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20 anos de Energia, 20 anos da ADENE

“Portugal tem uma perceção do valor da água pobre”

15 dez, 2021 - 17:53 • Filipe d'Avillez

Os especialistas dizem que não é por falta de tecnologia que Portugal não melhora a eficiência hídrica, é preciso mudar mentalidades.

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O vice-presidente da AdP Valor, uma empresa das Águas de Portugal, considera que os portugueses não valorizam a importância dos seus recursos hídricos.

Nuno Brôco participou esta quarta-feira num painel da conferência dos 20 anos da ADENE, a agência de energia portuguesa, e disse que o problema da eficiência no país não é tecnológico, mas sim de mentalidade.

“Hoje estamos todos despertos para as alterações climáticas, e bem, mas temos de estar atentos para o valor da água. Em Portugal a perceção do valor da água é mais pobre. Há uns anos estive em Moçambique a lá a perceção é superior, porque é mais escassa. Noutros países não existe essa abundância”, diz.

O responsável pela empresa de águas públicas em Portugal pede por isso que se criem “mecanismos de sensibilização da nossa população para evitar o desperdício da água”.

O problema, insiste, não é falta de tecnologia, mas sim um problema de mentalidade. “Na componente técnica, não é por falta de soluções. Lisboa é uma referência mundial em termos de eficiência, com perdas de valor abaixo dos 10%. As soluções técnicas estão disponíveis, os nossos problemas não são tecnológicos, são de mentalidade.”

E é por isso, insiste Nuno Brôco, que a AdP Valor assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2030. “A ADP em 2019 consumiu cerca de 1,9% do consumo energético do país. É uma responsabilidade gigante. Demos um passo gigante e em 2020 lançámos o plano Zero. Pretendemos ser neutros energeticamente até 2030. Não é tão fácil concretizar como dizer”, refere, acrescentando que para isto será feito um investimento de 370 milhões de euros em 10 anos.

Rita Amaral, assessora da Lis-Water, também esteve presente neste terceiro e último painel do evento e falou da importância de se fazerem reformas estruturais. “É fundamental ter um conjunto de reformas mais estruturais, que vão permitir que essas medidas de redução de desperdício e aumento de eficiência sejam concretizadas. Desde que entrei para este setor que se fala disto, mas continuamos com números de perda de água que teimam em não baixar.”

“Precisamos de um regulador do serviço de águas forte, não devemos tirar poderes, como fizemos no último orçamento do Estado. O regulador deve ser motor de eficiência e de inovação, que proteja esta geração e a do futuro”, diz Rita Amaral.

Benefícios para inteligência hídrica

O ex-presidente da Câmara de Lisboa e atualmente consultor na área hídrica, António Carmona Rodrigues, concordou com as críticas de Rita Amaral em relação à retirada de poderes ao regulador e recomendou a adoção de medidas de benefício fiscal para quem adote soluções de inteligência hídrica.

“A inteligência hídrica também deve ser traduzida em incentivos fiscais, é mais palpável, mais justa”, diz.

Carmona Rodrigues elogia ainda os avanços tecnológicos dizendo que “há cada vez mais indústrias que podem trabalhar em ciclo fechado, tratando as águas, que podem ser reutilizadas no circuito”, o que se traduz em “rios mas limpos, menos descargas poluentes, articulando o tratamento das águas com a incorporação de energias renováveis.”

A conferência 20 anos de Energia, 20 anos da ADENE conta com a presença de várias personalidades públicas e políticas, incluindo o ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Matos Fernandes, o secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba, António Costa Silva, responsável pelo Plano de Recuperação e Resiliência e outros especialistas e ativistas na área da energia e da sustentabilidade.

A ADENE é uma agência pública que tem por objetivo “promover e realizar atividades de interesse público na área da energia e seus interfaces com outras políticas setoriais, em articulação com as demais entidades com atribuições nestes domínios, e ainda promover e realizar atividades de interesse público nas áreas do uso eficiente da água e da eficiência energética na mobilidade”, segundo se pode ler no site.

Entre as suas responsabilidades incluem-se a colaboração com políticas de eficiência energética, a promoção de projetos na área da eficiência energética e hídrica, bem como de energias e tecnologias limpas.

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