma centena no país. A mocidade nova é que não quer”, observa o homem que percorre o país todo na bicicleta — que tanto é meio de transporte como local de trabalho. Uma bicicleta com mais de 50 anos.

O homem abre a caixa de ferramentas, encostada ao selim. “Tenho aqui os arames para arranjar os chapéus e o apito para chamar as pessoas”, numa cantilena reconhecível por todos. “Meto a correia para trabalhar, e quando acabo, tiro a correia e fica uma bicicleta normal. Isto já era do meu pai, tem mais de meio século”, conta.

Afiar uma faca custa cinco euros, consertar um chapéu de chuva, dois euros. “Dá para o tabaco, para comer, a vida é assim. Se não fizesse nada era pior. Vou até Valença do Minho, percorro o país todo”, conclui.

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