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Entrevista

Gonçalo Amaral. O “medo” da justiça portuguesa e as “mentiras” da justiça alemã no caso Maddie

14 out, 2021 - 16:54 • Celso Paiva Sol

No dia em que o seu novo livro "Maddie - Basta de Mentiras" chega aos pontos de venda, o antigo inspetor da PJ, que liderou os primeiros meses de investigação, diz o que pensa da investigação alemã e volta a dizer que os pais da criança inglesa ainda têm muito que explicar sobre aquele dia 3 de maio de 2007.

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Gonçalo Amaral acusa o Ministério Público e a Polícia Judiciária de terem medo de investigar o desaparecimento de Madeleine McCann. De assistirem impávidos a uma violação da soberania nacional, aparentemente, com medo de chegarem a conclusões politicamente incorretas.

No dia em que o seu novo livro "Maddie - Basta de Mentiras" chega aos pontos de venda, o antigo inspetor da PJ, que liderou os primeiros meses de investigação, diz o que pensa da investigação alemã e volta a dizer que os pais da criança inglesa ainda têm muito que explicar sobre aquele dia 3 de maio de 2007.

Começamos esta conversa com o desafio para que responda à pergunta que colocou na capa do livro. 14 anos depois, por que razão não sabemos a verdade?

Por medo da Polícia e do Ministério Público português, não tenho dúvidas nenhumas quanto a isso.

Medo de quê?

Medo de uma investigação que não seja politicamente correta. As autoridades judiciais portuguesas parecem preferir que outros resolvam o assunto, e isso é uma abstenção dos seus deveres como órgão de soberania, em relação á nossa própria soberania. Portugal não se pode abster seja em que caso for, neste ou nos outros que parece que querem associar a este. A cooperação não pode levar a isto, e só há este tipo de cooperação, que não é cooperação nenhuma, porque o Ministério Publico e a Polícia Judiciária estão com medo, e preferem outra solução.

"Parece que em Portugal tem medo desta investigação"

Mas existe uma investigação portuguesa. O inquérito corre os seus termos.

Existe um processo português, mas se existe uma investigação portuguesa temos as nossas dúvidas. Se existisse uma investigação portuguesa, Portugal já tinha obrigatoriamente que ter interrogado o individuo que está detido na Alemanha, e entrevistado como testemunha as pessoas, ou a pessoa, que dizem que ele confessou a prática desse crime de pseudo-rapto.

Parece que em Portugal tem-se medo desta investigação, e então pensa-se: ‘ah, eles resolvem? Então eles que resolvam. Isso não é connosco’.

A Alemanha, e esse procurador, estão a ficar donos e senhores de outras situações que aconteceram em Portugal, em que se diz que o indivíduo também é suspeito. Também foi ele que violou outra pessoa, que abusou, as autoridades alemãs dizem que para além do caso Madeleine, que eles já assumem que são eles que investigam, que já não é Portugal, há outros casos que aconteceram em Portugal. E aí em pergunto. Como é que o Ministério Público permite isto?

O Ministério Público alemão promete, para breve, a conclusão do seu trabalho. No livro fica claro que considera que essa investigação não tem qualquer credibilidade.

Não se encontra nada que ligue o indivíduo a Madeleine McCann. Nada. Nem no material que foi encontrado nas buscas realizadas na Alemanha, fossem objetos, máquinas, fotografias, computadores, coisas informáticas e não só, nem naquilo que foi apreendido pela polícia portuguesa dentro do apartamento onde a criança desapareceu.

Não conseguem colocar o indivíduo dentro daquele apartamento. Então o que é que eles fazem? Fazem aquilo que lhes dá jeito. Ele violou uma idosa americana na praia da Luz, ele terá abusado de uma irlandesa, e por aí fora, tem vários processos.

Ok, ele pode ter feito isso tudo, mas onde é que estão os indícios que o ligam a Madeleine McCann? E aí vão-lhe responder que existe uma testemunha, que para eles é uma testemunha sem qualquer motivação e credível, que deu um depoimento espontâneo relativamente aquilo que aconteceu. E tudo gira em torno dessa testemunha.

Até que apareçam outro tipo de indícios mais credíveis, continua a valorizar sobretudo o relatório intercalar que a sua equipa elaborou ainda em 2007. De acordo com essas conclusões, os pais da criança continuam a ter muito que explicar?

A única coisa que lhe posso dizer é o ponto em que se encontrava a investigação em setembro de 2007, em que se diz que ocorreu ocultação do cadáver, que houve uma morte acidental da criança, e que o desaparecimento se deve precisamente a essa morte acidental.

"A investigação tem que saber qual é a relação entre a toma desse medicamento e a eventual morte da criança"

Portanto, há um envolvimento dos pais – que tinham a responsabilidade pela guarda da criança – no seu desaparecimento. E não vamos para além disso, eu não falo em envolvimento em auto criminal. Eu tento ser o mais objetivo possível, e mais objetivo é dizer que há indícios no envolvimento do misterioso desaparecimento da criança.

Há fortes indícios da simulação de um crime de rapto. Nós perguntamos, e continuamos a perguntar, se se diz que há um rapto real porque é que se simula um rapto? A forma de avançar, não sendo eles a falar, tem que ser através da reconstituição dos factos com todos, o que passados 14 anos ainda é plausível de se fazer.

Neste livro Gonçalo Amaral explora de forma mais profunda a ausência de informação sobre a própria criança que desapareceu. Diz que a investigação portuguesa nunca teve acesso, por exemplo, ao seu historial clínico.

Numa investigação de desaparecimento, de rapto de crianças, de abuso de crianças, a primeira coisa que é preciso conhecer é a vítima. E esta vítima, nunca nos permitiram conhecê-la, nomeadamente com o tal histórico clínico.

A estas crianças era medicado, ou dado para dormirem um medicamente chamado Calpol, que é um anti-histamínico, que os punha a dormir. A investigação tem que saber qual é a relação entre a toma desse medicamento e a eventual morte da criança. E para isso precisamos do histórico clínico. Precisamos de saber se ela tinha um problema.

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  • Ivo Pestana
    15 out, 2021 Funchal 13:46
    Medo das polícias de investigação acredito, agora dos tribunais não comento mais,

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