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Estudo da APAV

Quase dois em cada 10 inquiridos foi vítima de assédio sexual no trabalho

22 fev, 2022 - 06:03 • Lusa

Olhares insinuantes foram a forma de assédio mais destacada, seguido de perguntas intrusivas e ofensivas acerca da vida pessoal e de convites para encontros indesejados.

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Quase duas em cada 10 das 824 pessoas entrevistadas para um barómetro Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) admitiu ter sido vítima de assédio sexual no local de trabalho, mas a maioria não denunciou, havendo quem tenha sido despedido depois de se queixar.

Estas e outras conclusões constam do Barómetro APAV/Intercampus sobre "Perceção da População sobre assédio sexual no local de trabalho", para o qual foram feitas 824 entrevistas online, realizadas em dezembro do ano passado.

Os resultados evidenciam "uma elevada consciência relativamente às situações consideradas como assédio sexual", já que "mais de 80% dos inquiridos identifica a quase totalidade das situações expostas como assédio sexual".

Entre as 824 pessoas que responderam ao inquérito elaborado pela associação e posteriormente validado pela Intercampus, 18% admitiu ter sido vítima de, pelo menos, uma situação de assédio sexual no local de trabalho, sendo que a maioria são mulheres (88%), sobretudo com idades entre os 18 e os 54 anos (80%).

Por outro lado, 35,9% dos inquiridos disse conhecer alguém que foi vítima de assédio sexual no local de trabalho.

Entre as 148 pessoas que afirmaram terem sido vítimas, 54,7% disseram que a agressão partiu de um superior hierárquico, enquanto 45,3% afirmaram terem sido assediadas por um colega.

Os olhares insinuantes foram a forma de assédio mais destacada (63,5%), seguido de "perguntas intrusivas e ofensivas acerca da minha vida" (57,4%), "convites para encontros indesejados" (56,8%), "contactos físicos não desejados" (56,1%), piadas ou comentários ofensivos de caráter sexual" (46,6%), piadas ou comentários sobre o aspeto da vítima (43,2%), piadas ou comentários sobre o corpo (43,2%) ou "propostas explicitas e indesejadas de caráter sexual" (39,9%). Em 6,8% dos casos houve lugar a agressão ou tentativa de agressão sexual.

Falta de provas impede denúncias

No que diz respeito à denúncia, 73% disseram não ter feito queixa e apresentaram como principal justificação (46,3%) o facto de não terem provas, havendo quem afirmasse ter tido vergonha (36,1%), receio de que a situação fosse desvalorizada (34,3%), receio de represálias (33,3%) ou simplesmente não acreditasse que a situação se resolvesse por essa via (31,5%).

Houve também 11,1% dos casos em que a vítima se sentiu culpada pela situação e outros 5,6% em que afirmou ter sido desencorajada de apresentar queixa. Relativamente aos 27% de pessoas que apresentaram queixa, 55% fizeram-no junto da entidade patronal, mas houve também quem o fizesse junto da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), da APAV, do Ministério Público ou dos órgãos de polícia criminal.

E se 62,5% afirmaram ter ficado satisfeitos com a consequência da denúncia, em 32,5% dos casos a vítima disse ter sofrido represálias, nomeadamente despedimento, com 22,5% das vítimas a referirem terem-se arrependido de ter feito queixa.

Entre as 40 pessoas que fizeram queixa, a maioria (80%) admitiu ter tido o apoio de colegas de trabalho ou das próprias chefias, enquanto 50% precisaram de apoio médico.

O estudo da APAV demonstra também que o assédio sexual é visto por uma larga maioria dos entrevistados como uso abusivo de poder, ao mesmo tempo que "é largamente reconhecido que não é apenas praticado pelos superiores hierárquicos".

Relativamente à informação disponível sobre o tema e recursos para denuncia e apoios, mais de metade da amostra do barómetro considera que está bem informada sobre os seus direitos, sabe o que fazer e como denunciar uma situação de assédio sexual no local de trabalho, apesar de assumir não ter conhecimento do enquadramento jurídico sobre o assédio sexual no local de trabalho.

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  • Joaquim
    22 fev, 2022 Paços 12:30
    Ao ponto a que isto chegou! Não sei se rio ou se choro! Segundo este barómetro, o método de assédio mais utilizado foi o do “olhares insinuantes”!!! Eu não sei se isto é para levar a sério, se é para rir... eu não faço a mínima ideia! Eu só sei que estão a tentar destruir as sociedades! Se não houver “olhares insinuantes”, se não houver “perguntas intrusivas”, se não houver algum tipo de aproximação, como é que vão haver casais, como é que vão haver famílias, como é que vão haver filhos, como é que vai haver sociedade??? Então tem que haver uma lei que diga que só pode haver “engates” nas discotecas ou nos bares! Sim porque na rua também é proibido haver piropos! Daqui a pouco estamos como os países que tanto criticamos!

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