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Universidade de Évora

Abílio Fernandes, novo doutor "Honoris Causa": “Hoje sinto que muita coisa andou para trás”

15 out, 2021 - 17:06 • Rosário Silva

Aos 83 anos, o autarca comunista, que esteve 25 anos à frente do município eborense, recebeu “com surpresa” a distinção da academia alentejana. Apesar da filiação partidária, quase todos os setores da sociedade, incluindo a própria Igreja, o consideram um homem consensual, que soube consolidar o poder autárquico no inicio do Portugal democrático.

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Chegou à Câmara Municipal de Évora em 1976, depois das primeiras eleições autárquicas. Aos 38 anos, Abílio Fernandes, militante do Partido Comunista Português (PCP), tornava-se no primeiro presidente, eleito democraticamente, de um município com enormes desigualdades sociais que era necessário corrigir.

Nessa época, Évora já tinha 40 mil habitantes, 2/5 dos quais, distribuídos por 29 bairros clandestinos, muitos sem água, esgotos ou arruamentos pavimentados. Para por fim a essa situação de grande carência, o executivo da Frente Eleitoral Povo Unido (FEPU), liderada pelo autarca, ordenou, infraestruturou e legalizou todos os bairros clandestinos, além de criar uma bolsa de lotes a preços acessíveis para as famílias com parcos recursos.

Para o jovem autarca, solucionar a carência habitacional era uma prioridade no período pós-revolucionário, tendo, por isso, convidado o arquiteto Álvaro Siza Vieira, reconhecido por desenvolver programas de habitação social, a elaborar um plano de expansão para a cidade. No final dos anos 70, nasce o Bairro da Malagueira, ainda hoje uma urbanização emblemática e modelo de projeto urbano em cidades históricas.

Entre as muitas ações e iniciativas desenvolvidas durante os 25 anos em que Abílio Fernandes esteve à frente do município, destaca-se, por exemplo, a elaboração e aprovação do primeiro Plano Diretor Municipal (PDM), em Portugal, com força de lei.

A classificação do Centro Histórico de Évora como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, em 1986, é outro dos traços indeléveis da obra do autarca comunista, agora agraciado com o grau de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Évora.

“A vida democrática perdeu muito”

A atribuição do titulo ao ex-presidente da Câmara de Évora deveria ter acontecido há ano e meio, mas a pandemia não o permitiu. Esta quinta-feira, perante diversas personalidades, entre as quais o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, foi, finalmente, possível a outorga do grau de Doutor Honoris Causa, numa iniciativa que partiu da própria reitora Ana Costa Freitas.

“Considero que esta ousadia da senhora reitora tem muito a ver com o reconhecimento daquele período em que, não fui só eu, todo um coletivo e toda uma população, na altura, participava, colaborava e estava disponível para construir um país novo”, diria aos jornalistas, o antigo autarca, no final da cerimónia. “Eu fui beneficiado por ter sido presidente da câmara nessa altura”, considerou.

Mas, se era assim nos primeiros anos de democracia, “hoje sinto que muita coisa andou para trás”, lamenta, Abílio Fernandes, para quem “a vida democrática perdeu muito” ao deixar de existir “este intercâmbio entre todos, por aquilo que é concreto, que é a vida das pessoas”.

“Isso desgosta-me bastante”, declara, mas “continuo a acreditar nas populações e na sua força” para “fazer com que o país volte ao bom exemplo do que era a democracia”.

Aos 83 anos, “um cidadão pacato, que tinha a minha vida com a minha mulher, filhos e netos e, por isso, andava à vontade”, confessa que ficou surpreendido com esta iniciativa.

“Não estava no meu programa, por isso foi uma supressa, mas também muito gratificante, não tanto por mim, pessoalmente, mas por tudo o que as pessoas fizeram pela cidade durante aquele período, do qual nos podemos orgulhar por termos dado um grande salto na vida do nosso país para a democracia”, acentuou.

A “surpresa” à qual alude o ex-autarca, advém do facto da iniciativa ter partido da reitora da Universidade de Évora que, recorde-se, foi mandatária da candidatura da coligação liderada pelo PSD à presidência da Câmara de Évora nas ultimas autárquicas.

“Eu sei que ele tem um partido político e eu tenho outro, mas os partidos políticos não se sobrepõem às pessoas” e estas, “são parte da nossa sociedade e os partidos políticos fazem politica”, disse aos jornalistas, Ana Costa Freitas, ao ser questionada sobre a “ousadia” da sua ação.

“Esta cerimónia é apenas um reconhecimento de mérito”, pois quando “se dá um grau de Honoris Causa, dá-se a uma pessoa pelo seu trabalho, independentemente do resto, e foi isso que eu fiz”, salientou.

“O Dr. Abílio Fernandes deu 25 anos da sua vida à cidade de Évora e fez muito por ela. Consolidar o poder autárquico não é fácil e Évora também não é uma cidade fácil, até porque, na altura, tinha muitos desequilíbrios sociais”, lembrou a reitora, por isso “não tem a ver com ousadia ou coragem, mas sim com o reconhecimento da sua obra”.

A colaboração com a Igreja. “Um homem com muito mundo”

Apesar da conhecida filiação partidária, Abílio Fernandes foi e é, um homem consensual. Um atributo reconhecido também pela Igreja de Évora, que marcou presença ao mais alto nível, com D. Francisco Senra Coelho.

Em declarações à Renascença, o arcebispo de Évora recordou que a presidência de Abílio Fernandes coincidiu com o período em “foi necessário que a igreja olhasse para a nova Évora que estava a nascer”.

Lembrou a constituição de um secretariado arquidiocesano para a construção de novas igrejas, “presidido pelo saudoso cónego José Filipe Mendeiros”, e destacou a “colaboração muito interessante” com o município, “que nos concedeu terrenos para construir as nossas obras”.

As igrejas da Sagrada Família ou de Nossa Senhora de Fátima, assim como o terreno para a construção do novo lar da Obra de São José Operário, são exemplos citados pelo prelado e que confirmam “a cooperação entre município e arquidiocese, através deste secretariado”.

Para D. Francisco Senra Coelho, esta é “uma justa homenagem, uma vez que “Abílio Fernandes é um homem com muito mundo, com um olhar alargado, um horizonte vasto e uma grande capacidade de congregar à sua volta e liderar”.

O arcebispo diz ter sido “com muito gosto” que marcou presença na cerimónia, “representando a arquidiocese e os seus antecessores que com ele trabalharam”, como forma de agradecimento “pelo respeito institucional e cordialidade” que sempre existiu.

“Abílio Fernandes ajudou Évora, decididamente, a tornar-se numa cidade do mundo, num polo de atração cultural de grande valor para o diálogo entre os povos e, por isso, património da humanidade e, hoje, um epicentro turístico relevante”, concluiu, D. Senra Coelho.

O percurso

Abílio Miguel Joaquim Dias Fernandes nasceu a 22 de fevereiro de 1938, em Moçambique. Casado e pai de cinco filhos, é licenciado em Finanças, pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa.

Passou, primeiro, pelo extinto MDP/CDE e ingressou no Partido Comunista Português, no inicio de 1976. Foi eleito presidente da Câmara Municipal de Évora, nos mandatos entre 1977 e 2001, nas listas da FEPU, como militante do PCP.

De 2005 a 2007, foi deputado comunista à Assembleia da República pelo circulo de Évora. Em 2007, foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

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