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Matemático pede "alguma cautela" na análise da mortalidade

17 ago, 2022 - 23:45 • Lusa

Carlos Antunes, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, nota que na análise comparativa entre países devem ser tidos em conta vários fatores, nomeadamente a distribuição demográfica porque “há países mais envelhecidos do que outros".

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O matemático Carlos Antunes defende que é preciso ter “alguma cautela” na análise comparativa do excesso de mortalidade de Portugal com outros países, sublinhando que há vários fatores a ter em conta como a distribuição demográfica.

Carlos Antunes comentava à agência Lusa os dados divulgados hoje pelo Eurostat, gabinete oficial de estatísticas da União Europeia, segundo os quais Portugal voltou a registar em junho o maior excesso de mortalidade na UE, com uma taxa de 23,9%, quase quatro vezes mais alta do que a média comunitária, que é de 6,2%.

O investigador observou que este relatório tem algum atraso: “Os dados referem-se a junho quando houve um excesso de mortalidade causado essencialmente pela primeira vaga de calor”.

“Quando aparecer o próximo relatório do Eurostat, em setembro, eles vão reportar a julho e vão novamente dizer que Portugal está com excesso de mortalidade. Portanto, é preciso ter cuidado na análise destas informações”, vincou.

Referiu que o Euromomo, uma plataforma de monitorização de mortalidade na Europa, já tem dados do final de julho e Portugal tem um "excesso ligeiro de mortalidade, enquanto que Espanha continua com um excesso muito alto de mortalidade".

“É de esperar que na próxima semana, como vamos ter mais uma onda de calor, a mortalidade que agora está estável, em linha com a mortalidade dos anos anteriores”, possa aumentar, salientou, observando que, nos últimos dias, o excesso de mortalidade em Portugal tem registado uma variação negativa, estando abaixo da média.

O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa alertou que nesta análise comparativa entre países devem ser tidos em conta vários fatores, nomeadamente a distribuição demográfica.

“Há países mais envelhecidos do que outros e, portanto, quando temos uma onda de calor que afeta a população idosa, evidentemente, que os países com a população mais idosa vão ser os mais afetados”, frisou.

“Estes fatores externos que aumentam a mortalidade, como seja a vaga de frio ou onda de calor, são mais intensos em uns países do que noutros e ocorrem em períodos diferentes”, disse, explicando que a mortalidade é variável de país para país e também depende de fatores económicos, sociais e até ambientais.

Na análise que faz para perceber a dinâmica da mortalidade em Portugal, Carlos Antunes utiliza como referência o período 2015-2019, antes da covid-19.

Segundo o matemático, o que se verifica é que desde 2009 até 2021, o número de óbitos tem vindo a aumentar, numa taxa média de 950 óbitos por ano, sendo essencialmente acima dos 65 anos.

Por exemplo, em 2009, morriam por ano cerca de 105 mil pessoas. Em 2015, já morriam 109.000 e, em 2018, 113.000.

“Em 2020 e 2021 já há uma alteração na taxa de mortalidade, porque, a partir de 2020, passámos a ter uma causa de morte que ataca essencialmente as pessoas acima dos 65 anos [a covid-19]”, realçou.

O investigador salienta que, “enquanto estiver a aumentar a população idosa, a mortalidade absoluta vai aumentar e a taxa de mortalidade vai-se manter constante”, disse, sublinhando que a taxa de mortalidade acima dos 65 anos era de 4,3% até 2019 e com a covid-19 passou para 4,5%.

“O que estamos a observar é perfeitamente explicável por uma causa natural, que é o envelhecimento da população”, e por causas adicionais, nomeadamente a covid-19 e a meteorologia.

Até agora, em termos médios, a covid-19 trouxe o aumento de mortalidade total na ordem dos 10.000 óbitos por ano, o que corresponde a cerca de 20 óbitos por dia.

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  • José J C Cruz Pinto
    18 ago, 2022 ILHAVO 09:33
    Pois, esta é a análise acessível a qualquer ser racional (mesmo com pouca cultura matemática, e que não saiba, a não ser muito por alto, o que são populações diferentes sujeitas a um mesmo tipo de amostragem. No nosso caso, a culpa da maior mortalidade é do Governo - de quem haveria de ser? O mesmo se passa relativamente a tudo o mais, incluindo os incêndios, pois claro. É por isso que, se o novo Ministro da Administração Interna, Comandante dos Bombeiros ou da Protecção Civil fosse o Rangel (sucedendo a um tal Marques, acessorado pelo outro bombeiro-mor da bancada do lado, cujo nome já esqueci), não teria havido incêndios em Pedrógão e na Serra da Estrela, e o SIRESP (para além do SNS, claro) funcionariam muito melhor que a Vodafone, Meo e todas as outras juntas (e o SNS melhor que o melhor dos hospitais privados). Seria uma maravilha, e nada nos faltaria! E tudo cim menos impostos, bem entendido.

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